>VVVVV>&&&&&%gt;gt;>>>>>>>>>>>>>>>>>"Ver e ouvir são sentidos nobres; aristocracia é nunca tocar."

;>>>>>>>>>>"A memória guardará o que valer a pena: ela nos conhece bem e não perde o que merece ser salvo."


%%%"Escrevo sem pensar tudo o que o meu inconsciente exala e clama;
penso depois para justificar o que foi escrito"


t;>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>"A vida e a morte são por demais implacáveis para serem puramente acidentais "


t;>>gt;>>>>>>>
"Uma existência de espera, sem quaisquer expectativas, é a única vida religiosa que eu conheço."



>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui"


>>>>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Resolvi não exigir dos outros senão o mínimo: é uma forma de paz..."

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."


&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"A inveja morde, mas não come."


terça-feira, 17 de junho de 2014

As Viagens do Imperador - Parte II



não deixe de ver a Parte I....




Os dois entusiasmados arqueólogos, por acaso imperantes brasileiros,
seguiram juntos para a Terra Santa e Egito, numa viagem de
muitos encontros com o passado da Humanidade,
da Arte e da Civilização.



Creio que desde o nascimento de seus filhos e netos, 
nunca o casal estivera tão agradavelmente unido.
Ambos tinham uma vibrante espiritualidade
 atávica, além de grande fé em Deus,
embora não fossem exatamente
parecidos entre si.


A feliz charge histórica
acima, nos mostra muito bem
 esta característica tão peculiar deste casal.



O longo reinado de D. Pedro II, de quase meio século, consolidou 
o Brasil como uma nação continental coesa. Após a Guerra
do Paraguay a situação acalmou-se, a economia  ia
bem com a ascensão da lavoura cafeeira, apenas
a Escravidão era um problema grave.
 No Brasil só se faziam críticas às suas férias,
 mesmo depois de décadas  governando
  o país, não mereceria qualquer 
descanso ou lazer.


"Atitude por atitude, 
melhor a mais nobre,
 a mais alta e a mais calma.
  Pose por pose,
 a pose de ser o que sou. "

"A memória é a (auto)consciência 
inserida no tempo."
  
  "A superioridade não se mascara de palhaço;
 é de renúncia e de silêncio que se veste."

Fernando Pessoa.

"O papel principal da memória é conservar
 não simplesmente as ideias, mas
a sua ordem e a sua posição."

David Hume 

 "A memória é uma armadilha, 
pura e simples, que altera,  e 
subtilmente reorganiza o passado,
 por forma a encaixar-se no presente."

Vargas Lhosa


O início da Egiptologia científica e de cunho mais arqueológico,
 receberia in situ as curiosas e pioneiras visitas do 
egiptólogo amador Pedro de Alcântara
 do Brasil, um imperador em férias.

Erudito, possuía até mesmo um museu arqueológico
 particular em seu palácio, com variadas 
peças: múmias indígenas e legítimos
 artefatos egípcios e etruscos.
No Museu Imperial havia 
acervo bem maior e de
mesma natureza.

Historiadores acreditam que o imperador, 
devido às visitas e aos seus manuscritos, 
pretendeu escrever um livro 
sobre Egito Antigo.

Boa parte da imprensa brasileira interpretava
 tudo isto como um descaso pelo governo,
derivado da alienação de um monarca
 teatral e obcecado pela sua projeção 
pessoal como um sábio 
altamente ilustrado.

Ao ter protelado a abolição da escravatura,
ele pode ter errado, quando sua filha
proclamou a liberdade dos negros,
um ano depois caiu a monarquia,
instalando-se uma  ditadura 
militar por 6 anos, que 
gerou uma guerra 
civil e milhares
 de mortos.


O Orientalismo, surgido nos tempos vitorianos, faria com que o interesse
sobre a Terra Santa e Egito crescesse muito, também o surgimento
 dos transportes  marítimos a vapor, gerariam  conjuntamente
um considerável fluxo de turistas e curiosos 
para estas bíblicas paragens.







Para ver a Parte I 
desta postagem:
>> CLICK AQUI<<






Viajando e instruindo-se, ele realmente
se sentia ditoso, era bem recebido
e respeitado como imperador
de um  país continental, mas
 com orçamento menor
que o da Bélgica.

Era um monarca muito atípico:
 pobretão, todavia do mesmo
 sangue nobre das outras
realezas europeias.




A Itália de Teresa Cristina de Bourbon e Duas Sicílias era sempre visitada
 em todas  as viagens dos imperantes, para que a imperatriz
 pudesse rever seus familiares e amigos.





Ilustrações italianas do início
 década de 1870 e de 1888.



O Vesúvio sepultou sob os seus escombros vulcânicos as cidades de Pompéia e Herculano,
suas ruínas, objetos e muitos corpos foram conservados com todos os detalhes.

Pompéia tornou-se uma sensação arqueológica.
 
Erupção do Vesúvio em 1872, na mesma época da visita imperial.  
 
Ao centro o imperador em  Pompéia , já na viagem de 1888 , à esquerda estão o
 Príncipe Pedro Augusto e o médico Motta Maia, e à direita o
 camareiro visconde de Nioac.

 
A imperatriz arqueóloga deve ter exercido alguma 
influência sobre os roteiros das viagens.

 A imperatriz e sua camareira podem ser vistas  ao lado da mulher de branco,
sentadas bem acima do soldado isolado ao fundo.

Visconde de Nioac com guarda-chuva, Motta Maia atrás de perfil,
 Pedro II também de guarda-chuva e Pedro Augusto atrás, ao lado do avô.

Com a minúscula imperatriz e o neto Pedro Augusto em 1888, esta viagem
 duraria 14 meses e ficariam principalmente entre Portugal, França e Itália; 
visitando rapidamente a Bélgica e a Áustria.

 
Em Pompéia em 1871.



Como um evidente sinal do grande patriotismo do imperador D.Pedro II,
todo o  acervo arqueológico privado da imperatriz, por fim tornou-se
 patrimônio nacional, doado por ele já no exílio, estando este 
atualmente abrigado no Museu Nacional e no 
Museu Nacional de Belas Artes, no Rio.

Ferdinando II - Rei de Nápoles.

D. Pedro II exigiu na doação que este acervo
 fosse nomeado de: "Coleção Teresa Cristina".

Trecho de carta da imperatriz ao irmão, em 09 de novembro de 1854, 
questionando sobre a possibilidade de troca de antiguidades 
greco-romanas por arte plumária e artefatos
indígenas brasileiros:


"Vengo, caro Fratello, domandarti francamente se sarebbe possibile, che tu mi mandassi degli oggetti di Pompeia e Ercolano, o qualche altra antichità per il museo di qui, perché me li hanno domandati ed anche se tu vuoi qualche cosa che sta nel museo di qui, si potrebbero fare dei scambii, perdonami tanta seccatura, ma con te non faccio cerimonie e spero che altre tanto tu farai con me"

"Venho, meu caro irmão, lhe pedir francamente se seria possível me remeter alguns objetos de Pompéia e Herculano, ou quaisquer outras antiguidades para o museu daqui, pergunto também se lhe interessa algo que esteja neste nosso museu, poderíamos fazer uma permuta, perdoa-me se te aborreço com este estorvo, contigo não faço cerimônias, e espero que não as faça comigo"


O valioso busto de Antinoo, da coleção da imperatriz e
atualmente exposto no MNBA.

 
Os objetos da Coleção Greco-Romana do Museu Nacional, têm origem nas
pesquisas arqueológicas da Imperatriz  Teresa Cristina nas suas
propriedades em Veio, ou então vieram no seu dote, ou
 ainda foram presente de seu irmão Ferdinando II,
Rei de Nápoles e Duas Sicílias.




Os afrescos de Pompéia na coleção, são exemplares de
 menor  porte, porém de ótima qualidade artística.


Cabos de espelhos funerário.



Escultura em mármore e cálice com cariátides,
 provenientes de Veio.


Vidro verde romano.



Guerreiro etrusco estilizado.
 
 Vaso grego antigo.

Vitrine no Museu Nacional com os objetos de uso
 de toucador da Coleção de Antiguidades
Greco-Romanas e Etruscas.


 
"Guardados no Museu Imperial de Petrópolis, os relatos se referem à segunda viagem internacional do monarca, na qual ele visitou, em 18 meses, mais de cem cidades, em quatro continentes. D. Pedro II anotou impressões dos 24 dias no Líbano, Síria e Palestina otomana, percorrendo quase 500 quilômetros."  
 
   
Lista da programação de viagens das férias
   de 1876, o Pedro da Mala estava em ação.  

