VVVVVV>&&&&&%gt;gt;>>>>>>>>>>>>>>>>>"Ver e ouvir são sentidos nobres; aristocracia é nunca tocar."

&&&&&&>>>>>>>>>"A memória guardará o que valer a pena: ela nos conhece bem e não perde o que merece ser salvo."


%%%%%%%%%%%%%%"Escrevo tudo o que o meu inconsciente exala
e clama; penso depois para justificar o que foi escrito"


&&&&&&&&&&&&&&;>>gt;>>>>>>>
"
A fotografia não é o que você vê, é o que você carrega dentro si."


&
;>&&&&&>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Resolvi não exigir dos outros senão o mínimo: é uma forma de paz..."

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"Aqui ergo um faustoso monumento ao meu tédio"


&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"A inveja morde, mas não come."


domingo, 15 de agosto de 2010

As Orquídeas e a Princesa Isabel - parte IV - Botânica

.

Isabelia virginallis - uma homenagem
 à princesa orquidófila.




" Não fosse isso
 e era menos ...
Não fosse tanto
  e era quase..."

ou

"KAMIQUASE"


  Paulo
Leminski















O Orquidário da Princesa, o Paisagismo das
 Residências e as Homenagens Botânicas:



Exemplar jovem de Guapeva Dourada -
Chrysophyllum imperiale - Sapotaceae


Quando jovem, D. Pedro I, avô de D. Isabel, tinha grande simpatia pela espécie de árvore nativa chamada de Guapeva-Dourada ( Chrysophyllum imperiale ) - o nome científico já denota a homenagem do botânico autor à afeição do rei pela planta. Gostava do sabor dos frutos e apreciava as suas folhas douradas quando novas. Pessoalmente plantou vários exemplares no Jardim Botânico. D. Pedro II , seguindo o gosto e a tradição paterna, praticamente institucionalizou a Guapeva como "árvore ou fruto do imperador", mandando sementes dessa, para várias instituições botânicas do mundo, como sendo essa a árvore mais representativa do Brasil naquele tempo. Também D. João VI apreciava colecionar espécies vegetais, portanto, havia precedentes familiares que justificassem essa tradicional associação da família imperial com o desenvolvimento da Botânica no Brasil.


D. Isabel foi a primeira orquidófila importante do país ! Em uma correspondência ao seu "papaizinho", jocosamente ela confessa-lhe que "furtou" algumas orquídeas para aumentar a sua iniciante coleção, O fato comprova que o imperador já as possuía em certa quantidade, tanto no Paço de S. Cristovão , como sugere a correspondência da princesa, como também existiam no Palácio de Petrópolis, de onde sobraram até pistas fotográficas. Também há registro histórico de que a Princesa Leopoldina, irmã mais nova de D. Isabel, colecionava orquídeas na sua residência carioca. Diante dessas provas historiográficas, podemos afirmar que D. Isabel era de fato orquidófila, aumentar a coleção amealhando plantas dos outros é comportamento clássico de orquidófilo em ação ! Contar as espécies, catalogá-las e desenhá-las também são comportamentos extremamente típicos da paixão de tê-las juntas em coleção. Onde estariam estabelecidas essas primeiras orquídeas do imperador? Um dos espaços abertos em especial, existente na Quinta da Boa Vista, sempre me fascinou pela sua agradabilidade, é o chamado Jardim das Princesas, um lugar perfeito para se estar em paz, arejado e protegido sob o verde das árvores e anexo ao Paço de S. Cristóvão, um quintal murado privativo para recreação dos imperantes e suas filhas. Seriam originárias dali as primeiras orquídeas coletadas por D. Isabel?

