VVVVVV>&&&&&%gt;gt;>>>>>>>>>>>>>>>>>"Ver e ouvir são sentidos nobres; aristocracia é nunca tocar."

&&&&&&>>>>>>>>>"A memória guardará o que valer a pena: ela nos conhece bem e não perde o que merece ser salvo."


%%%%%%%%%%%%%%"Escrevo tudo o que o meu inconsciente exala
e clama; penso depois para justificar o que foi escrito"


t;>>&&&&&;>>>>>>>>>>>>>>>>>>"A vida e a morte são por demais implacáveis para serem puramente acidentais "


&&&t;>>gt;>>>>>>>
"Uma existência de espera, sem quaisquer expectativas, é a única vida religiosa que eu conheço."



>>>&&&>>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Tentei não fazer nada na vida que envergonhasse a criança que fui"


&&&;>&&&&&>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Resolvi não exigir dos outros senão o mínimo: é uma forma de paz..."

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"Dentro de nós há uma coisa que não tem nome, essa coisa é o que somos."


&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&& " Aqui ergo um faustoso monumento ao meu tédio"


&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"A inveja morde, mas não come."


terça-feira, 2 de junho de 2015

NECROPOLIS - Parte I







" Minha curiosidade foi seriamente despertada
 pela profusão de formas, estilos, materiais
 e representações presentes nos
 túmulos dos cemitérios.


Fui percebendo que os túmulos que
mais chamaram a minha  atenção,
 como os mais criativos, eram
já antigos: das décadas
de 1920-40..."


Renato Cymbalista,
 em Cidade dos
 Vivos




" Mors omni aetate
 communis est."


"A morte não poupa 
ninguém "





Inicialmente pensei em 
escrever sobre as
plantas típicas
de cemitérios.

Logo computei ser
assunto muito
limitante.

Na sequência percebi que 
havia detalhes muito
 mais interessantes
para comentar.

Deixei as plantas
para depois...

Talvez para a
Parte III .




 






  
"Cada vez que respiramos, afastamos
 a morte que insiste em nos tragar.
 Ao final, ela vence, pois desde
 o nascimento esse é o 
nosso irreversível
destino.

São apenas as cabeças pequenas e 
limitadas que temem seriamente
 na morte a destruição total do
 ser; dos espíritos privilegiados,
 tal medo fica afastado.

Quem concebe sua existência
 apenas como simples efeito
 do acaso, sem dúvida
 deve temer perdê-la
 pela morte.

Quanto menos inteligente
 um homem é,  menos 
misteriosa lhe parece
 a existência."


 Arthur Schopnheauser 







" A vida é apenas uma doença
sexualmente transmissível e 
invariavelmente fatal. "


Neil Gaiman





 " A vida é sua, estrague-a
como quiser. "



Antônio Abujamra





  
"O resto é silêncio."


Shakespeare




Convido o caro leitor a fazer uma rápida visita
 à portentosa cidade dos mortos, garanto
que esta viagem, desta vez,
tem volta, e a satisfação
é garantida, muita
informação e
imagens.


Muitas belas imagens,
visões e tributos,
lá do fundo da
minha alma
antiga.




A ascensão angélica no cemitério de Berlim 
nos indica a morte como sendo um
 sono eterno, porém, vale frisar,
 completamente desprovido
 de sonhos.





“Tudo o que fiz na
 vida, fiz sempre
 com paixão. 

Não sou homem de
 tocar nas coisas
com a ponta 
dos dedos." 

 Iberê Camargo




Ser angélico desacorçoado e cansado de voar, taciturno
 e desolado, descansa meditativo no balcão externo
 do Mausoléu Carnasciali no Cemitério de São 
Francisco de Paula em Curitiba. Do ponto
 mais alto da necrópole, vigia o silêncio
 e a rica arquitetura do campo santo.

Foi este o detalhe mais
 sedutor que vi no
 cemitério.


 
A solidão de Deus
 é incomparável.

Deus não está 
diante de Deus.

Está sempre em si
 mesmo e cobre tudo
tristinfinitamente. 


