>VVVVV>&&&&&%gt;gt;>>>>>>>>>>>>>>>>>"Ver e ouvir são sentidos nobres; aristocracia é nunca tocar."

;>>>>>>>>>>"A memória guardará o que valer a pena: ela nos conhece bem e não perde o que merece ser salvo."


%%%"Escrevo sem pensar tudo o que o meu inconsciente exala e clama;
penso depois para justificar o que foi escrito"


t;>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>"A vida e a morte são por demais implacáveis para serem puramente acidentais "


t;>>gt;>>>>>>>
"Uma existência de espera, sem quaisquer expectativas, é a única vida religiosa que eu conheço."



>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui"


>>>>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Resolvi não exigir dos outros senão o mínimo: é uma forma de paz..."

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."



sábado, 4 de janeiro de 2014

Estilo Missões e o Neocolonial




O Neocolonial foi uma tendência estética arquitetônica marcada pela sobriedade,
 imponência, solidez, preciosismo detalhista e ibéricas saudades.
 Acima a fachada do Instituto de Educação - RJ.



Um estilo muito marcante e difundido pelo Brasil.



Mesmo quando bem singelo, continua sempre encantador.



Na grandiosidade da Universidade Rural, a nobreza dos acabamentos
em azulejaria e os chafarizes em bronze.




A Escola Pedro II de Belo Horizonte é estupenda e nos
deixa boquiabertos com sua concepção detalhista.







"Arquitetura é música
 congelada."

Arthur Schopenhauer 

 "Soy loco por ti, América
Soy loco por ti de amores"
 

Caetano Veloso
 
Encontro de ornamentos entre um balcão e um chafariz na
 fachada neocolonial do prédio principal da UFRRJ.



Elegante espanhola aos pés do Pão-de-Acúcar.

Igreja de N. Sª. do Brasil em estilo Missões, na Urca-RJ


Estilo Missões: Californian Spanish Revival.





Neocolonial Espanhol teve âmbito pan-americano, sendo também bastante
 observado na arquitetura brasileira, especialmente em residências.






O Neocolonial Lusitano foi o sub-estilo mais
característico e frequente no Brasil.

Deixe estas edificações falarem ao seu espírito !
Elas são eloquentes e tem histórias para contar !



Um grandioso conjunto desta tendência arquitetônica
 no cenário rural do Rio de Janeiro.





Um passado revivido em pátios interno, arcos, colunas,
 jardins, frontões, telhados e paz de espírito.

 
A magnífica sede da antiga Escola Nacional de Agronomia,
no clássico Km 47 da antiga estrada Rio-S. Paulo, encanta
 com  seu conjunto de pavilhões e jardins neocoloniais,
 o estilo é lusitano, mas com pitadinhas de espanhol.


O Pavilhão de Biologia foi o palacete da minha formação acadêmica,
meu abrigo constante durante aquela fase difícil em que fiquei.


Mestre Eugênio formou muitos discípulos,
apaixonado pela Natureza do Brasil,
 dedicado, inoculou sua paixão
nas almas férteis com
 quem conviveu.

O que salvou-se desse tempo inútil e profundamente medíocre foi a inesquecível convivência com o grande zoólogo Eugênio Izecksohn, oásis no deserto. Foi com ele que aprendi sobre as orquídeas, é dele a origem do naturalismo vívido e da observação ambiental que se vê neste blog. ...Deus o proteja! Que nas cantorias dos anfíbios nas noites chuvosas e quentes, sempre ecoe o nome deste grande herpetologista brasileiro, que tantas importantes novas espécies descreveu.


Telhados proeminentes convidavam a chuva a cair copiosa, foi neste cenário majestático da UFRRJ , que num fim de tarde de outono, me senti, pela primeira vez, apenas mais um na fila de uma inevitável depressão por ter nascido no Brasil, tinha então 19 anos. Me senti muito desmotivado ao me deparar com as sucessivas greves, pelo monstruoso desinteresse dos docentes pelos discentes e pela distância entre a universidade, a economia e a sociedade agrícola do país.