 Sobre a visita da Princesa Isabel e o Conde D'Eu
 à cidade de Aparecida em São Paulo:


Procuramos ouvir alguém que nos contasse algo da Princesa em Aparecida e colhemos mais esta passagem de Antonieta Maria Portes, com 87 anos de idade e atualmente residente no Campo do Galvão, em Guaratinguetá. Antonieta, inteligente e de leitura, disse-nos que se recorda vagamente da Princesa, quando passava na Estrada de Guaratinguetá à Aparecida e vamos ouvi-la: " Estava no meio do caminho que se chamava estrada real e que liga a Matriz de Santo Antônio à Capela de Aparecida em companhia de minha mãe (que sempre repetia a história da Princesa) e de diversas escravas dentro do cafezal. Quando vimos a comitiva todos se ajoelharam e de mãos postas pedimos a bênção. A princesa sorriu, agradou filhinhos de escravos e atirou moedinhas de ouro. Um dos integrantes da comitiva, em seu belo cavalo, se adiantou mais, retirando uma orquídea roxa que florescia em um pé de café. Então o marido da Princesa, um Príncipe alto e esbelto, aceitou a flor e colocou-a na veste real da Princesa, colocando outra em si mesmo, gesto que foi imitado por todos. Levaram muitas mudas e dizem que até hoje ainda existem, na Quinta da Boa Vista, orquídeas do caminho de Guaratinguetá à Aparecida."




Imagens de época da ambientação do entorno imediato do
Paço de S. Cristovão e do Jardim das Princesas.

Acima imagens atuais dessa parte tão especial do Paço de S. Cristóvão, um sombreado recanto e seu alto muro limítrofe. Pode se vê-lo melhor na foto abaixo, onde esse ao mesmo tempo apartado jardim e quintal , aparece delimitado por uma linha verde. Trata-se de um pátio com árvores e palmeiras imperiais em fila, cercado por altos muros, formando um recanto privado bem à esquerda do Paço, conhecido como Jardim das Princesas.

Mesmo estando severamente abandonado,
o recanto ainda é aprazível.

Tentando escapar do calor, o velho paço era um forno no verão, era provavelmente neste local que D. Teresa e suas filhas pequenas gozavam de recreio com mais frequência. Localizado na base da fachada leste do paço, este espaço verde protegido e de uso privado da família, recebia apenas o sol da manhã, ficando livre de bem mais quente e desagradável sol da tarde, um lugar perfeito para se amarrar orquídeas nas árvores ou palmeiras. Os arruinados mosaicos que ainda decoram os bancos existentes, são testemunhas do uso privado, foram executados manualmente pela própria imperatriz, num estilo orgânico e detalhista, próximo ao que mais tarde tornaria célebre o arquiteto Antonio Gaudí.



 Abaixo algumas imagens do estado atual desse
 histórico e interessante jardim.

Este é o trecho inicial do Jardim das Princesas , é um segmento de área triangular , nele está localizado um portão que é o único acesso externo dessa área murada e protegida, veja esta parte do jardim na foto aérea do Paço acima, fica defrontada com os quatro carros estacionados. Imagino que D. Pedro II estabelecia as orquídeas que ganhava do amigo Barão de Capanema nesta área que era o "quintal privado" da família imperial, imagino que tenha sido deste lugar que a princesa Isabel "roubava mudas de orquídeas" para levar para a sua casa em Laranjeiras. É tão bom imaginar ! Vamos conhecer o Jardim das Princesas, eu fui de Curitiba ao Rio esperando registrar esta parte do Paço de S. Cristóvão, não me deixaram entrar para fotografar melhor, creio que se envergonham do estado em que se encontra a construção, de toda forma Pedro II concordaria com a nova função que deram ao palácio de D. João VI, ele saiu e a Ciência agora utiliza-se do casarão que parecia um convento, nas palavras da filha mais nova de  D. Pedro II.

 Logo em seguida, ao lado do torreão esquerdo, assim que o jardim ladeia no prédio do Paço,  onde ficava o quarto de dormir dos imperadores, com vista frontal para a Quinta da Boa Vista, e com janelas laterais e de fundo defrontadas com a Jardim das Princesas, que podiam então ser vigiadas pelos pais, através das janelas que davam vista a todo este espaço de recreio.

No último andar deste torreão ficava o quarto dos imperantes, as cinco janelas, 3 frontais e 2 laterais na fachada externa, são visíveis na na foto acima. Na foto abaixo, estão as 3 janelas  de fundos desse mesmo torreão, que defrontavam com o Jardim das Princesas, facilitando a observação das meninas princesas brincando.

 Abaixo a vista da sacada do torreão, no segundo andar, o quarto dos
 imperantes  no terceiro andar é atualmente é uma grande sala de
 reunião da Pós-Graduação da UFRJ, com acesso restrito.