 
"O historiador José Murilo de Carvalho, que escreveu a biografia do imperador (D. Pedro II – Ser ou não ser, editora Companhia das Letras), considera essas viagens grandes pistas para desvendar a personalidade real de Pedro de Alcântara, que, embora sentasse em um trono, era um homem simples e amante das artes. Fora do Brasil, ele podia se dar ao luxo de ser um apreciador comum de conferências, espetáculos e lugares históricos."    

da Revista de História.

 
A imperatriz que estava numa estação de águas minerais na Alemanha, se reencontra com a comitiva vinda da Rússia em Constantinopla, na Grécia se encontrariam com a Condessa de Barral. Depois partiriam de navio para o Líbano e de lá iriam por terra , em peregrinação, até Jerusalém. Depois mergulhariam nas paisagens e ruínas do Egito, findando a longa jornada em Lisboa onde o paquete regular os conduziriam de volta ao Rio de Janeiro.

 Os aposentos da  sultana e o
   europeizado palácio Topkapi.

A Capital do Grande Império Otomano.

Constantinopla e o Império Otomano eram o esplendor
  do Oriente na fronteira com a Europa,

 
A Grécia presenciou o reencontro tão sonhado com a companheira,
 que nos sentimentos de D. Pedro era sua alma gêmea.


 
Sempre descrita como sendo de prosa e charme irresistíveis,
tal como uma "sherazade" afrancesada, a Condessa de Barral
 cativou Pedro II por décadas, com muita atenção,
opiniões decididas, críticas ácidas e muitas
 centenas de cartas intimistas.



A Condessa de Barral ( por casamento e da Pedra Branca,
nasceu baiana e foi criada na Europa pelo pai embaixador.


Até na amante D. Pedro II foi diferente, ela era bem mais velha que ele, neste encontro de Atenas já tinha cerca de 58 anos,  quase uma década a mais. Minúscula como a imperatriz  e sem maiores dotes de beleza, tal como ela, todavia apresentava postura, elegância e conversa encantadoras. Criada na França, tornou-se muito refinada e fluida em assuntos europeus, em nada lembrava a chucra, caipira e voluptosa  Marquesa de Santos, amante do eternamente munido Pedro I. A imagem típica que se faz das amantes não serve para D. Luísa Margarida, a fascinante Condessa de Barral. Ela sempre se comunicou com o sua "alma gêmea" com evidente superioridade espiritual, todavia tratava o imperador com toda formalidade que as prerrogativas dinásticas dele mereciam. Seu o olhar era magnético e tantalizante, cultíssima e impositiva, fascinou Pedro II, que a considerava uma alma gêmea.

D. Luísa Margarida foi adjetivada na
 corte francesa de "maravilhosa".

Sempre fina , discreta
 e bem vestida.


"O imperador tinha um acordo com a condessa, de que ambos deveriam queimar as cartas recebidas um do outro imediatamente após a leitura. D. Pedro II seguiu as regras. Ela, por amor à história pessoal ou do País, guardou-as. Em 1940, o marquês de Barral e Montferrat, neto da condessa, doou quase cinco centenas delas ao Museu Imperial de Petrópolis."



"Em 1970, José Mindlin, que era amigo do embaixador brasileiro em Paris, João Hermes, ficou sabendo que um irmão do marquês queria vender parte da correspondência de sua avó e trouxe as 377 cartas para o Brasil, a mais antiga datada de 3 de setembro de 1868 e a última escrita em 31 de dezembro de 1883."
 
“Não é por certo
de boa moral
trair a esposa
com a Barral."

Do pasquim O Corsário 


A Grécia e o amor da Condessa de Barral foram um    
grande encantamento e o ápice emocional de viagem.

 
Posteriormente, pernoitando na cidade de Campo Largo
 no Paraná, curiosamente escreveu a sua querida
 condessa dizendo-lhe que o ar daquela noite 
lembrava-lhe as noites gregas, em Atenas.

     
 As inesquecíveis noites de Atenas, acompanhado da
 Condessa de  Barral, marcariam para sempre
 as memórias sentimentais do imperador.  

O teatro Odeion  foi testemunha do início da cultura ocidental na Grécia Antiga.
    Da Grécia partiram para a Terra Santa.

  
Beirute no Líbano foi a porta de entrada  
 para a peregrinação à Terra Santa.  
 
O casal de imperantes dos país das selvas de férias e em peregrinação religiosa e turística, provocou imensa curiosidade, tanto no Líbano como na Síria. D. Pedro com seu jeito cativante, simpático e simples incentivava junto à administração estatal a imigração desta gente para o Brasil, alardeava as maravilhas despovoadas e chuvosas do Brasil. Na época, esta parte do mundo fazia parte do vasto e semi-árido Império Otomano, sediado em Istambul na Turquia, por isto esta futura corrente de emigração ficou conhecida no Brasil como "turcos", mesmo sendo sírios-libaneses, o passaporte era "turco",  mais precisamente turco-otomano.
 
 
 A emigração desta gente com o comércio enraizado na alma, veio a enriquecer a sociedade brasileira, os fluxos migratórios começaram a se configurar a partir da passagem das Majestades Imperiais pelo desertos da Terra Santa. Temos hoje em terra brasileiras a maior população de libaneses e descendentes fora do Líbano, são milhões, é uma cativante história de miscigenação cultural que começou nesta circunstância que aqui descrevemos. Ele seguia altivo pela Terra Santa a cavalo, ela discretíssima ia de liteira, a História do Brasil, mais lenta, seguia a pé observando tudo e fazendo conexões; eu sigo hoje, profundamente sensibilizado, o último da fila, estupefato com amplitude das viagens de S.M.I. Como foi possível nada saber sobre isto tanto tempo? Por que essa parte da História foi deliberadamente obliterada? A figura dele incomodava muito os primeiros republicanos, era preciso eliminar o contraste que causava, mas hoje não há mais porque mantê-lo na escuridão da imensa noite de contar os anos. Faz-se mister resgatar-lhe a honra pessoal, também a sua postura como Chefe de Estado, uma forma de oferecer flores aos seu ossos; se ele por ventura não merece nossa consideração, ninguém mais que posteriormente tenha governado nossas terras nacionais há de merecer.
No Líbano o encontro com as ciclópicas ruínas de  Baalbeck, as maiores colunas    romanas já erguidas e blocos de pedras tão gigantescos que desafiam a imaginação.  


 

Igreja do Santo Sepulcro.


 Uma viagem para além da vida, todavia relacionada com a  Terra Santa.

  Por isto decidi melhor alocar neste ponto o interessante detalhe
  psicografado pelo famoso médium Chico Xavier:

Cassius Longinus reencarna
    como D. Pedro II:


 
São Longinus.   

  
Pedro de Alcântara.

  
De todas as tuas histórias , dentro desta tua existência tão
   rica em detalhes, esta foi o que mais gostei !

 Sobre a espiritualidade de Pedro II, prefiro dar-lhe voz, compilando
 alguns dos  seus pensamentos, muitas vezes contraditórios, 
porém típicos daqueles que na  incerteza do corretíssimo, 
acabam por ter respeito e fé por tudo que seja
   digno e moralmente aceitável:

  " Deus é a natureza."  

" Cristo é a transformação divina através da História. "

  " Sair da espiritualidade para entrar na idealidade. "

 " A idéia de que Deus é uma forma de idéia do infinito."

 " Sou religioso porque a moral, condição da inteligência,
 é a base da idéia religiosa. "
   
" Minha razão considera todas as leis morais e físicas como estabelecidas pelo Criador:
  uma delas seria a evolução completa no reino animal com a distinção
  psicológicas do homem em relação aos outros animais."


Era refratário: a Maçonaria, ao Esoterismo, ao Titanismo de Gobineau,  ao Positivismo de Comte e Benjamin Constant, e ao Niilismo de Nietzche. Ao contrário de sua filha Isabel, não era católico fervoroso e radical, também não apreciava o convívio de animais domésticos. 


"Cassius Longinus, centurião romano, foi incumbido de verificar se o crucificado Jesus de Nazaré estava morto. Com a lança, atingiu pelo flanco o coração do Messias. A lei proibia que os crucificados ficassem moribundos após a hora nona. João, o Evangelista, afirma que "um dos soldados lhe abriu o lado com uma lança e logo saiu sangue e água" "Dos teus esforços se exigirá mais de meio século de lutas e dedicações permanentes. Ampara os fracos e os desvalidos, corrige as leis despóticas e inaugura um novo período de progresso moral para o povo das terras do Cruzeiro.  
 
"Procura aliviar os padecimentos daqueles que sofrem nos martírios do cativeiro, cuja abolição se verificará nos últimos tempos do teu reinado." "Foi assim que Longinus preparou a sua volta à Terra, depois de outras existências tecidas de abnegações edificantes em favor da humanidade, e, no dia 2 de dezembro de 1825, no Rio de Janeiro, nascia de D. Leopoldina, a virtuosa esposa de D. Pedro, aquele que seria no Brasil o grande imperador e que, na expressão dos seus próprios adversários, seria o maior de todos os republicanos de sua pátria."
  ( do livro Brasil Coração do Mundo, Pátria do Evangelho, de Humberto de Campos,
 psicografado por Francisco Cândido Xavier)  
 
Personagem histórico rico em  facetas espirituosas e espirituais.
   Não poderia deixar de registrar estes detalhe !
 