Deus criou triste,
outra fonte não
tem a tristeza
do homem.

Drummond



 Um sinal das trombetas, 
dos anjos e dos 
guardiões.




Foi assim que mais esta
vasta postagem
surgiu.


Pelo detalhe do pezinho e pelo rosto,
pareceu-me ser uma "anja" deprê.
Te amei, no momento
 em que te vi.





" Diferente do necrotério, 
cemitério é lugar
 para dormir.

 Reúne duas necessidades
 básicas do ser humano
 neste vale de 
lágrimas:

descansar e
 consolar-se. "


Francisco Daudt










Na Parte I, mostramos a apresentação
 e o início do desenvolvimento da 
Arquitetura Cemiterial:

o Neoclássico, o Neogótico,
 o Ecletismo,o Neocolonial
 e o Greco-Romano.



 Meu objetivo maior é evidenciar o patrimônio Art Dèco erguido
no Cemitério Municipal de Curitiba, apenas na Parte II
trataremos, tão somente, desta interessante fase 
arquitetônica do Séc. XX. Estão na grande
 necrópole da capital os seus melhores
  exemplos deste estilo, além das
 mais singulares e ricas
visões  artísticas.

Sempre tive o desejo de bem apresentar
o fascínio que o estilo Art Dèco me
inspira, creio que a variante
fúnebre desta estética é 
a mais rica e original,
dentro do complexo 
conceitual desta
fase da arte no
Séc.XX.

Aproveito então a deixa do
cemitério para ir onde
realmente  pretendo.

A delicada e insinuante criatura angelical,
 acima  disposta, surge em variações,
 porém com o mesmo rosto, em
 jazigos Art Dèco de famosos
cemitérios mundo afora, 
e também no campo
santo de Curitiba.


Elegi-a como a musa
Dèco fúnebre
universal.

Será comentada e nos
guiará por outros
cemitérios do
mundo.



 Na Parte II mostraremos
o auge arquitetônico,
em Art-Dèco.

Click para
 acessar




Dedico à
escritora Clarissa Grassi
este meu mergulho na necrópole 
dos curitibanos, sem a correspondência
de pontos de vista sobre um assunto
tão excêntrico, não teria tido a
 necessária coragem para
 fazê-lo assim tão
 seguro de 
mim.






" Talvez a morte tenha mais
 segredos para nos revelar
 que a vida. "

Gustave Flaubert






Deus criou triste, outra fonte não
tem a tristeza do homem.






" Quando uma árvore é cortada,
ela renasce em outro lugar. 
Quando eu morrer, quero
 ir para esse lugar, onde
 as árvores vivem
 em paz. "


Tom Jobim




" A um homem bom não é possível
 que ocorra nenhum mal, nem
 em vida nem em morte. "


Sócrates




" Quando morreres, só levarás
 aquilo que tiveres
 dado. "


Muslah Al Din Saadi




" A angústia de ter perdido,
 não supera a alegria
 de ter um dia
 possuído. "

 
Santo Agostinho



" Nisto erramos: em ver a morte à nossa
 frente como um acontecimento
 futuro, enquanto grande
 parte dela já ficou 
para trás.

Cada hora do nosso
passado pertence
efetivamente
à morte. "



Sêneca





Cemitério Municipal
 de S. Francisco 
de Paula, 

a luxuosa necrópole
 curitibana. 

Um significativo Patrimônio
 de Arte Cemiterial.






Será que curitibano bom
é curitibano morto ?

Caso a se 
pensar, 

risos .

Blogueiro


Comemoro inesquecíveis e difíceis 20 anos
 em Curitiba na respeitável companhia de 
seus mais ilustres residentes, é com
 grande alegria que tento soprar
alguma vida virtual  em 
todos  estes  que já
 se foram.

Em verdade, gosto mais
dos mortos que dos
vivos: são mais
confiáveis. 

Acredito  na assertiva
quântica que  mostra
o tempo como pura
ilusão dos
vivos.