 O Jardim das Princesas é composto de dois patamares, um mais alto que o outro, o desnível era gradeado evitando quedas, como se vê na imagem acima. Na parte mais baixa ficava, atualmente não visível do ponto em que fotografei, os bancos decorados em mosaico pela imperatriz napolitana.o paisagismo moderno descaracteriza completamente o lugar histórico. Espantoso uma universidade tratar assim um prédio dessa importância.

Acima a escada dupla que dava principal acesso a este jardim privativo, bem na 
lateral esquerda do Paço de S. Cristóvão, era a partir dessas escadas que se
 tinha  rápido acesso ao quintal privado da Família Imperial, as palmeiras
 imperiais são lindas vistas da sacada do paço, centenárias
 testemunhas da História do Brasil.

Para quem conhece algumas das histórias  e dramas ali
acontecidos, a bela presença das palmeiras imperiais
da reforma de Glaziou emociona e emociona, para
 com elas o tempo continua benevolente.

 Quando avistava essa parte da antiga residência, imaginava fortemente que ali ainda houvessem algumas orquídeas, tamanha é a compatibilidade ambiental desse lugar. Essa impressão forte foi uma das motivações que me animaram a começar este artigo-comentário, mas são apenas boas conjecturas, sabemos que existiram, mas não exatamente onde ficavam e nem qual era a sua disposição.



O jardim francês, os grandes vasos, as escadarias e balaustradas circundantes no átrio ou varanda do prédio, a serpente e o Templo de Apolo no lago e os vários bustos históricos são acréscimos descaracterizantes da eclética reforma republicana no parque. Esta reforma parece ter tido supervisão do grande paisagista francês Paul Villon, acertadamente retiraram o chafariz e o portal inglês de terracota imitando pedra, estabelecidos bem na frente do Paço e que em nada harmonizavam com prédio. O chafariz desapareceu sem deixar rastro, se alguém souber que fim levou avise !


D. Pedro II herdou a Quinta da Boa Vista com o aspecto geral de uma
 grande fazenda, na qual existia uma sede de maior tamanho
e pretensão do que outras: o Paço de S. Cristóvão.

Acima a fachada original do prédio da Imperial Fazenda de Santa Cruz - subúrbio do Rio - hoje um quartel militar. Confiscada dos jesuítas a propriedade serviu para fins recreativos a D. JoãoVI, Pedro I e Pedro II. Pouco comentada e conhecida essa propriedade não obteve atenções paisagísticas significativas no período imperial tardio.


A propriedade localizada em uma imensa planície próxima à Baía de Sepetiba, era ventilidada, agradável e cercada de lindas vistas panorâmicas. Seu uso recreativo como Palácio de Verão terminou definitivamente quando ali faleceu em 1850, sob um tórrido e típico calor carioca de um mês de janeiro, o último dos filhos de Pedro II, ainda antes dos dois anos de idade.


A Imperatriz, suas duas filhas e no colo o Príncipe Pedro Afonso,
 este faleceria em Santa Cruz, provavelmente vítima
de diarreia e desidratação.

Esse infortúnio marcou profundamente a alma do Imperador, ficaram vivas apenas as duas filhas. Não mais retornaram à Santa Cruz e as relações entre o casal imperial esfriaram, talvez culpasse a imperatriz pelo descuido com o herdeiro do trono. Dizem que após está funesta circunstância estabeleceu-se nele a certeza de que não seria sucedido, aceitando a idéia de ser último monarca brasileiro, não acreditava que suas filhas viessem a reinar algum dia. Resolveu-se então acelerar os incipientes trabalhos da construção de nova residência de verão nos muito mais amenos ares serranos da Serra dos Órgão. A Quinta, na época, era pouco melhor e muito mais próxima do centro Rio do que essa outra distante Fazenda Real de Santa Cruz, sendo que o prédio da sede desta última foi muito mais bem construído pelos jesuítas, seus primeiros proprietários.


O Trono de D. João VI ainda está
disposto no Paço de S. Cristóvão.



Reforma de Pedro I
 - aspecto em 1840.