Já era a UFRRJ uma instituição decadente, e eu, recém chegado, ainda teria de passar pelas muitas armadilhas dos seus corredores, carregando um melancólico e inesperado desinteresse interno, o mesmo que também recebia daquela  instituição tão alienada de sua função primordial de produzir profissionais úteis e gabaritados. Com o tempo passou a oferecer apenas "uns" cursos universitários de formação, a profissão teria que ser aprendida empiricamente pelos sertões afora.


A time ferocious and unforgettable
still sleeping under my skin.


O fundamento do meu interesse pelo Neocolonial está calcado nestes anos de convivência com tão encantadora paisagem, faz sonhar, me fez sonhar, tomará que eu consiga explicar e fundamentar esta experiência tão particular. Sempre gostei de bichos, plantas e História, ali pensei que seria o paraíso para mim, foi uma grande decepção, muito maior porque foi a primeira grande decepção que tive.


Não  imaginaria de pronto tão belo cenário abrigando barnabés tão típicos, foi um desconcertante momento pessoal, para quem não tinha noção da realidade educacional brasileira foi uma descoberta cruel. Vislumbrei  num primeiro momento o conteúdo humano sendo tão refinado e grandioso como o era a bela arquitetura onipresente, mas não era bem assim, ao contrário, a distância do Rio e o isolamento geográfico geral não permitiriam jamais a efervescência acadêmica e científica que inicialmente imaginava ali existir.

  Jardim Botânico da UFRRJ.

Somente a glória do projeto arquitetônico era conspícuo numa escola de agricultura onde não havia uma única lavoura produtiva em seus mais de três mil hectares de área, tratava-se mais de uma repartição pública com muita tendência à greve e à disputa pela hierarquia interna. Das minhas aspirações de aprender muito sobre a Natureza, sobrou o aprendizado sobre a natureza humana; como se diz aqui no Paraná : " por fora bela viola, por dentro só pão bolorento ".
 

Perguntava-me: quem teria erguido estes palácios tão belos em meio àquela distante Seropédica, naquele tempo um remoto distrito de uma remota Itaguaí, cidade da Baixada Fluminense ? O que era toda aquela grandiosidade arquitetônica em meio ao nada? Teria sido um grandioso projeto equivocado ? Diziam que a Universidade Rural teria sido erguida perto do balneário carioca como um acintoso gesto getulista à agricultura paulista e seu valoroso peso no orçamento nacional, o conjunto arquitetônico monumental era resultante de uma picuinha política federal.


Muito jovem e desconcertado, sentado às margens deste paradisíaco laguinho, vigiado pelos quatro tamarineiros indianos, num crepúsculo já bem friozinho em Maio, me chegou uma forte percepção de tudo que ainda viria a partir da opção de estudar ali, e que por fim se configurou como se previu, aquele fim de tarde  ainda hoje mostra-se um momento de reflexão inesquecível. Aqui tento, também, me livrar de lembranças que ainda me rondam, apesar das décadas decorridas...ainda tenho pesadelos muito desagradáveis com este lugar.



Foi muito tempo perdido esperando um rumo de vida neste paraíso visual, hoje entendo que muitos só resistiam estar ali se drogados, era grande o consumo de alienantes naqueles gramados.


O chamado Prédio Um - P1 - exibe uma imponência
digna de uma sede Estado.


O calorão que fazia naquela baixada sem fim parecia ter algum respeito pelos corredores
 e peças destas edificações, arejadas e sombreadas, eram muito agradáveis
 no abrigo dos que chegavam, suados ou molhados da chuva,
após cruzar os imensos gramados a pé.


Ares de casas antigas: os azulejos remetem logo
 à graça de um brejeiro Portugal.


 



Igreja de N. Sª. do Brasil
 em S. Paulo.

 
  Uma obra-prima do Neocolonial Lusitano no Brasil.









O anexo de 1922 do Museu Histórico Nacional.