O ontem e o amanhã
fundem-se logo,
são feitos de
tempo.

Tempo não existe, apenas 
dá impressão de
 transcorrer.

Passado:
 futuro
usado.

Bela comemoração, me 
ajudem daí que eu 
ajudo daqui.

Assim Maria Bueno
pede quando
surge em
sonhos.




Acreditaram que o Céu devia-lhes
 mais vida, obnubilados pela
 morte, remanescem neste
 firme aguardo.

Imersos em abandono
 profundo, confiam
num resgate.

Anjos do Senhor:
tende piedade
de todos
 nós.



Vejo no cemitério uma prece, um rito
de fé, às vezes um agradecimento
pela vida desfrutada. Também
percebo um triunfo final
dos mais abastados, 
numa imortalidade
feita de pedra
e símbolos.




O contraste encantador
 da simplicidade com
a natureza:




Cemitério de Mucugê na Bahia, uma concepção paisagística de suntuosa simplicidade,
ao fundo as contrastantes pedras da Serra do Sincorá; o branco e a graciosidade
 dos túmulos padronizados lembram as recorrentes vilas mediterrânicas
encravadas em magníficos rochedos. De todos os campos santos
que pesquisei, este me pareceu o mais
poeticamente brasileiro.




" A poesia tem comunicação
 secreta com o sofrimento
 do homem."

Pablo Neruda





A singeleza do Cemitério de Morretes, construído entre 1865-95, emoldurado pela contrastante vista de fundo para o Maciço do Marumbi, espetaculares montanhas da Serra do Mar do litoral paranaenses, nos traz  de pronto a lembrança do Século XIX. A disposição alinhada das duas portas, a de entrada e a da capela, conferindo uma perspectiva existencial ao corredor principal, são de grande impacto. Também a estratégica localização de uma outra capela mais antiga, uma miniatura da fachada da igreja matriz da cidade, colabora para  formar um conjunto decididamente muito brasileiro.

Compondo com a natureza da perspectiva das montanhas ao fundo,
 o cemitério de Morretes namora com minha alma:
 " é lindo de morrer ! "

O Cemitério de Porto Cima, distrito bem próximo à sede do
município, fica ainda mais perto da imponência
do complexo montanhoso do Marumbi.
 
Uma bela visão: a exuberância da natureza e a forte religiosidade mesclaram-se 
bem nesse lugar. O campo santo não exala apenas a melancolia da
 morte, mas também a força telúrica do paraíso terreno.





Na pequena cidade paranaense de Piên, constatei uma significativa e vanguardista experimentação de nova inserção urbana para um cemitério. O campo santo quase sempre evoca uma triste visão para todos os vivos, os muros e um certo abandono são respostas de algumas sociedades mais conservadoras ao semblante assustador da morte e às lembranças de suas dores prévias e posteriores. Piên é uma cidade com forte presença da imigração alemã, entenda como tendo forte traços de cultura luterana, sendo esta  última muito menos afeita aos símbolos religiosos e cultora da simplicidade contida e discreta.

 Nesta pequena cidade, os muros que separam os vivos e os mortos não existem, o cemitério é como uma grande praça bem cuidada, é possível cruzar entre as tumbas, crianças podem até brincar neste ambiente verde e bem cuidado. Uma concepção de jazigos menos dramática, sem tantos ornamentos e símbolos funerários impondo-se à paisagem, permitiu esta louvável e moderna integração.
 
Contudo, nada tenho contra as teatralizadas necrópoles, onde  a riqueza e mesmo a pobreza dos vivos se reproduz exatamente como acontecia em vida. A súplica religiosa e arquitetônica por alguma continuidade da vida após a morte,  sendo interpretada como certeza ou como esperança, são sempre tocantes e profundamente humanas, enxergo largo valor espiritual nelas.
 