Reparem ou balizem-se pelos dois  torreões para que possam perceber
a paisagem do paço antes das muitas reformas que sofreria.

 O chafariz no átrio já estava instalado, os dois torreões laterais já estavam igualados e com telhados harmonizados, o telhado com cúpula que aparece acima, daria lugar ao observatório de PII. Interessante perceber que o terraço ou mirante  mais recuado, que aparece na ilustração com duas pessoas observando a paisagem, depois seria definitivamente eliminado. Neste tempo, como se pode observar mais abaixo, o Paço foi acrescido de alguns prédios em separado, porém próximos, construções satélites.

 Fundos do Paço de S. Cristóvão.

Em futura reforma, seriam parcialmente demolidos estes prédios satélites, e dentro do possível, agregados ao corpo mais antigo e muito mais bem construído da atual construção. A parte frontal do Paço contrasta fortemente com a parte posterior, justamente pela diferença na qualidade da construção e do acabamento.

Este inesperado lago ou piscina também seria posteriormente eliminado, nunca o tinha
visto retratado, o portão dos leões, que se vira para o Maracanã , Paço Leopoldina
 e para futura estação privada de trens, já estava posicionado


 O alinhamento de casario que margeava o caminho para o centro da cidade
está mostrado à direita, muito interessante a vista do telhado do Paço
de S. Cristóvão , mostrando a boa vista que deu nome à Quinta.
 
Antes da reforma de Pedro II.



Ecce agnus dei - Eis ( este é ) o Cordeiro de Deus - Diz a inscrição na fachada dessa intrigante construção, não é a capela interna do Paço de São Cristovão, que era privativa da família imperial e localizava-se na parte posterior da construção, abrindo-se para o jardim interno. Esta era a capela da Quinta, de toda a comunidade que nela vivia, frequentavam-na escravos e imperantes. As linhas arquitetônicas foram alteradas, a fachada tornou-se fortemente eclética, provavelmente ocorreu na reforma de Nilo Peçanha, o chafariz  original desapareceu, as armas da República na fachada, apontam para um destino inacreditável.



 Abaixo aspectos  interiores do atual restaurante que
 ocupa a construção já descaracterizada.



A capela imperial, profundamente deformada, é o atual restaurante da Quinta da Boa Vista,
 instalado em 1957 no prédio, provavelmente já com a fachada eclética, localizado entre
o atual museu e o zoo. Duas cópias, inspiradas no antigo chafariz, lamentam
ainda o fim de uma capela onde frequentou a família imperial e
onde provavelmente a Princesa Isabel foi batisada.


A imperatriz Leopoldina, já reclamava do forte cheiro oriundo dos quase duzentos cavalos que ficavam em estrebarias muitos próximas ao prédio principal. D. João VI tinha aviários e recintos para macacos, provavelmente espécies nativas, ele gostava da vista do mar da baía- por isso o nome Boa Vista da Quinta. D. Pedro I ferrava seus próprios cavalos e gostava de carpintaria. Havia dezenas de casas de subalternos espalhadas pela propriedade.


Era uma fazenda e na medida em que o país enriquecia, foi transformando-se num palácio. Vários visitantes e diplomatas descreveram o paço como: " mal construído", "pobremente mobiliado", "deselegante", "convento " além de sempre ter exalado decadência. Embora o país fosse continental e potencialmente rico, a família imperial era "pobre", sem qualquer cerimonial cabível à uma residência de estado. Passava-se vergonha quando viam os visitantes estrangeiros, o imperador morava como um fazendeiro algo mais sofisticado e rico. Não havia a ostentação de ornamentação que as igrejas da época exibiam ! O modo de vida simples dos Braganças portugueses deixou forte apelo cultural no seu ramo dinástico brasileiro.



Gaiolas com pássaros compunham bem no estilo rural e doméstico da grande
 e despretensiosa residência. Ótima foto de época que por
 si só mostra mais que mil palavras.