A Escola Estadual D. Pedro II em Belo Horizonte é mais um expoente da arquitetura 
Neocolonial Lusitana brasileira, erguida na década de 20, me parece que esta é 
a referência inspiradora  que gerou a grandiosidade da  UFRRJ.










O Estilo Neocolonial sempre me chamou a atenção, a visão das fachadas e de certos interiores
 nos traz de imediato um forte saudosismo de tempos aparentemente mais felizes.
Embora as edificações não sejam exatamente  antigas, passam-se por
 antigas, sendo muito mais imponentes e bem construídas do
que àquelas de fato antigas, isto aqui no Brasil.



O novo estilo espalhou pelo cenário brasileiro uma riqueza arquitetônica já bem retrógada na época, mas bem antes, o estilo original não acontecera na forma de um ciclo completo, marcando muito pouco o país como um todo ao seu devido tempo. Apenas em algumas poucas e notórias cidades, e principalmente nas igrejas barrocas, havia um estilo colonial mais elaborado e expandido. Devido ao grande sucesso do estilo Neogótico nos templos católicos brasileiros desta época, acredito que havia no subconsciente social brasileiro uma carência, ou uma demanda, acerca de uma memória  ancestral  mais rica e evidente em detalhes, luxo e dimensões. O Neocolonial é justamente menos comum nos templos, parece que neste aspecto a paisagem arquitetônica já estava já satisfeita com as igrejas barrocas e as neogóticas.


O estilo aqui em discussão surgiu em berço norte-americano, o início da tendência foi o Spanish Revival, chamado de neocolonial californiano, este também conquistou apreço em terras brasileiras, mas foi enfrentado com a versão nacional inspirada no nosso passado colonial português. Aqui misturo indiscriminada e despreocupadamente, fotos de exemplares arquitetônicos significativos de vários países, não me importando muito com pertinência regional, estamos muito mais interessados em expor as circunstâncias da abrupta sucessão de estéticas tão diversas e contrastantes no Brasil.


 A Capela do Palácio Guanabara apresenta linhas 
neocoloniais suntuosamente simples e puras.

Este estilo arquitetônico, um colonial retrô, teve amplitude crescente nas primeiras décadas do Séc. XX, nos remetendo visualmente ao período colonial ou barroco, ou sendo mais aprofundado, à idade de ouro da arquitetura portuguesa. Revivida nesta época, porém estruturada em concreto armado, com acabamentos e revestimentos muito bem elaborados, industriais e disponíveis em abundância inédita, esta nova arquitetura  mostrava-se brilhante e opulenta.

Era a moda: astros de Hollywood moravam
em mansões Spanish Revival.

 Registre-se que as fachadas eram muito mais elaboradas que os interiores, era um visual algo simbólico e para ser admirado pelo passante, o usuário não necessitaria da mesma ilusão ao vivenciar cotidianamente a edificação por dentro. Era uma afirmação contraditória de  afinidade histórica com um Portugal republicano que ressurgia no cenário europeu, o modernismo, legitimamente brasileiro, finalmente nos satisfaria como cultura arquitetônica destacada.


Então o surgimento do Neocolonial Lusitano parece dar continuidade a este saudosismo tão evidente no cenário exterior, aparentemente também se fazia necessário naquele cenário cultural brasileiro saturado de palacetes ecléticos. Talvez fosse apenas uma reação nacionalista, como que desejando banir da paisagem a sisudez, os excessos e a falta de pertinência tropical dos mais significativos estilos anteriores: eclético  e neogótico. Assim vejo e assim estruturo esta apreciação do assunto, me perdoem aqueles que não concordam com nossas impressões pessoais.


Como trata-se de um estilo mais cabível em grandes e pomposas edificações,
 o Neocolonial Lusitano, no Brasil, ficou mais evidente em: igrejas, clubes,
 próprios do executivo , hospitais,  instalações militares e principalmente
 em instituições educacionais públicas.


Convivendo fraternalmente com a ascensão do Art Déco, o Neocolonial chegou 
até os anos 60  do Séc. XX ainda muito em voga, o subestilo Missões 
teria maior expressão nas casas de bom padrão.