Toda aquela tradicional formatação arquitetônica e religiosa, confusa e carregada de símbolos, que se forma em antigos campos santos, parece-me sempre derivada de uma decidida busca por consolo. É tão humano buscar algum consolo diante da fronteira da dor, do desconhecido, ou do fim pura e simplesmente. Só por isto já se  justifica uma respeitosa preservação de todas estas ricas ou especiais arquiteturas cemiteriais, em especial as do fim do Séc XIX e as da primeira metade do Séc. XX, são estas as mais imponentes, místicas, esotéricas e impressionantes.



 Nada segura aquilo que chegou
a seu tempo de acontecer, é
a percepção da fatalidade.
 Senhor tende piedade de
 nós, agora e na hora 
de nossa morte: 

" Dominus
 miserere
 mei ."




Um necessário preâmbulo
sobre certas vozes do
cemitério:




Palacete Ascânio Miró 
no Batel - Curitiba.




O azulado casarão, testemunha da saúde financeira da família do empresário da erva-mate, dito ervateiro, se destacava na cidade já pelo início do Séc.XX, principalmente pelo simpático volume de seu vistoso torreão. A estrutura contempla aspectos ecléticos, com mistura de orientalismo e pitoresco inglês, além de uma série de detalhes como mirante, entrada através de uma escada bifurcada, janelas e portas com ornamentos entalhados na madeira. Mostra-se atrativo fundamentalmente pelo foco da sua bela visualização urbana, por estar localizado na tradicional esquina da Al. Pres. Taunay com R. Comendador Araújo; atualmente defronta-se com o entra e sai dos frequentadores do sofisticado Shopping Crystal. Contudo, é no recluso do cemitério municipal que está o jazigo da família, a residência definitiva, e esta mostra-se impressionante, perfeita na concepção de formas, materiais e primorosa execução; contrasta com sua leveza e elegância as monumentais pirâmides Art-Dèco que a cercam.


O faustoso e marcante arranjo artístico do túmulo de Ascânio
Miró culmina truncado e abrupto, com o elevado volume
 do sarcófago ostentando a assinatura
do falecido ervateiro.


Conservado, mostra-se
impecavelmente
novo.

Admirável  !

Contudo, o tema da escultura
é recorrentemente copiado,
numa foto acima, o
tema  repete-se.

Procure o segundo dos
 anjos esverdeados.


A visão do conjunto da necrópole curitibana é muito interessante, o contraste arquitetônico e a riqueza dos mausoléus são muito significativos. A foto acima, especialmente escolhida para iniciar a apresentação do refinamento que se observa neste campo santo, mostra o jazigo do rico ervateiro Ascânio Miró, morto em 1930; túmulo monumental, composto num arranjo funerário formado por contrastes de belos e ricos detalhes em diabásio polido, bronze e mármore. A escultura em mármore de Carrara , esculpida na Itália, em primeiro plano, parece vencer a morte, surgindo do jazigo ascendente e vitoriosa, cercada de rosas do Éden, as do lado direito estão abrindo e as do outro lado mostram-se murchando, uma linda alegoria à vida e à ascensão espiritual na morte. O contraste da bela escultura alva como a volumetria escura e escalonada, miscigenando-se com bronzes e pedras negras duríssimas, e ainda assim lindamente trabalhadas, valoriza tanto os detalhes como a própria escultura em mármore, o principal ponto focal do conjunto. No canto superior esquerdo da foto, o anjo cansado de voar descansa filosófico, sentado no friso de um mausoléu, talvez esteja apreciando a beleza desta obra de arte.
 
 Rosas fechando-se à esquerda, e abrindo-se à direita,
o mármore de Carrara foi muito bem utilizado
para simbolizar a esperança na
continuidade da evolução.
Feita por artista italiano,
encanta pela leveza
e disposição.

Cemitério de elite pode
ser também uma galeria
 de arte a céu
aberto.

Esta gente mandou no
Paraná e deixou boas
pistas de seu poder.
 