 
     
 A entrada da Igreja do Santo Sepulcro e Portões nas Muralhas de  Jerusalém,
  fotos da época da visita do imperador do Brasil.
 
"A visita de D. Pedro II a Jerusalém, em 1876, foi um dos marcantes acontecimentos locais da época. Para só citar um exemplo, basta dizer que a Imperatriz Dona Teresa Cristina, conforme sublinham as crônicas, foi a primeira imperatriz, depois de Santa Helena, mãe do Imperador Constantino, que pisou naquelas terras tão caras aos cristãos."
 

A Mesquita de Omar, o Muro das Lamentações e
os restos do Templo de Salomão.


Acima, vemos um Pedro II (será ele mesmo ?) quase bíblico, pelas 
barbas ainda algo escuras, só poderia ser na viagem 1871-72,  
montado num camelo, tal como um rei mago 
tropical em peregrinação
 ao Oriente.
 
 S.M.I.  em 1870, um ano antes de sua primeira
 viagem ao Egito, podemos comparar
 as fotos, a expressão é a mesma.

 Já na viagem de 1876-77, ele exibia uma barba completamente branca,o casal de imperantes veio do Líbano até Jerusalém, cerca de 500km , ele a cavalo e ela de liteira. Eram ambos arqueólogos e peregrinos, nesta viagem estavam juntos, não por total acaso a Condessa de Barral  desapareceria da comitiva quando estiveram no Egito.
 
Belém.

Nazaré

 
 Mulheres orientais, o Muro das Lamentações e o Rio Jordão
 que Pedro II viu em Israel na viagem de
1876, fotos da época.

 
  
 Abaixo um longo trecho do diário de viagem de    
D. Pedro II à Palestina, do dia 29/11/1876:  
 
Um dos santos, eremitas do deserto, que marcaram o início
do cristianismo, foi o monge palestino Sabbas.


O mosteiro faz parte da Igreja Greco-Católica Melquita,
 com sede episcopal também em Jerusalém.


“Saí as 5 ½ (5h30). A Imp.(Imperatriz), como não podem ir as liteiras a S. Sabbas e mesmo não entram Sras. no convento, segue o caminho de antes de ontem partindo mais tarde... O caminho daí até perto de S. Sabbas é terrível, atravessando-se gargantas horrivelmente pitorescas... Ao chegar ao convento caminha-se ao longo do Cedrón, cujas ribanceiras de pedra têm centenas de pés de altura... Os edifícios do convento estão agarrados à ribanceira direita do rio que se lança no Mar Morto... Receberam-me com repiques desde que me avistaram, e à entrada com duas tochas acesas. Os frades, que são 60, estavam me esperando. O que mais me agradou no convento, cuja regra é a de S. Basílio – são gregos cismáticos –, foi como os melros, que se abrigam nos buracos da ribanceira oposta, vêm comer na mão dos frades.  

 
 O corpo do santo monge, guardado no mosteiro, ainda mostra-se
  incorrupto, demonstrando a força da fé do eremita.

Abaixo  se vê a tamareira cansada do tempo, no pátio do mosteiro, 
exatamente conforme foi descrita pelo imperador em seu diário.


O Mosteiro de Saint Sabbas.

"Num pequeno quarto, havia manuscritos dos Evangelhos e Sermões... Custou a obter do frade que falava francês, que deixasse o Henning examinar a outra coleção de livros de uma torre onde ele achou alguns manuscritos, apesar do frade asseverar que só existiam impressos. Tal repugnância poder-se-á explicar pela vergonha que eles tenham de não haverem aproveitado, por ignorância, as riquezas literárias que possuam... O convento é, por assim dizer, um meschakid de edifícios aproveitando as grutas do rochedo... Num canto mais abençoado, levanta-se uma palmeira bastante alta, mas que se curva para trás como que precisando de encosto na parede. Os frades deram-me doce, água e café e à 1 ¾ (13h43) parti. O caminho daí em diante não é tão pitoresco. Às 3 ¼ (15h30) já via Jerusalém, subia sempre mais ou menos atravessando diversas vezes o Cedrón, ou seguindo para dentro do seu leito até Jerusalém.”

 
 A estrada para Jerusalém viu um pouco do Brasil peregrino
   seguir viagem para o Egito dos Faraós.
  
 
  
Lugares místicos como as capelas da Anunciação, da  Virgem Maria e do
  Santo Sepulcro mereciam visita e oração. Foi uma vista inesquecível à Terra Santa.







 A acadêmica esfinge brasileira na
 terra das pirâmides.
"A ciência sou eu ! "
  De Pedro II do "Rasilb"
à  Grande Esfinge de Gizeh.
 
 
Vários governantes europeus, curiosos com a riqueza arqueológica do
  Vale do Nilo, visitaram o Egito após 1870, entre os primeiros
 está o imperador do Brasil.


Passou o Natal no país dos faraós e logo depois seguiu viagem pelo Alto Nilo acompanhado do egiptólogo francês Mariette, deixando tudo registrado em um diário, o famoso Voyageau Haute Nill que foi traduzido e  publicado em 1909 por Afonso d’Escragnolle Taunay. 


Um sonho, um encontro com a Eternidade, 
mas também a percepção da miséria do 
povo e do atraso do país.




"Desembarcamos na margem direita acima do lugar de embarque
 de manhã, por que deixaram numa ponte passagem estreita
 demais e a corrente do rio era forte. Assim, é quase
 tudo no Egito, que engatinha na estrada 
da civilização! " 
(Diário da primeira viagem - 7/11/1871)

"Farei quando puder algumas considerações sobre o Egito tomando por tema 
 estas palavras de Ampére em 1846 na introdução de seu belo livro a respeito
 dessa região. ‘L’Egypte intéressa encore dans le présent et dans l’avenir; 
dans le présent par l’ágonie de son douloureux enfantement; dans l’
ávenir par les destinées que l’Europe lui prépare quand ele l’áura 
prise, ce qui ne peut tarder."

(Diário da primeira viagem - 13/11/1871). 

tradução livre:
( O  Egito se interessa pelo presente e pelo o que está por acontecer, no presente pela 
agonia de suas dores de parto; no futuro as destinações que a Europa lhe
 prepara terão acontecido, o que não pode atrasar. )






Com chapéu de viajante
romântico do Séc. XIX.


D. Pedro e a Imperatriz, o egiptólogo Auguste Mariette
 de roupa clara, os Barões do Bom Retiro e de Itaúna.

"A primeira viagem, foi restrita apenas as cidades do Baixo Egito - Cairo e Alexandria -, sendo que, a partir do Cairo, Pedro de Alcântara subiu até a cidade de Mênfis onde estão situados importantes sítios arqueológicos que na época de sua estada no país haviam sido recentemente descobertos. Acompanharam o intelectual nesta viagem: D. Teresa Cristina, o Camarista Nogueira da Gama, o Vereador Visconde de Bom Retiro, o médico Barão de Itaúna, a Dama Leonídia dos Anjos Esponsel, duas criadas e sete criados,in totum 15 pessoas."


  Pedro de Alcântara gozando suas 
férias notáveis e inesquecíveis.


A comitiva brasileira junto aos dois mais importantes egiptólogos da época: Mariette (de braços cruzados) e Emile Brugsh ( ao lado do imperador ) designados como seus guias. Posam sentados diante das ruínas do platô de Guizeh, próximo do Cairo, em 1872. O imperador das selvas vivenciaria a extensão da eternidade da História de perto, contente e bem acompanhado neste cenário transcendental, ele mostra-se ditoso e satisfeito na pose. Sentado entre as mulheres, está seu querido amigo de infância o Barão do Bom Retiro. Esta foto histórica fantástica, será apreciada para sempre como um momento único e marcante onde o Império do Brasil se vê projetado diante de ícones clássicos da História Universal.




Suas duas viagens às terras egípcias ocorreram em 03 a 14 de novembro de 1871 e 11 de dezembro de 1876 a 06 de janeiro de 1877. Delas restaram-nos cartas, fotografias e dois diários de viagem. Considerando que as narrativas de viagem de D. Pedro II são representativas de suas visões de mundo e que todo discurso é, como ressaltou a estudiosa Nathalia Monseff Junqueira, político e cultural, estas narrativas tornam-se importante testemunho de suas impressões e pensamento. São de fato uma boa fonte, onde estão registradas verdadeiras pérolas de sinceridade dele.

