VVVVVV>&&&&&%gt;gt;>>>>>>>>>>>>>>>>>"Ver e ouvir são sentidos nobres; aristocracia é nunca tocar."

&&&&&&>>>>>>>>>"A memória guardará o que valer a pena: ela nos conhece bem e não perde o que merece ser salvo."


%%%%%%%%%%%%%%"Escrevo tudo o que o meu inconsciente exala
e clama; penso depois para justificar o que foi escrito"


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"
A fotografia não é o que você vê, é o que você carrega dentro si."


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"Resolvi não exigir dos outros senão o mínimo: é uma forma de paz..."

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&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"A inveja morde, mas não come."


terça-feira, 9 de agosto de 2011

Laelia virens Lindley 1844


.


Discreta e rara.


" Te cheirar pelas esquinas
...minha flor nenhuma ! "

Paulinho da Viola


" Ser bonita não interessa.
Seja interessante! "


Nelson Rodrigues


Algumas espécies de Laelias brasileiras destoam muito do ramo principal e mais clássico deste gênero, apenas a presença de espatas as mantêm em associação mais estreita com as espécies mais famosas. Laelia virens faz parte destas espécies atípicas, nestes tempos de crescente valorização da natureza ameaçada de extinção , estas raridades tendem a alcançar maior status dentro da orquidofilia. As outras Laelias - Cattleyodes com espatas e de morfologia floral um tanto atípicas são:  perrinii, fidelensis e xanthina.

A forma e a textura dos segmentos florais são boas,
 mas a armação é nefanda .


A pequena e jeitosa Laelia virens é uma raridade de se ver em cultivo e também na natureza, estando na lista vermelha de plantas em extinção do IBAMA. Já foi classicamente conhecida como L. johniana até os anos 60, L. goebeliana seria um outro sinônimo seu bem menos conhecido . Não foram descritos híbridos naturais desta espécie, logicamente devido ao seu peculiar modo reprodutivo de auto-fecundação, os híbridos devem ter pouquíssimas chances de ocorrência, mas não seriam impossíveis de todo. Mais por observação intuitiva do que por evidentes razões botânicas, acho-a próxima à L. fidelensis. Cultivo-as uma ao lado da outra nesta fria Curitiba onde vivo, ambas são similares no modo cultural, isso me faz pensar que devam habitar em altitudes semelhantes na natureza. Sempre vigorosas, ambas formam simpáticas toucerinhas, as espatas miúdas são idênticas em tamanho e forma. Penso, talvez, na possibildade de haver alguma hibridação com virens no obscuro passado de fidelensis. Principalmente por ambas tenderem para o colorido concolor. Talvez tudo não passe de vigor nas duas espécies, vizinhas no meu orquidário , ambas vegetarem muito bem em Curitiba. Nem purpurata e nem anceps, Laelias bem comuns por aqui, comparam-se em facilidade de cultivo dentro da amostragem da minha coleção. Registro minha impressão e as notas do cultivo !



Laelia virens ( virens = verde ) sempre foi citada como uma espécie rara, sendo até hoje um tanto desconhecida e por isso obscura na literatura botânica. Para um orquidófilo-padrão é um verdadeiro traste, inaceitável diante dos cânones de beleza orquidófila, não passa em valor um Epidendrum desses verdes mais comuns. Portanto nunca houve grandes coletas de exemplares para cultivo ou exportação, como ocorreu com outras espécies em extinção.


Foi conhecida como L. johniana por décadas.


Os exemplares adultos que vi apresentam-se visualmente muito semelhante aos seedlings de outras Laelias de maior porte. As folhas estreitas e alongadas logo demonstram serem de uma planta deste gênero. Assim como não há nenhum híbrido natural descrito, tampouco há algum artificial no Registro de Orquídeas do RHS. Este último fato demonstra a falta de atributos físicos, essa fez com que a espécie ainda não fosse sequer experimentada em cruzamentos. Hibridizações especulativas com Catlleyas bifoliadas e com outras espécies de Laelias seriam interessantes, caso a armação e a cor sejam recessivas, e o crescimento vigoroso e a forma dominantes, talvez surgissem flores híbridas pequenas e de qualidade técnica. A planta vegetativa se hibridada, tal como ocorre com a também verdolenga e "feiosa" C. forbesii, deve produzir híbridos de rápido crescimento e floração