  Mesmo em Portugal fez sucesso o Neocolonial Lusitano.

Azulejos, balcões, balaustradas, colunas, telhados coloniais, arcos, florões e medalhões sobre as portas, portões em metalurgia trabalhada eram características muito observadas no Neocolonial. Substituto do fulgor eclético, o estilo herdou deste  muitas características ornamentais, também um luxo e estética francamente impositivos ao observador. Vamos aqui vasculhar e exibir os antecedentes históricos para melhor entender este momento reconciliador entre a arquitetura brasileira e o passado português do país. Creio que esta época foi culturalmente muito importante , imagens são minhas testemunhas, os excessos de ornamentos arquitetônicos nos três estilos aqui considerados foram condizentes  com  da riqueza econômica que os ergueu; houve progresso econômico e tecnológico.





Ainda sobrevivem edificações bem brejeiras na paisagem brasileira, todos
já as notaram mas ninguém sabe ao certo o que é, então vamos
aqui tentar contar a história dessas edificações.


Os exageros estilísticos anteriores conduziram a referências 
arquitetônicas mais cabíveis na paisagem brasileira:




Um devoto e sorumbático Neogótico 
em meio ao calorão geral:
 

A Catedral da Sé de São Paulo deve ser a mais
impressionante edificação neogótica brasileira.



O contraste do estilo severo com a exuberância brasileira  
se observa bem na Catedral de Petrópolis.


 

 Acima a taciturna Catedral de Curitiba, na foto do meio uma igreja típica deste estilo em Salvador e o contraste do neogótico com  o colonial no conjunto mineiro da Serra do Caraça. O neogótico em templos religiosos católicos brasileiros ainda mostrou-se compenetrado e cabível na função fundamental de inspirar religiosidade e fé. Sob o aspecto religioso, observa-se até hoje uma grande amplitude de aspectos interessantes nestas edificações, a arquitetura verticalizada inspirava muita devoção nos fiéis, sob este aspecto, as igrejas são realmente muito acolhedora e meditativas.




 Também pelo interior do país ainda observa-se  ótimos exemplares desta estética.


Nas harmônicas linhas gerais do  Educandário Gonçalves de Araújo, 
Campo de S.Cristóvão no Rio de Janeiro,  vemos um exemplo raro
de elegante prédio não-religioso neogótico.



 
 

Já nos prédios sem qualquer conotação religiosa, seja no palácio real da Baviera
 ou no de Portugal, e mesmo na famosa Ilha Fiscal carioca, evidencia-se uma
falta de pertinência geral e até mesmo uma ingenuidade
 um tanto desconcertantes ao observador.




A fantástica proposta de um ainda mais taciturno neogótico, todavia de formas
 orgânicas e contemporâneas, beirando um delírio visual, consagrou a
arquitetura catalã de Gaudi. Foi uma das últimas expirações de
 vitalidade e fé deste estilo, restrita à obra e ao gênio
criador deste arquiteto.




Exposições Nacionais de 1908-22: 
A Bomba Eclética explode no Brasil !





O paço da Liberdade em Curitiba é um elegante exemplo dos primórdios do Ecletismo, depois o estilo se tornaria esfuziante e afrancesado, com ares palacianos, mostrando-se oposto em concepção, mas tão exagerado e estranho em terras brasileiras como foi o esquisito Neogótico.



Nos prédios da fase inicial do Ecletismo observa-se  logo uma forte influencia francesa,
 talvez mesmo parisienne, as edificações, independentes do tipo de uso, apresentavam
 um característico aspecto palaciano, marca forte deste estilo arquitetônico.




 A  eclética Ópera de Manaus era o símbolo óbvio da riqueza
que ainda dormia esquecida nos fins do mundo.




 
 Luxo no fim do mundo: viva a borracha das selvas do Brasil.


 Nem nos tempos do Império se viu teatro igual.


 Esplendores ecléticos até na Amazônia.