"Evidenciamos, ao analisar os dois diários de viagem, que o primeiro deles, escrito com uma linguagem simples e de fácil compreensão, era destinado a uma pessoa em específico: uma grande amiga, que supomos ser a Condessa de Barral, devido à grande aproximação, idade e amizade existente entre os dois; no segundo, observou-se uma grande transformação na maneira de se escrever: a linguagem tornara-se polida, erudita e de difícil compreensão, onde o imperador brasileiro dialoga com importantes nomes da Egiptologia do período, conhecidos em ocasião de sua primeira viagem, e com autores clássicos que se dedicaram, em parte, à sociedade egípcia, tais como Heródoto, Diodoro e Estrabão. Supomos que este segundo diário fosse destinado a um público conhecedor de Egiptologia, mais provavelmente seus amigos egiptólogos, devido à sua forma analítica da geografia, dos descobrimentos arqueológicos, dos baixos relevos e hieróglifos, assim como os templos que visitou ao longo de sua viagem pelo rio Nilo. No que tange ao primeiro diário, referente às passagens por algumas localidades do Baixo Egito - Gizé, Heliópolis, Menfis, Saqqara e Alexandria."


"O Egito, diz Heródoto, é um presente do Nilo, que vejo carregar turvas águas  sedimentos vivificadoras da vegetação, adorno das margens."  (Diário da segunda viagem - 12/12/1876) 

 
Um Egito inesquecível e romântico se mostrava ao orientalista imperador do Brasil, ele  adorou o mergulho na paisagem conservada, os monumentos imponentes e misteriosos eram estimulantes à imaginação. Até do pó do tempo provavelmente também gostou, já a pobreza extrema do povo não era previsível e chocou-o bastante.

 
As ruas que ainda não se encontravam europeizadas eram, para D. Pedro II, verdadeiros e imundos formigueiros com fétidos odores; os edifícios, que geralmente tentavam imitar padrões arquitetônicos europeus, eram considerados feios; a difícil navegação pelo rio Nilo tinha um motivo: o Egito ainda engatinhava rumo à civilização. Depois de ser vanguarda na Antiguidade, encalhou na pasmaceira !




Mesmo dispondo de pouco tempo, Pedro de Alcântara participou de sessões no Instituto Egípcio de Alexandria, e no dia 1º de novembro de 1871 foi eleito Membro Honorário do Institut National d’Egypte, realizando um discurso de  agradecimento e expondo os conhecimentos sobre o Egito que já havia adquirido em seu país:(...) eu pedi a palavra e agradecendo a minha eleição de sócio, disse algumas palavras para mostrar que conhecia já um pouco o Egito na minha pátria.” "Leram-se memórias interessantes, depois percorri um pouco a casa, sobretudo a biblioteca, pequena ainda, e conversei com todos os meus colegas presentes, queram dezesseis. Pareceram-me quase todos inteligentes e instruídos."            (Diário da primeira viagem - 10/11/1871).

 
A Alexandria de Cleópatra e dos grandes sábios
 da Antiguidade também viu passar Pedro II.
  
"A preservação do patrimônio histórico do antigo Egito se torna fundamental para a criação de uma memória que o ligue geneticamente à tradição ocidental. No dia 13 de janeiro de 1877, estando indignado diante do abandono dos monumentos do Egito, Pedro de Alcântara, em torno de vários membros reunidos no Instituto Egípcio de Alexandria, denunciou o crime de lesa-ciência e lesa-beleza do patrimônio do país. A sua comunicação foi registrada no livro de ouro da entidade, sob o título de vandalismo dos viajantes , e algumas de suas denúncias contribuíram para que fossem tomadas medidas por autoridades competentes. Esta construção de um valor histórico-cultural para o povo do antigo Egito, nada teve haver com o valor atribuído pelos povos muçulmanos que habitavam o país, pois para estes, o Egito dos Faraós representou um período de adoração a vários deuses pagãos, muito anterior a revelação maometana. Tanto em Denderah como em Abydos são flagrantes os vestígios de incrível vandalismo. O Khediva bem poderia gastar uma parte da soma, que prodigaliza com os seus palácios, na conservação desses monumentos, tão interessantes para o estudo do Alto Egito."       (Diário da segunda viagem, 17/12/1876). 

   


"Acho Alexandria muito adiantada, e se o Khediva tivesse ‘gastado’ menos com as construções de palácios e outras superfluidades, maior número de melhoramentos teria eu observado depois de cinco para seis anos de ausência. O Khediva é inteligente e amigo do progresso; porém aproveita demais os gozos do Oriente..."           ( PII em Cartas à Condessa de Barral, 16/01/1877).
 
Foi em Alexandria que Pedro II recebeu a notícia da 
promulgação da Lei do Ventre Livre.

 

O Khediva do Egito dispunha de um luxo que não guardava similares
   em território brasileiro, também deixou Pedro II boquiaberto.
  
"Sendo assim, Pedro de Alcântara assume a postura de uma autoridade intelectual nos moldes europeus em relação à compreensão da história do Egito. Sua segunda viagem, possuiu um caráter bem distinto da primeira, pois, além de ter sido previamente organizada, abrangeu toda a extensão do Egito, e revelou a figura de Pedro de Alcântara como um verdadeiro egiptologista, o que prova que no espaço de tempo entre as duas viagens o intelectual estudou a fundo o que vinha se produzindo sobre a história do país, atualizou os seus conhecimentos através dos grandes egiptólogos que conheceu em sua primeira viagem, e até arriscou palpites, com a convicção de uma verdadeira autoridade, em relação a produção de conhecimentos sobre o Egito Antigo. Nessa última ida ao Egito, Pedro de Alcântara realizou meticulosamente seus apontamentos, levando em conta o que se é possível fazer em uma viagem. Anotou detalhes dos sítios arqueológicos que visitou, traduziu textos escritos em monumentos antigos, e como foi visto, discutiu com autoridade questões referentes à história do Antigo Egito. Segundo o arqueólogo Claudio Prado de Mello, era provável que Pedro de Alcântara desejasse publicar posteriormente seus registros em forma de um artigo, já que se referia ao seu diário como um jornal. Tais viagens foram, como aparecem em seus diários, um dos ápices da realização pessoal do nosso intelectual, pois, possuindo um vasto conhecimento sobre o mundo, ansiava por em prática e vislumbrar tudo aquilo que havia estudado e aprendido até então, já que a instabilidade política em que se encontrou o Brasil após a partida de seu pai para Portugal não o permitira ficar muito tempo longe do comando do país. "
 

Os egípcios modernos, para D. Pedro II, tinham uma poesia canhestra e destituída de metrificação, apenas contemplada por pensamentos banais. Acusava-os de tocarem instrumentos semelhantes aos dos negros boçais, claramente expôs que os muçulmanos provavelmente mais cochilavam e dormiam do que estudavam o Alcorão.

"(...) e os árabes dançaram lembrando-me pelos movimentos e toada do canto a dança dos botocudos do Rio Doce. (Diário da primeira viagem - 4/11/1871). Todos os árabes nadam como peixes e Marriete contou-me que havia ainda um velho no Alto Egito que servira ao Murad-Bey contra Bonaparte, o qual é célebre como nadador e vive a pescar." (Diário da primeira viagem - 7/11/1871).   
 
"(...) havia umas poucas mulheres, que trajando vestidos, que deixavam ver-lhes a camisa na cintura, tremiam como chocalhos, ora requebrando-se sem graça, ora pondo-se de cócoras para logo se levantarem, - e isto ainda era bom - ao som de instrumentos iguais aos dos negros boçais." (Diário da primeira viagem - 10/11/1871).
 
"Apesar de tudo esse Bey (referindo-se a um intelectual egípcio) pareceu-me inteligente e Brugsch diz que é honrado, cousa rara no Egito"  ( Diário da primeira viagem - 10/11/1871).
"Na leitura escrita e observação do Carão (Corão), por maometanos de diferentes regiões, que deitados, assentados no chão ou de cócoras e separados, conforme nações ou tribos, desconfio que antes durmam ou cochilem do que estudem."  (Diário da primeira viagem - 10/11/1871).
 
"O poeta árabe mandou-me os versos com a tradução - poucas frases contendo pensamento muitíssimo banais. Outro escritor árabe já me tinha lido versos publicados no seu diário a respeito de minha ida ao Egito e reconheci que não eram senão palavras rimando de enfiada, o que, segundo ouvi a Brugsch é mesmo a poesia árabe que não tem metrificação. Valha-me o pensamento."  (Diário da primeira viagem - 10/11/1871)

Este povo parece-me uma nova espécie cínica em todo o sentido."  (Diário da primeira viagem - 10/11/1871)

O Cairo ou Al Khaira, em árabe: a Fortaleza

"Já a segunda viagem de Pedro de Alcântara, pode ser caracterizada como uma verdadeira “expedição” de reconhecimento. Nesta vez, a comitiva excursionou por 27 dias. A viagem pelo Alto Egito foi iniciada no dia 11 de dezembro de 1876, e devido a sua longa estada, Pedro de Alcântara pode com mais calma participar das reuniões do Instituit d’Egypte, fotografar e ser fotografado, conferir informações publicadas sobre o Egito - completando algumas superficiais ou mesmo corrigindo outras imprecisas e errôneas -, e debater com os mais importantes egiptólogos da história."