Desse grupo de espécies de Laelias com espatas, L. virens é a que ocorre em maiores altitudes, portanto requer temperaturas de verão abaixo dos 30°C, característica muito limitante para seu cultivo num país quente como o nosso . Aprecia a claridade, cultivo-a sob mesmas condições de Coelogyne lawrenciana e flaccida, registram sua ocorrência preferêncial em matas sombrias, mas o meu exemplar aceita bem a luz difusa forte nas condições de Curitiba. Percebe-se a pouca evidência ou visibilidade de suas raízes , sempre ocultas no substrato. Uma base de xaxim/casca de pinus bem fragmentada, misturada com 1/4 pedrinhas graníticas, configuraria-se como um dos meios de cultivo recomendáveis. Um aspecto fitossanitário interessante bem visível nas fotos: as cochonilhas atacam-na com constância, boa parte dos exemplares que vi apresentavam claros vestígios de ataque ou mesmo a infestação desta praga.


A infestação de cochonilhas e um exemplar com visíveis sequelas dos ataques.


A espécie aprecia umidade constante, e a cochonilha também ! O meu exemplar é periodicamente re-infestado, todavia continua crescendo com vigor, não se ressentindo dos insistentes insetos escondidos em suas brácteas antigas e folhas novas, formando uma carapaça branca. Portanto o cultivo requer vigilância, caso apareçam, remova as cochonilhas com uma escova de dentes umedecida. Logo após a limpeza mecânica da praga, para garantir a saúde do exemplar, faça 3 aplicações de inseticida piretróide diluído em água morna, espaçadas em 20 dias. Esta praga parece ser um problema muito recorrente!

Exemplar oriundo da fronteira entre RJ e SP - Serra da Bocaina.


A espécie é de porte reduzido, pseudobulbos e folhas com cerca de 15 cm, porém há autores afirmando que este pode variar para maior, indo até 50 cm, contudo nunca vi exemplares muito maiores dos aqui retratados. A parte vegetativa da planta é realmente graciosa e atrativa, compensando a falta de cor e perfume das flores.


Sem ressupinação floral coordenada.

Cabe registrar a falta da ressupinação floral de posicionamento em direção ao ponto de maior iluminação. As 3-4 flores - podem ser até 10 por haste - normalmente saem ao mesmo tempo , por vezes miram em direções diferentes, o que provoca mais desarmonia no que já não é tão belo. Talvez a ausência dessa movimentação floral em direção à luz, tão comum em outras espécies, seja devida à auto-fecundação característica da reprodução homozigótica dessa espécie, na qual se dispensa a sedução do agente polinizador.


L. virens ocorre discreta e esparçadamente em altitudes próximas aos mil metros.

Medra em matas de altitude de SP, RJ , MG e ES, parece ser mais comum nos Parques Nacionais das Serras da Bocaina e dos Órgãos, ocorre na Pedra Azul no ES , F. Hohene dá registro de sua ocorrência no interior capixaba e na área do Rio Doce. As observações mais atuais registram-na sempre próxima aos 1.000 m de altitude, podendo subir aos 1.200- 1.500 m. Se encontrada na natureza, pode ser confundida com um seedling juvenil ( alpinista ! ) de L. crispa no RJ, de mesma forma no ES, com L. xanthina ou tenebrosa.



O Pico Dedo de Deus - à esquerda no fundo - tem 1.692 m
e dá boa idéia da altitude geral deste conjunto de serras.

O Dedo de Deus e as montanhas do Soberbo
no Parque Nacional da Serra dos Órgãos em Teresópolis - RJ.

Mais ao fundo, as montanhas das Serras de Nova Friburgo
e Desengano escondem as populações desta pequena e discreta Laelia.


As vastas matas nebulares de altitude da Serra dos Órgãos no RJ,
são um do principais habitat de L. virens.

Por ser muito pouco vistosa, a espécie é também muito pouco coletada,
sempre foi rara , embora exista em várias localidades das
 serras fluminenses e sul-capixabas.



Região de Nova Friburgo - RJ

Serra do Desengano - RJ - a "cordilheira" dos Aymorés.