Relato da família Vardanega, proprietários de tradicional marmoraria curitibana, nos informam que o modelo do sepulcro foi escolhido do álbum da empresa, porém com modificações especiais, a obra de cantaria foi executada por aquela firma, os detalhes artísticos devem ser todos importados. Os bronzes, com anjos e volutas, recorrem às referências Art Nouveau, que na minha percepção, geram toda as singulares elegância e beleza deste magnífico conjunto.Ao fundo da primeira foto desta série, podemos ver três monumentais mausoléus-pirâmides Art Dèco, onde jazem, em faraônica imponência, importantes mandatários da sociedade paranaense da primeira metade de Séc. XX. Na cidade dos vivos, nessa época, o luxo não se mostrava tão concentrado e impressionante, em nenhum período da história arquitetônica da cidade se vê tamanha exibição de riqueza, houve uma evidente competição entre as famílias mais abastadas. Apenas esta premissa explicaria está espetacular galeria de arte a céu aberto.


 Inspiração art-déco em materiais nobres
 e concepção artística elegantíssima.
A seção intermediária, fundida em
bronze com refinados detalhes
Art Nouveau, mostra-se
primorosa compondo
fundo para a estátua
em Carrara.

 Túmulo de rei !

"Absque argento
 omnia vana. "

"Sem dinheiro,
tudo em vão."

Curitiba começaria a mostrar riqueza arquitetônica mais conspícua a partir dos anos 50, com o ciclo do café, a economia realmente prosperou, justamente quando começa a decadência nos jazigos da tradicional necrópole. A seu tempo, a elite social não poupou despesas funerárias, havia a clara intenção de configurar alguma imortalidade, arquitetônica que fosse, um testemunho do poderio e do luxo acumulados por estes ilustres personagens. Tamanho acúmulo de luxo, arte e arquitetura não foi circunstancial, em outros cemitérios contemporâneos não foi diferente, no Brasil e no Mundo, portanto a necrópole curitibana se insere num contexto de arte cemiterial  amplo, e assim sendo, mostra-se como uma das mais interessantes e luxuosas.

A segunda parte desta postagem versará
sobre o Art-Dèco, que culmina o
desenvolvimento artístico
do cemitério.

 Guardando assim, protegidas em seus muros e imersas em inevitável abandono, as evidências irrefutáveis da crescente saúde econômica que o Paraná começava a exalar no século passado. Era a riqueza do ciclo da madeira e da erva-mate que brotava nos jazigos do Cemitério de S. Francisco, é sobre este acervo artístico, místico e arquitetônico que vamos comentar detalhes e enumerar imagens.







 " Me ajudem daí, que
eu ajudo daqui ."
Maria Bueno

Os procedimentos culturais místicos ou espirituais, os chamados ritos de fé, surgem  espontaneamente nos campos santos, são derivados das súplicas bem sucedidas por ajuda dos vivos aos mortos, um aspecto em nada relacionado à arquitetura e ao luxo dos jazigos. São comunicações ou interações de outra ordem, dependem de fé, e a fé é contagiante. No Cemitério de S. Francisco descansa uma solitária tíbia de Maria Bueno, única parte que remanesceu de seu massacrado corpo terreno. Contudo, uma aura mística cerca esta ilustre, e talvez a mais importante,  residente deste campo santo curitibano, o tempo fez de Maria Bueno um mito, uma rara manifestação da fé e do sobrenatural autóctones.


Dita "a santa dos curitibanos", cabe dispor a história do seu doloroso desencarne, um cruel martírio que parece tê-la santificado nos infindáveis minutos de luta feroz pela vida, antes do seu desenlace; ao fim o punhal de seu assassino, muitos atestam que seria uma navalha, venceu a feminina resistência dos braços e dos grito, os músculos e as veias de seu pescoço seccionados perfizeram uma sanguínea degola, por pouco, uma quase decapitação. Sua morte gerou uma notícia historicamente registrada sobre uma moça de cor parda que havia sido assassinada, encontrada com a cabeça completamente separada do corpo e com as mãos marcadas por cortes de navalha. Maria Bueno é descrita, nesse texto, como “mulher de vida alegre, mas inofensiva criatura, de quem a polícia não tem a menor queixa em seus arquivos” (Diário do Comércio, 30/01/1893). Morta por seu amante, o crime abalou a população pelos traços de crueldade.