 

As ruínas da Antiguidade tiveram diante de si uma exótica
 comitiva de curiosos personagens tropicais.


Nas imagens o obelisco já se mostrava reerguido.


D. Pedro II em seu diário :

"Estive em Heliópolis ( A "Um" dos egípcios e da bíblia) Matarieh dos árabes que examinei o obelisco de Ositarsen 1º anterior a Móises e um dos dois que precediam ladeando-a a porta do templo, cujos sacerdotes foram mestres de Platão e do Eudoxus. (....) O obelisco está a 15 pés enterrado na areia, mas assim mesmo honra os séculos de Moisés e de Platão"    (Diário da primeira viagem - 6/11/1871).

"Antes de aí ter ido [referindo-se as ruínas de um templo na cidade de Heliópolis] colhi  folhas de um belo sicômoro que chamavam a árvore da Virgem, por ser de tradição que a sua sombra descansara N. Sra. na fugida para o Egito."     (Diário da primeira viagem - 6/11/1871).




Tânis foi erguida também com peças pétreas reaproveitadas, oriundas do desmonte da cidade egípcia bíblica de Pi-Ramsés, onde trabalharam os escravos hebreus, que de lá retornaram a Canaã guiados por Moisés. Na época em que Pedro II visitou o Egito, ainda se acreditava que esta localidade teria sido a cidade dos hebreus cativos, hoje sabemos que não foi, mas  ficava bem próxima.


Emile Brugsh - eminente egiptólogo.

D. Pedro II em seu diário : "A visita à casa de Brugsch foi interessantíssima por causa de manuscritos Coptas, e pelo seu belo mapa do Egito antigo que ele mostrou-me. À vista desse mapa procurou ele convencer-me de que os Hebreus saíram de Thamis (Tânis) e fugiram do exército ao atravessar a estreita restinga. Um monumento perto de Thamis diz que fora construído pelos Habraiú. Apesar da opinião de Brugsch ainda penso que os Hebreus passaram para a Ásia junto ao Suez."                                   (Diário da primeira viagem - 10/11/1871). 

" Subi o Nilo até Mênfis passando por Tamó à margem esquerda, onde 
dizem que Moisés foi lançado no Nilo (...).” 
(Diário da primeira viagem - 7/11/1871). 

 
 
O conde Gobineau , amigo próximo de Pedro II, é considerado o pai das teorias  racistas modernas, deve ter se encantado em ver que os antigos  segregarem o universo egípcio consoante raça e cultura.



"Os baixos-relevos pintados mais curiosos são os grupos, que se reproduzem, de quatro imagens cada um, representando as quatro raças mais conhecidas: os egípcios, semitas, negros e brancos, com a pele, fisionomia e trajos característicos."    (Diário da segunda viagem - 22/12/1876)



Na primeira viagem visitou as pirâmides dos faraós Quéops, Quéfren e Miquerinos, além da grande esfinge de Gizé. Escalou a maior das três pirâmides com a ajuda de árabes, e ainda aproveitou para descansar e fazer um lanche. Perambulou apenas nos monumentos e ruínas do Baixo Egito, além do Cairo, Gizeh e Sakhara. Desde 1856 ele estudava a escrita hieroglífica e se correspondia há um ano com o alemão Émile Charles Brugsch, um dos organizadores do Museu do Cairo. Ao retornar para Portugal o imperador mostrou grande tristeza pelo término do périplo faraônico, por isto voltaria alguns anos depois para uma verdadeira expedição brasileira ao monumentos do Antigo Egito.



As inconfundíveis  silhuetas contrastantes da imperatriz baixa
e claudicante, e a do imperador de pernas finas e quase
 dois metros de altura, são  bem mostradas nesta 
 caricatura das majestades brasileiras
 nas ruínas do  Egito Faraônico.

"Não posso, por ora, senão comunicar-vos, rapidamente, minhas impressões da viagem a estes dois países [Palestina e Egito], tão intimamente ligados na remota Antigüidade, acrescentando apenas que encontrei em monumentos de épocas realmente egípcia, colonas que poderia chamar de dóricas, algumas das quais bastante elegantes. Encontram-se também nos baixos relevos figuras deliciosas; creio que os artistas faraônicos teriam feito cousa muito melhor se não tivessem sido obrigados a submeter-se a certas regras de forma e proporções em todos os seus trabalhos." 
de Pedro  II  em uma de suas cartas ao Conde de Gobineau. 


Aqui mostro, com maiores detalhes, os três destinos que mais chamaram a atenção do imperador: Estados Unidos, Egito e a Rússia. Essa paragens foram as mais culturalmente ricas e ele se impressionou muito com as três, como as viagens internacionais eram muito apreciadas, tanto pelos imperantes como pelos Condes D'Eu, vale a pena dar maior dimensão sobre esta faceta da família imperial brasileira, o luxo deles era viajar. Muitos governantes visitaram o Egito nesta época, era moda: a imperatriz Eugene da França e a rainha Amélia de Portugal tiveram suas visitas muito bem registradas. Podemos afirmar que o maior  luxo exalado pela  monarquia brasileira  foram as suas viagens, principalmente na Europa. O tamanho das comitivas, a extensão das viagens, o longo tempo dispendido nelas, as críticas políticas sobre o abandono do governo, o pesado endividamento por parte do imperador para viajar sem qualquer obrigação protocolar e como um cidadão quase comum. Pedro de Alcântara e suas férias, foram notáveis e inesquecíveis.


Auguste Mariette, designado como guia de Pedro II, foi o fundador do
Museu do Cairo; acredito que havia a seleção dele na escolha
 da múmia a ser presenteada pelo khediva ao imperador.



Fotos desta mesma década, mostram o antigo Museu de Ghiza,
  certamente Pedro II esteve nestas salas.


 
Em outra foto desta mesma época, Mariette - de preto e sentado -
observa a descoberta de uma múmia em Sakhara.


 
Múmias da Baixa Época e Ptolomáicas.



Múmias de crocodilos sagrados,
animais de culto nos templos.

Templo de Medinet Abu e seu portal
 imitando uma fortaleza síria.

O imperador teve como guias Auguste Mariette
 e Emile Brugsch, dois grandes egiptólogos.


Visitou em 1876 o templo de Edfu, o mais perfeitamente
conservado monumento da Antiguidade.



Ao se despedir do país na segunda viagem escreveu:

"A aurora - não aos dedos de rosa - mas a coroa de todas as pedras preciosas, vem me dar seus adeuses nas bordas do Nilo (....). O Nilo merece também uma saudação e eu transcreverei algumas passagens do hino feito a época da XII Dinastia: “O tu, que vens em paz para dar vida ao Egito! Irrigador das hortas que criou o sol... Estrada do céu que desce... Repouso dos dedos é seu trabalho para os milhões de infelizes... Ele faz da coragem um escudo (para os infelizes)... Tu tens alegrado as gerações de teus filhos, te rendem homenagem no Sul, teus decretos são instáveis quando eles se manifestam diante dos servidores do Norte. Ele bebe os prantos de todos os olhos e é pródigo na abundância de seus bens”.   (Diário da segunda viagem  6/01/1877)
 
"Cheguei aqui ontem à noite. As ruínas grandiosas de Karhah (Karnak), o bello templo de Abou-Simbel, com o seu colosso sentado, de vinte metros de altura e uma physionomia transparente de admirável doçura, e tudo mais que vi nas margens do Nilo Majestoso, não me fizeram mudar de opinião sobre a Grécia inigualável. Em vão tento afastar a lembrança da Acrópole para melhor julgar a beleza especial destes monumentos"   


Diário de PII - 1876

 
Também em uma carta ao seu cunhado o Rei D. Fernando de Portugal, refere-se ao Templo de Abu-Simbel, que ele atribui a "Sesóstris" ,  onde diz ter achado lindo o rosto esculpido da rainha. D. Pedro se apaixonou pelas ruínas e pelo esplendor passado, mas o  Egito do Séc. XIX  lhe pareceu imundo, incivilizado e decadente; duvidou  que a aquela gente atrasada de fato lesse o Alcorão com afinco.

O deus Amon-Khamutef  encarnado
 como Tuthmés III.

Pedro II pode ver e participar do início da era de ouro dos estudos
egiptológicos, e ainda ganhou de presente uma múmia de uma
cantora do templo Karnak, esta ainda mantinha-se intacta
num vistoso ataúde de madeira pintada.