O Conde D'Eu ao conhecer a residência do futuro sogro, reparou nos jardins e chamou-os de "selvagens". Bambus altos como que formando naves de catedrais e mangueiras marcavam o cenário verde. Um magnífico portal, presente do Duque de Northumberland, era semelhante ao que existia em sua residência na Inglaterra. Veio desmontado e foi colocado à frente da residência, contrastava fortemente com caos arquitetônico que dominava o entorno. Em 1909 o portal for transferido para a entrada do Jardim Zoológico onde ainda se encontra , em seu lugar um átrio com escadarias e balaustradas foram adicionados


Vista das janelas da fachada do Paço de S. Cristóvão - um cenário diríamos rural, com chafariz e portal, a desarmonia e o improviso eram muito evidentes. Havia real necessidade de reformas para organizar os jardins, muitas construções foram demolidas e algumas palmeiras imperiais cortadas, contudo o portal e o chafariz permaneceram até a reforma republicana.


O destino do antigo chafariz cercado de palmeiras e o mistério sobre
 sobre a origem de  sua água perduram, ele estava no ponto mais
 alto do terreno, são questões que permanecem sem resposta.


Fotos de  Franz Keller-Leuzinger: jardins ainda incultos no Paço de
São Cristóvão, em cerca de 1865, compostos principalmente
 de frutíferas e café, dispostos como num
grande pomar de fazenda.

Famosa alameda de bambus gigantes
da Quinta da Boa Vista, foto de 1860.


As antigas e avantajadas cocheiras, localizadas atrás do Paço e ao lado do atual zoo,
 onde se abrigavam um exército de cavalos, exalavam um onipresente
cheiro de estrume que muito incomodava
a Imperatriz Leopoldina.

Foram apartadas da Quinta da Boa Vista em tempos republicanos
e hoje o terreno pertence à Cavalaria do Exército.


Um patrimônio nacional ainda
muito pouco valorado.

O Paço de S. Cristóvão em
 grandes reformas - 1866


Na época, as plantas importadas de países distantes eram a moda e essa disposição foi uma ousadia realmente inovadora valorizava a flora nacional.

Sapucaia florida e com a folhagem nova que se apresenta
inicialmente cor-de-rosa, depois fica verde, é  típica
 do interior de Minas Gerais.


video

Sapucaia no Um-Pé-de-Quê.


Alameda principal de acesso ao Paço,
 na Quinta da Boa Vista , cercada de
sapucaias mais que centenárias.

A opção do paisagista francês pelas Sapucaias ( Lecythis pisonis ), para ladearem a avenida principal da Quinta da Boa Vista, talvez esteja relacionada com a grande predileção de D. Pedro II pelas guapevas - veja o início desta postagem, que são da mesma família botânica. No restante do paisagismo do parque foram usadas preferencialmente as espécies estrangeiras como indicava o padrão da época, houve concessão à flora nacional apenas nesse singular detalhe. Como havia matas magníficas por toda parte, para de fato chamar a atenção, seria necessário e lógico que um paisagismo de valor mostrasse uma natureza diferente, alternativa, exótica e domada.


Auguste Glaziou: mestre do
 jardim romântico brasileiro.

A reforma paisagística da Quinta da Boa Vista foi iniciada em 1869 e terminou só então em 1878, lagos e grutas artificiais foram inseridos no parque. Praticamente na mesma época em que a coleção de orquídeas da princesa dava muitas flores, parece que havia uma movimentação verde na vida dos governantes. A Quinta continha o Paço de São Cristovão, que vinha a ser apenas o prédio do palácio, estavam ambos em obras .

Adotou-se , conforme ditava o romantismo em voga na época, mais ou menos o estilo inglês de paisagismo, após a intervenção, o lugar deveria parecer que sempre fora belo. Árvores. grutas, lagos e paisagens deveriam ocultar, dentro do possível e muito discretamente, a mão criadora e executora do ser humano sobre a paisagem; aos olhos leigos, tudo deveria parecer muito natural e plácido.

O portão que dá acesso à Alameda das Sapucaias, foi erguido
já  pelos republicanos, na reforma de Paul Villon
 e Pereira Passos.
O importante Portão da Cancela ficou fora do atual perímetro da Quinta, que 
perdeu muito de se espaço original, agora esta porta de entrada e de 
controle, que ainda conserva os portões, está isolada e abandonada
 no meio de uma via do bairro de S. Cristóvão.
 