 
Mariana da Conceição Bueno, nasceu
 na área rural de Morretes-PR.


O túmulo de Maria Bueno recebe devotos não só de Curitiba como de Santa Catarina e outras regiões do país e até do mundo. Diariamente cerca de cem pessoas passam pelo cemitério só para ver seu túmulo. “Ela deixou de ser santa de apenas uma classe social. Primeiramente foi santa de negros e mulatos, porque teria ascendência africana. Como gradativamente foi adquirindo uma representação de branqueamento, que é típica de Curitiba, outras religiões a adotaram”, afirma a antropóloga Sandra Jacqueline Stoll. Primeiramente a santa foi enterrada em uma cova rasa na Rua Vicente Machado (na época, um lugar distante do centro). Mas, por causa da romaria intensa ao local, depois de entraves eclesiásticos, o corpo foi transportado para o Cemitério Municipal, onde está enterrada desde 1961.Além de Curitiba, outras cidades, como Paranaguá e Morretes, têm capelinhas em homenagem à Maria Bueno. Apesar de ser chamada de santa, porém, ela nunca foi canonizada pela Igreja Católica Apostólica Romana.

Linda a cena das rosas na porta do
 sepulcro, um espontâneo
 foco de fé popular
 numa cidade tão
materialista.



As fotos são de um sábado à tarde, defrontei-me com
quatro pessoas na frente da capela, as flores 
mostram bem o porte do agradecimento
 de  quem recebe graças.


As monumentais pirâmides art-dèco são impressionantes, porém
 lúgubres, já em volta da seara da  popular Maria Bueno as 
cores e burburinho dos vivos, e sua luta com as agruras
da vida, se fazem visivelmente presentes, aqui a
esperança e fé dão o tom de sua graça.


O pátio dos milagres do sepulcro, quase cenotáfio, de Maria Bueno
impressiona, um foco de vida após a morte em meio ao
 abandono geral dos que não mais pulsam
qualquer poder de intercessão
no plano material.

No ventre de uma mulher havia dois bebes. Um perguntou para o outro: “Você acredita na vida após o parto?” O outro respondeu, “Sim, claro! Tem que haver algo após o parto. Talvez estejamos aqui para nos prepararmos para o que seremos mais tarde.” “Tolice,” disse o primeiro, “não existe vida após o parto. Que tipo de vida seria essa?” O segundo disse, “Eu não sei, mas haverá mais luz que aqui. Talvez nós andaremos com nossas pernas e comeremos com nossas bocas. Talvez teremos outros sentidos que não entendemos agora.” O primeiro respondeu, “Isso é um absurdo. Andar é impossível... E comer com nossas bocas? Ridículo! O cordão umbilical nos supre a nutrição e tudo que precisamos. Mas o cordão umbilical é tão curto, a vida após o parto é uma exclusão lógica.” O segundo insistiu, “Bem, eu acho que há algo e talvez é diferente daqui. Talvez nós não precisaremos desse cordão físico mais.” O primeiro respondeu, “Tolice, e além do mais, se há vida, porque ninguém nunca voltou de lá? O parto é o fim da vida e após o parto não há nada além de escuridão, silêncio e esquecimento. O parto nos leva à lugar nenhum.” “Bem, eu não sei,” disse o segundo, “mas certamente nós conheceremos a Mãe e Ela cuidará de nós. ”O primeiro respondeu “Mãe? Você realmente acredita em Mãe? Isso é risível. Se a Mãe existe então onde Ela está agora?” O segundo respondeu “Ela está em todo nosso redor. Nós somos cercados por Ela, nós somos Dela, é Nela que vivemos, sem Ela esse mundo não existiria.” O primeiro disse, “Bem, eu não vejo Ela, então é logico que Ela não existe.” O segundo respondeu, “Às vezes, quando você estiver em silêncio e focar e realmente escutar, você poderá perceber a presença Dela e você poderá ouvir a amável voz  Dela, chamando lá de cima.