Um breve olhar sobre a coleção
egiptológica formada pelos
imperadores brasileiros.




 Ismail Paxá - Khediva do Egito.

 O khediva recebeu de presente de Pedro II um livro sobre o Brasil, e em contrapartida, presenteou-o generosamente com um ataúde lacrado contendo múmia e ainda, ao que parece, outros objetos tidos como da baixa época, entre eles, talvez, a preciosa representação da  Dama Takushit . Pedro II gostou tanto do Egit, porém jamais imaginaria que teria um bisneto de sangue egípcio: D. Joãozinho de Paraty é filho de uma princesa egípcia com um neto de D. Isabel.

 
A célebre múmia do
 gabinete do imperador.




 Comentaremos alguns detalhes de uma
 improvável coleção arqueológica
 egípcia que veio dar por aqui.




Sha-Amen-en-Shu bem de perto, na segunda foto
são vistas marcações em branco que devem
estar relacionadas a algum estudo.

O artístico e sóbrio esquife presenteado, contendo o corpo da sacerdotisa
 e cantora, foi alocado no próprio gabinete de trabalho do imperador.
Embora ele dispusesse de um museu particular no próprio paço,
preferiu mantê-la perto de si, onde tivesse contato diário.


 Gabinete do Imperador - Paço de S. Cristóvão.






"Ao primeiro imperador coube o pioneirismo, já em 1827, na formação de uma coleção egípcia na América Latina; ao segundo, amante do conhecimento, das ciências e das letras, competiu o fortalecimento do vínculo iniciado por seu pai, por meio de sua notoriedade e dedicação à Egiptologia, estabelecida através de seus estudos sobre a antiga civilização, do aumento do número de antiguidades egípcias da coleção iniciada por seu pai e, principalmente, de suas duas idas ao Egito e suas reminiscências relacionadas à terra dos Faraós , realizadas em um momento onde as idas ao Oriente faziam parte do itinerário de qualquer pessoa interessada a conhecer novas culturas”  -   da tese de Jaqueline Monteiro dos Santos.



A tal coleção egípcia chegou ao Rio de Janeiro em 1826 e foi adquirida em 1827, vinda da Europa com destino à Argentina, chegando em Montevidéu, perceberam que instabilidades em Buenos Aires não permitiram que suas pretensões de venda ou entrega da encomendada coleção de antiguidades se concretizassem. Parece que lá havia sido criada uma universidade e um museu, o comerciante Nicolau Fiengo seguia rumo a esta possibilidade bem negociar o lote de antiguidades. Com os problemas em Buenos Aires, retornaram para o Rio de Janeiro e lá as antiguidades, múmias e esquifes ficaram expostas e em oferta de venda por oito meses no Museu Imperial. Causaram muita curiosidade, especialmente as múmias, na época, muito mais do que hoje, a exposição de corpos embalsamados e as concepções orientais de morte, e de vida após a morte, faziam sucesso e criavam celeuma. Por fim, Pedro I adquiriu toda a pioneira coleção de antiguidades egípcias a chegar na América, e a doou ao museu.


O vendedor informou que elas teriam sido coletadas na cidade de Tebas, antiga capital do Egito, por um empreiteiro de escavações chamado "Belgozi". Neste tempo, na década de 20 do Séc. XIX, a egiptologia engatinhava, sendo historicamente iniciada pelo sistemático arrombador de tumbas italiano Giovani Belzoni, acreditamos e temos fortes indícios que o "Belgozi" seja o Belzoni; ele esteve trabalhando para museus, colecionadores e comerciantes no Egito de 1816 até 1818. Portanto na época não havia pudores atqueológicos ou interesse histórico, havia a procura, o saque e os colecionadores de artefatos artístiscos antigos e exóticos, se possível valiosos e dourados. Belzoni usava métodos explosivos e altamente destrutivos para abrir caminho por entre as pedras e o entulho dos séculos, procurava riqueza em meio ao esquecimento, os muçulmanos desprezavam os antigo pagãos e hereges, só mais tarde foram se dar conta da importância dos restos dos antigos.


 
 Com a experiência adquirida, Belzoni  localizou em 1817 a célebre tumba de Seti I no Vale dos Reis, considerada a mais bela do Egito e um verdadeiro palácio subterrâneo. Havia poucos objetos dentro dela, já havia sido saqueada desde a Antiguidade, mas foram encontrados centenas de pequenas e tradicionais estatuetas funerárias, escravos para trabalharem no além morte, também a cuba de um precioso esquife de alabastro foi encontrada vazia, esta pertenceu ao conjunto de ataúdes  do equipamento funerário do rei.

 Fragmento de shabti de Seti I in situ 
 nos entulhos da famosa tumba.

Não por acaso, duas destas estatuetas oriundas da tumba de Seti I, conhecidas como shabtis, encontravam-se na coleção de "Belgozi" vendida por Fiengo. Uma das estatuetas é de madeira, muito mais preciosa do que as mais abundantes e comuns de faiança azul, estão ambas atualmente em exposição Rio.  Estas duas pequenas peças podem nos indicar claramente qual é a origem desta coleção egípcia adquirida no Brasil, a correlação direta com os pioneiros dias da Egiptologia e com o nome de Giovane Belzoni, faz a coleção tornar-se ainda mais cativante, preciosa e relevante. No país, não há nada arqueologicamente mais importante, qualquer museu do mundo gostaria de expô-las.

Inscrição de Belzoni, reclamando historicamente para si, a descoberta da 
câmara mortuária da Pirâmide de Quéfrem ( Khaf-Re ) em 1818.

 Coleção de Shabtis - Museu Nacional-RJ



 
Múmia de Sha-Amen-en-Shu - XXII-XXIIIª Dinastia - sacerdotisa e cantora do templo de Amon em Karnak durante o período em que faraós de ascendência líbia dominaram o país. Um interessante presente do Khediva do Egito, que a despachou cuidadosamente por navio. Mumificada e encapsulada em seu ataúde de madeira e gesso, lindamente pintado, bem composta e estabilizada para enfrentar a longa noite de contar os anos, veio dar, guiada pelo acaso e pelo interesse do segundo imperador, no Rio de Janeiro. Provavelmente seja a peça arqueológica mais valiosa em terras nacionais, reparem mais abaixo o grande destaque de exposição que o Britsh Museum dá à outra peça similar e contemporânea.


 D. Pedro II mantinha o esquife em pé contra a parede em seu  gabinete
 particular, uma forte ventania abriu uma janela e o derrubou,
danificando-o levemente,  o imperador  mandou
 restaurar a valiosa e rara peça.

 
Uma tomografia deste ataúde selado  nos mostra o
seu conteudo: o corpo de uma senhora madura
ainda com alguns amuletos protetivos.
Sha-Amen não faleceu jovem 
como sugerem as feições
padronizadas do seu
belo  esquife.



Acima outro exemplar de ataúde do mesmo período, pertencente ao Britsh
 Museum em Londres, também de uma cantora, mas do Templo de
 Luxor, de nome Tamut, mostra-nos como é característico
 e  reconhecível o estilo funerário da XXIIª-Dinastia .

Também no Museu da USP há
uma cobertura interna de ataúde
de mesma época e semelhante
ao esquife da múmia de PII.


Localização original do "Museu do Imperador", no primeiro pavimento do Paço de
São Cristóvão, ali estava alocada  a coleção privada de peças arqueológicas
 de Pedro II, muitas pertencentes à atual coleção
egípcia  do Museu Nacional.

O título de "cantora do templo" era restrito às mulheres das classes superiores, o estudo desta função sacerdotal nos mostrar várias gerações de mulheres que detiveram o título,  provavelmente com as mães ensinando a função religiosa para as filhas. Imagino que cantassem nas cerimônias religiosas e festas, talvez à capela, ou acompanhada de sistros ou harpa, como vemos nas representações antigas imortalizadas nas paredes dos templos. Era uma atividade litúrgica muito honrosa, essas mulheres bem nascidas em castas sacerdotais, foram muito respeitadas na sociedade egípcia antiga.
 
A sala de exposição do esquife
 de Sha-Amen-en-Shu.

As castas de sacerdotes e cantores do deus eram mantidas a partir da renda gerada pelas grandes extensões de terras do templo de Amon, propriedades doadas pelos faraós e fiéis em todo o Egito. Alguns sacerdotes serviam nos templos apenas alguns meses do ano, sendo para eles uma função mais honorífica do que permanente, assim se explica a multitude de títulos aparentemente religiosos encontrados em quase todos os ataúdes de pessoas de melhores posses daquele tempo. Ser sacerdote não implicava exatamente em estar ligado ao culto religioso, ou ser pessoa de melhor visão espiritual ou pia, muitos administradores de vida mundana eram igualmente chamados de " pai do deus", ou sacerdotes burocráticos ou administrativos.
 