Como essa reforma foi posterior ao início da coleção da orquídeas da princesa , não há maiores envolvimentos do paisagista francês Glaziou , responsável pelo projeto e execução dos novos jardins, com o histórico de orquídeas na residência do imperador.

As esculturas da Serpente ( bronze), do Canto das Sereias - acima - ( mármore de Carrara) e o Templo de Apolo ( quiosque para músicos ), bem como os bustos , o jardim eclético de fronte o Paço, as balaustradas e escadarias, são acréscimos da reforma  de 1910, feita por Nilo Peçanha e Paul Villon.

Aspectos atuais do antigo parque.



Jardins e lagos implantados no entorno do Paço Leopoldina
 numa  foto da coleção da Condessa de Barral.

Também no Paço Leopoldina, depois conhecido como Pç. Duque de Saxe, jardins e lagos foram implantados pelo mesmo e emblemático paisagista Glaziou. Talvez esse paisagista tenha executado essa obra concomitantemente à reforma da Quinta da Boa Vista, descrita mais acima, ou talvez um pouco antes. A residência de D. Isabel apresentava jardins mais discretos do que os da casa da irmã que parecem ter sido muito bem projetados e executados.

Paço Leopoldina - ótimo exemplo
 do paisagismo de Glaziou.








A outra residência oficial da monarquia, o Palácio de Verão em Petropólis, também recebeu melhorias nos jardins, a cargo dos paisagistas franceses Auguste Glaziou e Jean Binot, especialmente contratados para esse fim.


Projeto de Glaziou para o Palácio de Petrópolis - não executado. Glaziou ficou com a Quinta da Boa Vista e Binot com Palácio de Verão em Petropólis. As fotos de baixo dão boa idéia da melhoria visual da propriedade preferida do imperador. Ampliem as fotos, os jardins recém implantados podem ser bem observados !


Pedro Binot, filho de Jean, fundaria, em Petrópolis, um importante orquidário comercial brasileiro, que leva o nome da família, até hoje ainda operante. A horticultura e o paisagismo surgiam com força no Brasil.


No jardim da princesa em Laranjeiras uma bem estabelecida Árvore-do-Viajante de Madagácar - uma bananeira muito diferente, em forma de leque ornamental, depois de mais velha, desenvolve um tronco similar à uma palmeira. Na época usava-se plantas exóticas como pandanus, ravenala, palmeira imperial e, em Petrópolis, os nativos pinheiros-do-paraná eram também valorizados.

Plantado na década de 1860, por ensejo do imperador, este magnífico acesso começou a mostrar sua glória paisagística pelo menos depois dos quinze anos de crescimento, o famoso corredor duplo de palmeiras imperiais da Rua Payssandú, suntuosamente, ligava a Praia do Flamengo ao Paço Isabel.




A primeira notícia que se tem da prática de cultivar orquídeas no Paço Isabel, é de 1868, portanto três anos após a aquisição da residência. Em carta de 24 de janeiro desse mesmo ano, a princesa escreve ao imperador e confessa-se a ele: " Estou fazendo uma coleção de orquídeas e confesso-lhe que algumas delas furtei-lhas no (seu) jardim " . Duas semanas depois escreve de novo sobre o assunto : " Vou adiantando bastante o álbum das orquídeas; quase todos os dias tenho pintado uma, duas ou três ". Era também ilustradora botânica ! No fim de abril desse mesmo ano, reporta ter juntado 93 espécies de orquidáceas, devia ter algum catálogo ou registro da coleção. Em setembro do ano seguinte, escreve ao marido: " Agora nossas orquídeas estão dando muitas flores e das mais bonitas ". Esta frase nos dá a entender que o Conde d'Eu também as apreciava, tanto que a notícia é dada em tom de entusiasmo.



Acima Guilherme Schüch - Barão de Capanema - no caso específico da coleção de orquídeas, pode-ser que o maior colecionador da época, tenha estimulado tanto a princesa como a seu pai a interessarem-se pelas lindas espécies nacionais. O Barão possuía uma renomadíssima coleção de orquídeas, era mineiro , porém filho de um austríaco que chegou ao Brasil na comitiva da Imperatriz Leopoldina.



Fábrica do formicida Capanema - à base de dissulfeto de carbono -
 na Ilha do Governador. Uma das primeiras tentativas de
 acabar com as saúvas no Brasil.