Originalmente sepultada em cova simples, começou logo a amealhar
pedidos e agradecimentos dos que sofriam. Na década de 60 , um
grupo de  pessoas agradecidas, formaram uma associação de
devotos de Maria Bueno. Adquiriram o atual jazigo, logo
na primeira rua do cemitério, reformaram-no de
 acordo com a devoção popular, e para
lá levaram o único osso que
restou do corpo.

Tudo que se vê é pura 
devoção popular.




A morte não é nada.
Eu somente passei
para o outro lado do Caminho.

Eu sou eu, vocês são vocês.
O que eu era para vocês,
eu continuarei sendo.

Me deem o nome
que vocês sempre me deram,
falem comigo
como vocês sempre fizeram.

Vocês continuam vivendo
no mundo das criaturas,
eu estou vivendo
no mundo do Criador.

Não utilizem um tom solene
ou triste, continuem a rir
daquilo que nos fazia rir juntos.

Rezem, sorriam, pensem em mim.
Rezem por mim.

Que meu nome seja pronunciado
como sempre foi,
sem ênfase de nenhum tipo.
Sem nenhum traço de sombra
ou tristeza.

A vida significa tudo
o que ela sempre significou,
o fio não foi cortado.
Porque eu estaria fora
de seus pensamentos,
agora que estou apenas fora
de suas vistas?

Eu não estou longe,
apenas estou
do outro lado do Caminho...

Você que aí ficou, siga em frente,
a vida continua, linda e bela
como sempre foi.

 
Santo Agostinho 






O Campo Santo:


O pórtico moderno de 1964, passou a apresentar e proteger
 o campo santo centenário e carente de fachada condigna,
 é de autoria de Franco Giglio, simples e agradável.




A ampla reforma do átrio,  da praça e das capelas, feita em 1994-95, na gestão do Pref. Rafael Greca, projeto de Fernando Popp e Mauro Magnabosco, incluiu a instalação da  bela Pietá  em bronze, de autoria de Marcelo Frankalacci Brandão. Quarenta anos depois do portal, o centenário campo santo recebia uma nova fachada, passando então a apresentar  e introduzir mais condignamente sua imponência arquitetônica interna, além da radiante importância histórica e cultural deste extenso quarteirão fúnebre.



Julgo ser muito agradável  a concepção do
pórtico moderno de 1964, harmonizou-se
com o tradicional cemitério.


Em Curitiba, como em todo Brasil, antes da primeira metade do Séc. XIX, e mesmo depois dela, havia o hábito de sepultar os mortos em cemitério das igrejas católicas. Imediatamente próximos às igrejas, ainda em terreno de mesma propriedade, ou mesmo dentro dos templos, em criptas subterrâneas ou em carneiras (nichos/gavetas) nas paredes, ficavam tradicionalmente os pontos de sepultamento. Assim inumados em igrejas, os defuntos estariam espiritualmente mais próximos às missas, à proteção do templo e dos santos, este tipo de enterro tinha a alcunha de ad sanctos - "com os santos" - ou in atrio - "às portas do templo". Assim sendo, o ambiente dos santuários foi tornando-se fúnebre, e no interior de algumas igrejas, em dias úmidos, os odores vindos das inumações mais recentes tornava-se muito presente e desagradável. 

 
A morte é anaeróbica.

Só a partir do sanitarismo científico dos tempos vitorianos, surgiria o cemitério público como o conhecemos atualmente. Geralmente foram implantados nos lugares mais elevados em relação a geografia local,  ou em pontos onde o solo poroso e profundo fosse adequado a absorver os efluentes orgânicos derivados da decomposição dos corpos, chamados atualmente de necrochorume. Onde o solo fosse muito raso, argiloso, úmido ou mesmo inundável, especialmente por águas ricas em minerais, os corpos inumados saponificavam-se, a decomposição então tornava-se potencialmente demorada e muito mais problemática. O cemitério curitibano, seguindo a orientação geral da época, fica numa das parte mais altas da cidade de então, e mesmo dentro do campo santo, os mais faustosos mausoléus localizam-se na parte mais elevada.