Não obtive registros recentes de sua ocorrência em MG, mas acredito que possa surgir também nas proximidades do Parque do Itatiaia, na fronteira dos três principais estados do sudeste brasileiro, em alguns pontos da Serra da Mantiqueira e talvez em outras localidades mais interioranas como o Parque da Serra do Brigadeiro. A distribuição em MG é a mais obscura, parecendo ser estritamente limítrofe do RJ e ES, exatamente como a ocorrência de L. perrini e L. crispa em território mineiro .




A Maciço da Pedra Azul com 1.822 m - sul do ES -
apresenta registros de L. virens.



Matas de Castelo - ES.


Ao fundo o Pico da Bandeira e as terras altas
do Parque Nacional do Caparaó - ES.








Nos conta o amigo Bill Buzzi de Santa Maria Madalena - RJ:

"Nunca encontrei a L. virens, talvez por só existir nas copas das grandes árvores do Parque do Desengano, mas tenho certeza que existe por aqui, um grande amigo já a encontrou num Município próximo - Nova Friburgo - lá é relativamente abundante em uma altitude de 1.000 a 1.500metros (como relata David Miller no livro Orquídeas do Alto da Serra)."

Em SP ocorre na porção paulista da Serra da Bocaina e talvez nas montanhas da Mantiqueira na tríplice fronteira. Concluímos então ser ela rara em todas as regiões citadas, sendo definitivamente mais encontrada e característica das altas serras fluminenses e capixabas. Apresenta uma distribuição geográfica potencialmente vasta , mas parece não formar grandes populações, ou talvez por ser pouco vistosa nem seja notada nas florestas de altitudes onde habita. Dentro da área de distribuíção citada, podemos esperar sua ocorrência em qualquer floresta bem conservada onde ocorram árvores de porte na altitude indicada. Como pode ter dispersão ainda maior , incluí dentro da área de dispersão o Parque do Caparaó -ES. Não conheço qualquer indício de exemplares dessa procedência, todavia o local poderia apresentar condições ambientais propícias para sua ocorrência.

O porte vegetativo é pequeno e a floração é
surpreendente pela falta de apelo visual.



Esta singular espécie desenvolve trilha de evolução morfológica particularizada, já comprovada pela análise do seu DNA, apresenta-se geneticamente diferenciada. Para se ter uma idéia do incomum, suas flores mal abrem, a da foto abaixo provavelmente ficou mais aberta pelo uso dos dedos do fotógrafo, está indubitavelmente aberta demais.




Acredita-se que o fruto de L. virens forme-se por autofecundação. Trata-se de uma característica sem paralelo nesse grupo de espécies e gêneros relacionados às Laelias, indo na contramão do caminho evolutivo padrão da família Orchidaceae. Todavia é esperado na evolução de espécies de autofecundação esta dispensa da abertura das flores, a morfologia floral simplifica-se ao máximo com o passar do tempo. As flores verdes, bem abertas e perfumadas de tantas outras espécies de orquídeas, indicam uma tendência à polinização noturna, não há cor contrastante mas há o odor, virens não apresenta qualquer perfume perceptível ao meu olfato.

Na altitude onde medra, as temperaturas mais frias não propiciariam a existência de grande plantel de insetos polinizadores, ainda mais sendo a sua floração hibernal ( JUL/AGO ), época na qual são pouco vistos. Talvez seja esta a causa primordial dessa inesperada adptação à autofecundação. Talvez não. Outras espécies também medram nessas mesmas altitudes, são muitas, e não apresentam problemas de falta de polinização, muito pelo contrário.



Segmentos florais pontudos.


Os Sophronitis, medrando em maiores altitudes, locais sempre enevoados, frios e ventosos, adaptaram-se a serem polinizados por colibris, por isso sua cor vermelha brilhante, notoriamente atrativa para este tipo de pássaro. Alguns dos mais belos Oncidiuns também ocorrem nessa mesma altitude de 1.000m, são abundantes no habitat e polinizados por abelhas e afins. Apenas no inverno, por ser mais severo nessas altitudes, ficaria limitada a atividade dos insetos, eles hibernam, ausentando-se assim das atividades polinizadoras.