Era íntimo da família e amigo de infância do imperador , conversavam em alemão, o que agradava a D. Pedro II. Respeitado cientista e amante da natureza, o barão cultivava em sua chácara, onde hoje localiza-se o bairro Capanema em Curitiba, um belíssimo "jardim botânico" com pomares maravilhosos e plantas exóticas, que levaram jornalistas na época da visita do imperador D. Pedro II à capital do Paraná em 1880, a descrevê-lo como um "Jardim Botânico de primeira grandeza, digno de menção entre os melhores que possui o império".

Residência do Barão de Capanema na Ilha
do Governador : outro " jardim botânico ".

Também na sua residência da Ilha do Governador no Rio de Janeiro, local hoje conhecido como Praia do Barão, próxima ao Cocotá, havia uma grandiosa coleção de plantas, chamada pelos observadores da época de "jardim botânico". Esse local pode ter sido uma das origens das plantas da coleção de D. Isabel!



Quadro mostrando a exuberância da mata tropical ,
 pintado pelo Barão do Santo Ângelo.

Pela proximidade e convívio , exercia certa influência na Corte. Ele deve ter participado na introdução da prática orquidófila na família reinante. Nessa época pouquíssimas pessoas dariam importância às flores esquisitas e algumas até mesmo pouco vistosas , como as da fotos que aqui comentamos. Seriam verdadeiras "parasitas", vindas de "matos de caboclos", acho até que seriam consideradas de "mau agouro". Mesmo sendo uma governante, onde a princesa poderia conseguir 93 espécies de orquídeas, "das mais bonitas" ?


Acima uma vista dos fundos do Paço Isabel, local provável do orquidário da princesa, ainda em 1907. Portanto, antes da reforma com a qual o prefeito Souza Aguiar transformou seu estilo, e ainda sem os futuros jardins.

Após a reforma, nos fundos do palácio, em harmonia com a circundante vegetação original, foi inserido um jardim de época, com 15.000 metros quadrados, projetado e executado pelo paisagista francês Paul Villon. Se havia ainda alguns restos do orquidário da princesa , foi nessa remodelação que eles desapareceram.

Abertura na rocha dinamitada dando um novo acesso à antiga
 residência da princesa, vê-se ao fundo as palmeiras do
 portão do palácio e o corredor de palmaeiras
 da Rua Paysandú no bairro do Flamengo.


Palácio de Cristal - Estrutura de ferro e vidro feita na Grã-Bretanha, encomendada pelo Conde d'Eu e erguida 1884 em Petropólis, destinava-se à realização de exposições de plantas, frutos e pássaros - eventos em voga na época; D. Isabel auxiliou e interviu para a sua construção. O interesse em floricultura do casal se materializou nessa moderna instalação, na época uma estrutura metálica com vidros era notável.

O erguimento do pavilhão de vidro mostra a princesa ainda interessada em flores , quase 20 anos após começar a sua coleção de orquídeas. Apreciava as rosas e mesmo depois de exilada na Europa, continuou a cultivá-las em coleção. Sua neta relata que ela aborrecia-se com seus irmãos, quando esses em extrepolias, rondavam suas roseiras no Château D'Eu. Os clássicos jardins dessa propriedade são de desenho do maior paisagista de todos os tempos - André de Le Nôtre - o mesmo dos suntuosos jardins do Château de Versailles. A velha princesa bradava aos netos pequenos : "Patifezinhos, querem fazer o favor de não estragar minhas rosas !".


Diz a sabedoria popular brasileira que: quem não gosta de plantas , animais ou crianças - não gosta de nada e nem de ninguém ! Há registros que mesmo seu desafeto na sucessão do trono, o Príncipe Pedro Augusto, ocasionalmente presenteava a tia com novas roseiras para a coleção.


Estufas da segunda metade do Séc. XIX na Bélgica, foi grande o fluxo de coleta de plantas nativas brasileiras  para este país e para a Grã-Bretanha: orquídeas, palmeiras e aróides  foram intensamente coletadas para o comércio. Colecionadores privados e Institutos de Botânica demandavam novidades oriundas dos trópicos . O Orquidário Binot - de Petrópolis no RJ - foi um grande exportador de plantas brasileiras para a Bélgica  neste século em que a orquidofilia começou a tomar grande fôlego.