 O Brasil, por fim endinheirado, esbanja como um burguês
abençoado recentemente pela fortuna inesperada.


 Palácio do Rio Negro em Manaus.







Os primórdios apresentaram prédios já palacianos, mas com alguma sobriedade.

 Palácio S. Clemente, a antiga Embaixada de Portugal.

A Ópera de Paris seria inspiração para o Teatro Municipal da capital do Brasil.




No Rio de Janeiro uma arquitetura refinada e com
interiores de grande beleza ostentando ricos acabamentos .
 
A Família Imperial deposta e exilada na Europa deve ter ficado boquiaberta
com a gastança republicana, um luxo só observado nas igrejas
 barrocas dos séculos anteriores.

Com uma petite Ópera de Paris, o Rio de Janeiro 
passou a ser chamado a "Paris dos Trópicos"

Joia arquitetônica do Brasil: o luxo dos seus acabamentos
 e do seu conjunto geral são altamente singulares no padrão.
 
Da elegância inicial, algo discreta, com o tempo, as edificações  começam a crescer em imponência e ornamentos. O apogeu do ecletismo também seria culminado, como foi no Barroco,com um exagerado "rococó". As edificações começaram a se assemelhar aos "bolos de noiva": geralmente brancos e excessivamente ornamentados, quase sempre encimados por vistosas cúpulas ou frontões, como uma necessária apoteose aos céus. Uma caricatura de si mesmo, foi nisso que o Ecletismo se derivou, em alguns momentos há construções de um mau gosto exagerado inacreditável.






Por fim temos um inesquecível encontro da arquitetura palaciana
com a festividade burguesa, exuberante e feliz, como um bolo de noiva.

Palácio do Rio Branco - Salvador





 Os Palácios Guanabara e Laranjeiras , ambos edificações oficiais cariocas,
exibem um ecletismo rico e exuberante, como era de gosto da época.



A sede da  Bolsa do Café de Santos serve como exemplo do que aqui
chamamos de "bolo de noiva", por dentro e por fora é bem típico.





 O Ecletismo é o primeiro grande estilo arquitetônico que encontrou um Brasil mais
desenvolvido economicamente , mais urbano e com uma forte tendência cosmopolita.

Um Brasil muito disposto a aparentar um luxo que o
 apogeu da sua agricultura podia financiar.



A receita completa para erguer bolos-de-noivas, destes
 com deliciosa massa feita de gastança pública, continha impostos de:
café de S.Paulo, cacau e jacarandá da Bahia, leite de Minas, açúcar do
 Nordeste, charque do Rio Grande, erva-mate do Paraná e borracha da Amazônia.




em obras



A Exposição de 1908:
  
 "Priorizar a estética é dar
 prazo de validade a algo
 que nunca venceria."
 

Vamos então observar o início da grande explosão eclética que agrediria com
 veemência o cenário colonial do Rio; o Império já estava morto, mas
a República era viva, bem viva; o erário público sobreviveu, porém
com cicatrizes e deixando no ar um forte aroma de desperdício:


Ufanismo no cenário paradisíaco da Praia Vermelha, o Pão-de-Acúcar, que me parece teria sido uma ilha, teve seu entorno imediato aterrado, surgindo o agradabilíssimo bairro da Urca, a melhor herança dessa bizarra exposição exposição que marca o início do alto rococó do ecletismo brasileiro. O Portal da exposição é carnavalesco, de um desenho rebuscado ao extremo, o termo eclético rococó é o que melhor descreve este estilo de ornamentação excessiva, cheio de detalhes demais.


O Governo Federal promoveu esta exposição para comemorar o centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas por D. João VI, e fazer um inventário da economia do país à época. O seu principal objetivo, entretanto, era o de apresentar a nova capital da República - urbanizada pelo então Prefeito Pereira Passos e saneada pelo cientista Owslado Cruz - às diversas autoridades nacionais e estrangeiras que a visitaram.Teve lugar entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908, constituindo-se numa ampla exibição de produtos naturais e manufaturados, oriundos dos principais estados brasileiros. Houve ainda um pavilhão de Portugal.