Cattleya (Guarianthe) aurantiaca
, similarmente , apresenta um certo grau de cleistogamia, alguns exemplares exibem a mesma abertura restrita de botões florais tão característica de virens. O quadro cleistogâmico parcial observado em aurantiaca, e o quase total em virens, demonstra-nos como as espécies evoluem paulatinamente para esta forma de reprodução. Obtidos o vigor de vegetação e a plena adaptação ao meio-ambiente, decresce a necessidade de troca genética entre indivíduos. No primeiro ano em que virens floresceu em minha coleção, formou-se apenas um fruto autofecundado. No segundo ano, durante um agosto quente ( máximas de 23°C e mínimas de 11°C ) e sem chuvas, todos as flores foram autofecundadas, tive que cortar os frutos, senão a planta iria enfraquecer e fenecer. Tendo em vista o observado, entendo que as temperaturas são determinantes para que ocorra a cleistogamia funcional.


Está bem registrado em literatura a mesma tendência de aurantiaca formar frutos por auto-fecundação, sendo a taxa de autofecundação observada de até 70% dos frutos. Portanto o hábito reprodutivo de L. virens encontra algum paralelo nesta outra espécie de mesma sub-tribo Laelinae, aurantiaca também apresenta vigor de crescimento notável.


Os ovários são bem desenvolvidos e robustos em relação ao tamanho da flor.

Baseado nos fatos relativos à G. aurantiaca, podemos correlacionar o notável crescimento vegetativo, característico dessas espécies, com a circunstância na qual o vigor híbrido proporcionado pela heterozigose - cruzamento entre indivíduos - já foi atingido, estabilizado e posteriormente dispensado com o desenvolvimento da cleistogamia. As flores apresentam um quadro de auto-fecundação coletiva espontânea e os ovários tornam-se facilmente entumecidos, sinal claro de frutos em formação. Para poupar a planta do gasto de energia desnecessário na formação de frutos, convêm extirpá-los. O episódio da autofecundação acontece em cerca de 10 dias após a abertura das flores, provavelmente devido ao ponto de maturação próprio delas.


Anacheillium fragans - espécie muito comum no Brasil.

Laelia perrinii - apontada como genitora de L. virens e de L. fidelensis.


O importante botânico Frederico Hoehne, autor dos clássicos Iconografia das Orchidaceas do Brasil e Flora Brasilica , notório e profundo conhecedor de nossa flora orquidólogica, arriscou o seguinte diagnóstico sobre a singularidade desta espécie: a L. johniana ( sinônimo de L. virens) parecia-lhe um híbrido natural entre L. perrini e Epidendrum ( Anacheillium ) fragans.


Epicattleya Landwoods - Hoehne tinha razão ?


É uma tese um tanto improvável, mas em se tratando de L. virens vale a menção acadêmica. Hoehne era um botânico sério, certamente percebia a singularidade desta espécie. Vejam na foto acima a Epicattleya híbrida "Landwoods"- cruzamento de uma C. Landate com "C. guttata x Encyclia marie" - lembrando uma L. virens, tanto na cor como na forma!

Laelia xanthina - também rara e discreta.


Laelia xanthina é uma espécie próxima de L. virens, excluindo-se a clesitogamia, também não apresenta muito parentesco evidente com as outras espécies famosas do grupo. Ocorre exclusivamente nas florestas sombrias das montanhas do Espírito Santo , entre os 500-700 m de altitude. A L. xanthina apresenta porte algo maior, mas também neste quesito é bastante variável, suas flores pequenas são homogêneas em cor e forma, e tendem para o amarelo esverdeado.



Como não conhecemos muito mais da espécie não podemos nos estender mais.....






4 comentários:

  1. Excelente texto meu amigo. Adquiri um exemplar dessa espécie e mantê-la será um desafio. Como amante da natureza espero que continue existindo em seu habitat, mas se por acaso desaparecer, nós orquidófilos temos como salvar a espécie.
    Parabéns!

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  2. Suas matérias são excelentes!!! Parabéns!!
    Moisés Bravim.

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  3. Tenho um exemplar de virens que comprei meio decadente,porém está se recuperando,,floriu e está com duas .cápsulas em formação.Pretendo fazer semeadura e mantive-as.Espero não me arrepender
    José Carlos

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  4. Caro José Carlos:
    Creio que sua iniciativa de deixar a planta frutificar vai enfraquecer ainda mais o seu raro exemplar, L. virens é uma espécie pouco interessante e procurada, como se autofecunda sempre se reproduz bem na natureza, é rara pois requer condições ambientais muito amenas .

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