O magnífico esquife de madeira do sacerdote Hori, típico dos primórdios da XXIª-Dinastia, lindamente estucado e pintado (acima), tanto a tampa como a cuba impressionam pela riqueza de detalhes, é muito mais interessante e precioso que o esquife que contém a múmia presenteada pelo Khediva. Todavia, originalmente em seu interior, repousava uma múmia estranha, pertencente a um outro período bem mais posterior, apresentando um embalsamento muito aquém do esperado para o ocupante de um esquife tão bem elaborado, a mumificação de pronto se mostrava claramente indigna e incabível para um sacerdote de alto rank e status, supervisor do harém do deus Amon, como foi o prestigiado Hori. 

A também magnífica cuba do esquife de Hori não foi encontrada em tão bom estado de conservação, pintada com requinte, teve que receber grandes extensões de restaurações para encobrir as diversa partes faltantes. Reparem que a peça não foi designada como antropomórfica,  posto que apenas a tampa do esquife apresenta-se assim; ao fundo, na foto acima, a múmia que chegou abrigada neste ataúde.

 A tampa de Hori, com seus escaravelhos alados com cabeça de carneiro, 
suas mãos fechadas, seu negro e texturizado nemes núbio com uma
  faixa de fixação e seus tons amarelados de verniz são dos
 primórdios da XXI-Dinastia, época do Pontificado
 dos Sarcedotes de Amon em Tebas.


 A múmia dita "de Hori", posto que chegou ao Brasil acondicionada neste esquife,
  apresenta enfaixamento e mumificação característicos de período posterior;
 atualmente está exposta, depois de muitas décadas na reserva técnica.
Ao fundo, na vitrine, a coleção de shabtis.

Acima  outro exemplo em museu estrangeiro, o esquife
 da XXIª- Dinastia, mostra-se algo similar ao
esquife de Hori, embora já apresente
 o estilo característico do meio
 e final desta período.

 

  O ataúde de Hori - XXI dinastia - é uma das peças importantes e
significativas da coleção de antiguidades egípcias adquirida
 por Pedro I em 1827.



 Acima a  já citada rara múmia do período de dominação romana no Egito, 
 famosa por  ter braços e pernas enfaixadas em separado do corpo.
A peça também tem um passado de manifestações paranormais,
eu mesmo presenciei uma desses incidentes espirituais
quando tinha 14 anos , numa visita ao museu.

A múmia da época romana não tem  identificação,
mas é conhecida como "Kherima" devido a um
acontecimento paranormal correlato.

Num dos dois esquife saítas da XXVI-Dinastia pertencentes à coleção, o de Pestjef, repousava nele, também introduzida em tempos modernos durante a circunstância da venda da coleção por Fiengo, uma raro tipo de múmia egípcia, pertencente ao muito posterior período romano e apresentando o singular aspecto dos membros enfaixados em separado do corpo. O tipo de enfaixamento apresentado é absolutamente contracultural, uma vez que de modo tradicional as múmias eram configuradas formando um corpo cilíndrico, do qual não se distinguia bem a silhueta humana, às vezes nem o pescoço da cabeça.

Na nova câmara de atmosfera controlada,
e quando ainda jazia na cuba de Pestjef.

Os delicados pés expostos da múmia
 Kherima são inesquecíveis.

 Outras múmias similares a de Kherima: enfaixadas com os membros livres.
O exemplar das duas primeiras fotos certamente é familiar da
múmia do Rio, e devem ambos ser provenientes
da mesma tumba tebana, são muito afins.

Este era um tipo especial de tratamento funerário de uma família ou de um serviço profissional antigo de mumificação, existem múmias similares em museus da Grã-Bretanha e na Holanda, parecem que são todas da mesma tumba familiar, teriam sido vendidas em separado e o exemplar feminino remanesceu no Rio. Uma paranormal, como em vários outros casos similares ocorridos com esta múmia em especial, entrou em transe ao se aproximar do corpo, intuindo sobre o obscuro passado da jovem egípcia embalsamada, comunicou então que a ela teria sido uma princesa virgem de nome Kherima, e que teria sido assassinada a punhaladas por um apaixonado cortesão e  pretendente. Como a múmia não trazia qualquer identificação mais explícita sobre sua origem ou identidade, apenas o estilo do embalsamamento nos indica que é do período de dominação romana, passou então a ser chamada de Kherima, por falta de melhor epíteto.

 
 Esquife de Harsiese - XXV-XXVI Dinastia - Período Saíta.

No outro esquife saíta da coleção, o de Harsiese ( Hor-Sa-Aset ), repousava a múmia original deste mesmo sacerdote, peculiar pela rede de contas azuis que lhe protege o peito, o ataúde é muito vistoso mas não tão raro, sendo de um período de onde se tem farto material em vários museus do mundo. Já os dois primeiro esquifes citados, o de Hori e o outro saíta pertencente a um certo Pestjef, devem ter sido encontrados vazios, e então múmias sem esquifes foram neles acondicionadas como intrusas. A função era vender as antiguidades,s criando conjuntos esquife-múmia canhestros e evidentemente mal-ajambrados, cuja a fraude só foi percebida mais recentemente e não na ocasião da aquisição por parte de D. Pedro I. Naquela época ninguém poderia perceber o arranjo feito pelos comerciantes.

 
Tampa do ataúde de Pestjef - XXVI Dinastia - Período Saíta.

O esquife intacto de Sha-Amen-en-Shu, feito em madeira de sincâmoro gessada, presenteado a D. Pedro II pelo khediva, é todo original e está em muito bom estado de conservação de cores e aspecto geral, sendo na minha humilde opinião, a mais preciosa peça de toda coleção egípcia do Museu Nacional.


Máscara Ptolomaica com    
acabamento em pó de ouro.
 
 
A também famosa estatueta
 da Dama Takushit -XXII Dinastia.


A Coleção Egiptológica  do Museu Nacional- UFRJ é muito mal conhecida do público, não podemos todos nos dirigir aos arquivos cariocas para consultar o que já foi publicado e arquivado, não trabalhamos com isto, somos só curiosos e interessados. O renomado egiptólogo britânico Kenneth Kitchen elaborou um volumoso inventário da coleção, todavia é raro de se encontrar este catálogo. São dois volumes, onde descreve-se extensivamente a coleção egípcia, tive em mãos aqui no Paraná fotocópias do original. Toda a minha excitação acerca deste estudo se desfez logo à primeira vista dos conteúdo dos tais volumosos compêndios, assinados por um egiptólogo especialista no Terceiro Período Intermediário do Egito Antigo.



Obra longa e enfadonha, se perde em inacabáveis traduções de textos repetitivos de estelas do Médio Império, e sobre os muitos shabits da coleção; as tais estelas funerárias, quase todas típicas e comuns, versam sobre personagens subalternos do passado que devem interessar a menos de 100 pessoas no planeta. Já sobre a conspícua coleção de múmias, ataúdes, estatuetas e outros itens de maior apelo histórico e popular, não se lê nada mais detalhado ou mesmo comparativo e determinante. Temos por fim, pouquíssima informação contextualizada e maiores detalhes sobre as peças mais importante desta coleção publicados no catálogo monumental, também na internet não há nada mais sistemático e estendido sobre este tema. O site do Museu Nacional bem poderia disponibilizar, para o Brasil e o mundo, alguns artigos e fotos mais consistentes sobre o seu acervo egípcio antigo, trata-se de patrimônio público de interesse universal, muito mal conhecido, até mesmo por mim que morei no Rio e sempre manifestei grande interesse pelos objetos e pelo tema.





 
 
   O Trono Português viu a Família Imperial Brasileira usar
 Lisboa como porta de entrada e de saída
  para o resto do mundo.


  
Mal se disfarçava a admiração por um monarca que “não abusava”
das riquezas do seu vasto império, muito maior em dimensões
 territoriais e reservas naturais do que toda a Europa.

  
"É Eça de Queirós que em suas Farpas, em fevereiro de 1872, descreve com ironia a atitude desse monarca que, no exterior, ora negava ora afirmava a sua realeza: “Um instante de atenção! O Imperador do Brasil, quando esteve entre nós (e mesmo fora de nós), era alternadamente e contraditoriamente — Pedro de Alcântara e D. Pedro II. Logo que as recepções, os hinos, os banquetes se produziam para glorificar D. Pedro II — ele apressava-se a declarar que era apenas Pedro de Alcântara.

A residência oficial do monarca lusitano era o Paço da Ajuda, embora muito mais luxuoso
 e bem construído, a fachada e os volumes lembravam um pouco o Paço de São Cristóvão.

 
 
O pequeno Portugal exalava um luxo
 que o Brasil nunca pode igualar.

  
Tudo muito bem arranjado, posto que 
ainda havia um Império Português.