Um delírio parisiense em meio às espinhentas bromélias que cobrem
os paredões dos morros de gnaisse da Praia Vermelha.



O Pavilhão da Bahia é o que mais me agrada, a despeito da
 super ornamentação é pequeno e algo gracioso.


O Pavilhão de Minas Gerais


O Pavilhão dos Correios.



O inacreditável horror vacui* do Pavilhão de São Paulo.

* Apesar da pronúncia estranha e da aparência da palavra, horror vacui quer dizer, em bom latim, horror ao vazio. É um conceito que pode ser aplicado a muitas coisas: arte, decoração, tipografia. É quando o decorador, arquiteto, artista ou desenhista, resolve encher cada cantinho com alguma coisa.

O Pavilhão do Distrito Federal.

Para quem passasse mal com tanto contraste
havia um posto de Pronto-Socorro.


Tratava-se de uma arquitetura efêmera, como foi tão tradicional nas festividades do Império, os fac-similes palacianos eram erguidos em madeira imitando alvenaria nestes tempos imperiais. Houve um progresso, nos tempos republicanos a construção era real, mas soerguida para em seguida ser demolida. Pensamento mais atrelado ao desperdício desatado, não havia riqueza para tanto, e a exibição ficou historicamente mal vista; tanto que bem poucos já ouviram falar dela, talvez mereça mesmo ser esquecida por completo.



O Pavilhão Manuelino português.






Depois da grande festa construtiva, os bolos-de-noiva foram progressivamente
 agredindo o senso estético das gerações posteriores, e foram, em grande
parte, demolidos sem dó nem pena, banidos assim da paisagem.








A Exposição de 1922:



"O olho é o arqui-inimigo do coração,
a mente processa a imagem visível
da mera ilusão estética e projeta a
paixão ao coração que é
o mais tolo dos órgãos."








Exposição Universal do Rio de Janeiro

A comemoração do Centenário da Independência foi o momento adequado para o governo do presidente Epitácio Pessoa recuperar seu abalado prestígio naquele difícil ano de 1922. A imprensa leal ao governo procurou relatar, em detalhes, todos os momentos da grande festa do dia 7 de setembro. O tom das reportagens era exagerado e patriótico, as edifícações erguidas eram de padrão construtivo muito superior as de 1908. O gosto arquitetônico era igualmente questionável, sediada nas proximidades do antigo Largo do Paço, naquele tempo rebatizado de Praça XV de Novembro, os bolos-de-noiva contrastavam  com as construções coloniais mais importantes da antiga capital federal.


O Palácio Monroe era a sede administrativa  da Exposição Internacional,
 depois tornou-se sede do Senado Federal no Rio de Janeiro




Iluminação feérica e prédios ecléticos esfuziantes.




A Exposição Internacional era enorme para os padrões brasileiros. O visitante percorria 2.500 metros entre pavilhões descritos pela imprensa como "deslumbrantes monumentos arquitetônicos". A entrada principal ficava na avenida Rio Branco. Foi construída uma "porta monumental" de 33 metros de altura. Na avenida das Nações se alinhavam os palácios e representações estrangeiras. Mais adiante, avistava-se a praça na qual se erigiam os palácios brasileiros, considerados "monumentos majestosos de nossa riqueza e de nossa capacidade de trabalho".


Foram erguidos 15 pavilhões estrangeiros. Na área nacional havia os palácios de festas, dos estados, da música, das diversões, da caça e pesca e muitos outros. Alguns poucos prédios ainda podem ser vistos nos dias de hoje, a maior parte foi sumariamente demolida por serem considerados de mau gosto.


A Exposição Universal durou até abril de 1923, e o número de expositores chegou a dez mil. Em setembro, o presidente Artur Bernardes fechou as comemorações do Centenário da Independência com uma nova parada militar na capital federal. Fosse o imperador Pedro II fazer algo deste  porte !!!!