Necropolis: a impressionante
cidade dos mortos.


Ao contrário de transparecer ser local de tristeza, esquecimento ou cenário de
espera do Juízo Final, os cemitérios das primeiras décadas do Séc. XX
 passaram a exalar forte urbanidade, mais parecendo ser uma parte
 especial da cidade. Uma evidente competição arquitetônica fez
 algumas partes do campo santo parecerem bairros funerários.
 Por isto a mais vistosa e rica parte da necrópole
curitibana é chamada  internamente de
" Batel ", nome  do bairro mais rico,
cosmopolita e sofisticado
 da cidade.


" a semelhança da necrópole com uma pequena cidade, em que os jazigos se parecem casas, aglomeradas em bairros (...) O Cemitério do Braz e o do Araçá em São Paulo, e o de S. Francisco de Paula em Curitiba, se ajustam ao esquema do Cemitério da Recoleta em Buenos Aires, onde os jazigos-capelas são mais um prolongamento da expressão doméstica e muito menos de expressão escatológica "

Clarival Valladares



Vamos entrar e conhecer ?


Tem medo de
cemitério ?
Mármores europeus , túmulos neogóticos e o céu,
um belo fim de dia, cai mais uma noite
sobre a necrópole curitibana.
A morte é uma longa
noite de se contar
os anos.

É conveniente informar que muitas das
obras de arte tumulares eram produzidas
 em série, aqui e na Europa, e são
recorrentemente vistas
 em vários outros
 cemitérios.

Também mausoléus e capelas são
frequentemente copiados ou
inspirados em projetos
de outros jazigos
emblemáticos.

Não é só na necrópole
curitibana que vemos
estas repetições
dos referenciais
clássicos.




A NECRÓPOLE CURITIBANA

Suas interações arquitetônicas e fúnebres
com a cultura passada: o refinamento
 a religiosidade, a suntuosidade
 e as tendências de estilo.



" Não sou melhor que uma pedra,
 uma folha, a madeira de uma
 ponte, o pó das estradas.

Sou apenas 

mais frágil,

Senhor, pisa-me

 com carinho."


Jamil Snege



Este acima é provavelmente o túmulo, digamos "arquitetônico", mais antigo
que tenha resistiu ao tempo neste cemitério; sem identificação e sem qualquer
 registro na burocracia histórica do campo santo, nada sabemos sobre
 ele. Apenas os sinais estilísticos, todos muito singulares e
surpreendentes, nos informam algo mais sobre este
charmoso monumento fúnebre. A bela cruz gótica
e manuelina que culmina o conjunto é de fino
acabamento e repleta de simbologias


Os azulejos são franceses, os quatro metros de altura do volume principal somados ao aspecto geral da volumetria, se aproxima então das características dos túmulos neogóticos, ditos do tipo estela ou monolito, que marcam a primeira fase de arquitetura mais refinada do campo santo. Destoam pela forte singularidade a cruz sobre o volume vertical, também a placa com com a imagem com o halo envolvendo a cabeça, igualmente a cruz lusitana na sua base da placa, diante da qual a figura humana se ajoelha e os  belos archotes que demarcam a área onde estão as inumações, todos estes detalhes são em ferro forjado e de um exotismo cativante. Portanto e logicamente, o túmulo foi erguido posteriormente às inumações feitas diretamente no solo, nada sabemos sobre o que remanesce sob a construção, mas podemos afirmar ser um dos mais interessantes, antigos e originais  monumentos fúnebres da necrópole curitibana. Fiquei muito impressionado com a concepção geral deste belo memorialm contrasta fortíssimo com seu entorno, não há nada similar no campo santo.


Localizado já na segunda travessa, bem próximo à entrada, e atrás do
visitado jazigo de Maria Bueno, chama logo a atenção pelo
seu estilo. Aparentemente lusitano por vários detalhes
indicativos, também é visto como tendo muito
forte influência francesa na sua disposição.



As tocheiras são belas e bem dispostas.

























































Eclético