"Foi em Portugal que d. Pedro causou mesmo sensação: não se entendiam facilmente os hábitos desse monarca que, em viagem, abria mão dos rituais. “Na praça da Figueira misturou-se com o povo e com as vendedeiras, de uma dessas comprou três enormes maçãs que ele próprio levou para o carro e pagou generosamente com meia libra. Com os colarejos e saloios conversava familiarmente e discutia os preços." "

Um saloio ( camponês-verdureiro)  fez essa exclamação: 

"Então esse é que é o Imperador? 
 Não se parece nada com reis’.”

O português fez História sem saber,
 foi tão natural que disse tudo!


Palácio da Pena em Sintra.

Recebido, em 1871, no cais do Sodré pelo rei de Portugal em pessoa, que aliás era seu cunhado, D. Pedro causou estranheza por viajar como um simples particular, sem nenhum séquito e sobretudo, o que era e continua sendo o mais espantoso, sem debitar a conta do seu turismo ao tesouro da Coroa, por entender que as riquezas do país não lhe pertenciam, mas, sim, ao povo brasileiro. Como não admirá-lo ? "D. Pedro começa então um vasto itinerário pelas províncias de Portugal, país que provavelmente lhe ficara como uma imagem estranha na memória: local de falecimento de seu pai, do reinado de sua irmã, ambos mortos naquele contexto. Mas o ritual da viagem tão esperada não pararia na imagem do passado; o presente aliava d. Pedro ao que reconhecia como “a modernidade e a ciência” de seu tempo. O monarca realiza uma verdadeira “via-crucis da cultura”, encontrando intelectuais portugueses como Castilho e Alexandre Herculano e visitando uma série de instituições de ensino".



A cidade do Porto, às margens  do Douro.


O apreciado arco monumental.


 O coração embalsamado  de Pedro I.


Palácio de Belém.

Eça de Queiroz comenta o Imperador das Selvas:

“Esteve em Lisboa sua majestade imperial o senhor dom Pedro II do Brasil. É um príncipe extremamente liberal, que usa dos requintes democráticos com a mesma profusão luxuosa que um dandy poderia ostentar, nas suas gravatas, nas suas luvas ou nos seus perfumes. Põe a coroa na cabeça com a simplicidade despreocupada com que carregaria sobre a orelha um boné de viajante. Mete debaixo do braço o seu cetro com a sem-cerimônia simpática de quem trás um guarda-chuva. Deseja que o fulgor da realeza fira tão pouco os olhos, que aquele que o notar possa confiadamente aproximar-se e pedir-lhe o seu fogo.   O senhor dom Pedro II não põe somente a democracia na sua política e nas instituições do seu império. Também a põe nos seus hábitos, nos seus usos particulares, na sua conservação, nas suas maneiras, no forro do seu chapéu e na casa do seu paletó. Se a democracia se pudesse converter em alimento, sua majestade imperial teria acabado com ela, comendo-a com pão.
 
 Detalhe do teto pintado no Palácio de Belém.
  
Sua majestade imperial não aceitou hospedagem que lhe estava preparada no palácio de Belém, nem a estação de quarentena a bordo de um navio de guerra. Preferiu a mesa redonda do Lazareto e um quarto no hotel Bragança. Quis este notável e grande príncipe dar ao mundo o espetáculo cheio de lição e de moralidade de um soberano que principia o dia mandando pergunta se há cartas para o número marcado no anel do seu guardanapo, e o termina pondo das botas para engraxar fora da porta do seu quarto. Quantos reis não invejariam – agora principalmente que o oficio se está tornando grave – o estranho prazer deste monarca, que, abancando a uma table d´hôtel, larga das mãos as rédeas do governo para receber um palito de um estudante em férias, e passa a mostarda a um commis em nouveauté!"
 
Os mandatários estrangeiros ficavam  tradicionalmente hospedados no Palácio de Belém, como as linhas marítimas usuais ligavam o Rio de Janeiro à Lisboa, D. Pedro e D. Isabel invariavelmente passavam por ali em suas viagens, também costumava ficar em hotéis, dispensando as honras.


Também foi motivo de piadas em Portugal,
não foi só no Brasil que foi
ridicularizado.


"É o mesmo Eça de Queirós que em suas Farpas, em fevereiro de 1872, descreve com ironia a atitude desse monarca que, no exterior, ora negava ora afirmava a sua realeza: “Um instante de atenção! O Imperador do Brasil, quando esteve entre nós (e mesmo fora de nós), era alternadamente e contraditoriamente — Pedro de Alcântara e D. Pedro II. Logo que as recepções, os hinos, os banquetes se produziam para glorificar D. Pedro II — ele apressava-se a declarar que era apenas Pedro de Alcântara. Quando os horários dos caminhos de ferro, os regulamentos de bibliotecas, ou a familiaridade dos cidadãos o pretendiam tratar de Pedro de Alcântara — ele passava a mostrar que era D. Pedro II”.  

 
Eça de Queiróz e sua língua inteligente e afiada,  em sendo
cobra muito perigosa, deve ser sempre ensopada
 no próprio veneno.

O ladino escritor português  deu-lhe a simpática alcunha de “Pedro da mala”, em virtude da pequena valise de couro escuro que trazia sempre consigo nas viagens, o imperador despertava a curiosidade com seu teatro de cidadão e "Presidente da República do Império do Brasil". Não percebiam que foi assim, nesse simulacro de eternamente barbado e com livros na mão, que ele permaneceu por quase 50  anos neste cargo tão espinhoso. Com a libertação dos escravos, foi logo descartado, deposto e exilado no ano seguinte, todavia após seu desaparecimento, senta-se glorioso no trono eterno da História, lugar que ele ocuparia por esforço próprio. Ao contrário de seu pai português, o segundo imperador, legitimamente brasileiro, apresenta uma biografia fantástica e ilibada, nada que se possa comparar  com qualquer outro rei lusitano, quase todos geralmente pacatos, conservadores e uns poucos bovinos ou loucos.

Todavia, creio que na verdade, lá no fundo do íntimo de Eça de Queiróz,  quando despreocupado em despejar as suas textuais, avassaladoras e saborosas caldas de veneno, ele pensava sobre o imperador exatamente o que disse numa outra ocasião. Este outro pensamento-frase não foi direcionado originalmente ao imperador brasileiro, mas este sim, parece-me muito mais ponderado e cabível para diagnóstico do simulacro de comportamento de Pedro II:

  "Quem sem descanso apregoa a sua virtude,
  a si próprio se sugestiona virtuosamente,
 e  acaba por ser às vezes virtuoso."
 Eça de Queiróz  


Menos mau.

Menos mal !

 
Em Lisboa - 1876.


À bordo do paquete Congo, a comitiva imperial retorna ao Rio de Janeiro, em 1888, embarcada em Lisboa como de costume. D. Pedro II, que partiu desenganado pelos médicos, e após uma síncope em Milão, onde recebeu a extrema-unção, retornava para um Brasil já sem escravos, ainda convalescente e provavelmente achando que esta seria sua última viagem ao exterior. Não imaginaria a triste viagem do exílio que lhe foi imposta imediatamente após o golpe republicano. Até mesmo esta última ele aproveitou, leu muito, descansou e ficou muito amigo do capitão do paquete Alagoas, e agradecido ainda deu-lhe um relógio de ouro com uma dedicatória gravada, nem no infortúnio deixou de ser o turista incidental que sempre foi.


Em 1889 quando a Família Imperial destronada aportou em Lisboa, em sua derradeira viagem para fora do Brasil, causou embaraço ao recém coroado rei português  D. Carlos I.  Logo seguiram para a França, depois da imperatriz ter falecido no Porto. O constrangido novo monarca respirou mais aliviado após a partida do velho monarca destronado.


 
 Sangue de reis...D. Carlos nem imaginava que seria assassinado junto 
com seu filho e herdeiro, a República lá chegaria
cerca de 20 anos depois que a monarquia
brasileira findou.

Esse trecho de uma carta de D. Carlos mostra bem como deveria ser uma postura de chefe de estado numa Monarquia: «Tu julgas que eu ignoro o perigo em que ando? No estado de excitação em que se acham os ânimos, qualquer dia matam-me à esquina de uma rua. Mas, que queres tu que eu faça? Se me metesse em casa, se não saísse, provocaria um grande descalabro. Seria a bancarrota. E que ideia fariam de mim os estrangeiros, se vissem o rei impedido de sair? Seria o descrédito. Eu, fazendo o que faço, mostro que há sossego no País e que têm respeito pela minha pessoa. Cumpro o meu dever. Os outros que cumpram o seu.»



Esta postagem-artigo é de todas a minha mais recente preferida, foi emocionante
 elaborá-la, por  várias vezes, senti a proximidade do meu prezado
 PII como nunca antes tinha sentido assim tão perto, espero
 que o leitor também tenha viajado imaginariamente 
conosco, nesta interessante viagem