Estufas clássicas européias da
segunda metade do Séc. XIX .

Estufa brasileira da mesma época.

Cultivar plantas e ter jardins de raridades fazia parte da cultura das elites nessa segunda metade do Séc. XIX, plantas exóticas obtidas em várias partes do mundo despertavam coleções e cobiça. Na Europa as até então desconhecidas Cattleyas causaram admiração geral, eram as mais lindas flores do mundo.


Havia tráfico de orquídeas da América Latina para Europa,
 navios saiam lotados de milhares de orquídeas 
para abastecer as coleções dos 
endinheirados europeus.

Cattleya mossiae em cultivo antigo.


Os carregamentos de orquídeas andinas para a firma Sanders ficaram famosos, botânico e aventureiros caçavam espécies de valor comercial e quando achavam habitats fornidos, levavam tudo que era possível carregar.


Ilustrações Botânicas de autoria de João
Barbosa Rodrigues: estilo artístico apurado.


Os desenhos técnicos do botânico protegido da princesa, são geralmente de caráter artístico , não acredito que tenha sido ele quem arranjou as plantas daquela forma para o registro nas fotos. Acredito na hipótese de plantas de origem longínqua e recém descritas cientificamente, seriam um belo presente, tanto as plantas como talvez as fotos, para os imperantes, que então deliberadamente promoviam, interessavam-se e assim associavam-se à natureza tropical do país. Como vimos antes, em um determinado momento houve uma planejada iniciativa política da monarquia de assumir valores, atributos e características típicas da natureza país.


O botânico Barbosa Rodrigues.

Em 1877, o botânico brasileiro João Barbosa Rodrigues, criou o gênero Isabelia, em dileta homenagem à princesa herdeira, Isabelia virginalis foi a espécie tipo do gênero. São apenas três pequenas espécies de plantas epífitas originárias do sudeste e sul brasileiros, de porte e com hábitos parecidos aos de Sophronitis e Constantia.


Isabelia virginalis: homenagem para a princesa.


Isabelia violacea


Isabelia pulchella



Gaston d'Orléans - Provavelmente era também um orquidófilo, senão evitariam homenageá-lo de modo tão singular e específico, dando o nome de sua família real francesa para uma planta silvestre brasileira.

Orleanesia é um outro gênero botânico amazônico. O nome do gênero é uma homenagem a D. Gaston de Orléans. Foi proposto pelo mesmo João Barbosa Rodrigues, também em 1877, quando descreveu sua espécie tipo, a Orleanesia amazonica, atualmente são nove as espécies desse gênero, que é bem próximo à Amblostoma. Mais um agrado aos mandatários !



Orleanesia yapuriensis

Orleanesia maculata


Acredito que seja provável que o lote de orquídeas amazônicas, que aparecem nas fotos da coleção da princesa , tenham origem, ou no competente botânico João Barbosa Rodrigues, especialista em orquídeas e palmeiras, ou então no seu padrinho junto à família imperial, o Barão de Capanema.

O segundo filho de D. Isabel, brinca com macacos-barrigudos (Lagothrix lagotricha) , as fotos e textos mostram que os imperantes recebiam um bom fornecimento de macacos, papagaios e orquídeas da Amazônia. Coincidemente o botânico esteve na Amazônia em missão científica do governo imperial (1872-1875), radicou-se em Belém e Óbidos escreveu importantíssima obra sobre as orquídeas brasileiras, com subvenção governamental. Anos mais tarde, organizou e dirigiu, em Manaus, o Museu Botânico, criado (1882-83) sob patrocínio da princesa Isabel e extinto após a proclamação da república. A Sereníssima amiga criou o museu e despachou o amigo para ser diretor, foi-se ele com a segunda mulher e os 14 filhos. Então temos uma sucessão de homenagens, primeiro ele deu o nome dos condes a dois novos gêneros de orquídeas, como exposto mais acima neste artigo. Depois homenageou o barão protetor com o gênero Capanemia, e o próprio imperador também foi agraciado com gênero e espécie novos: Petronia regia ( = Batemannia colley ), podemos dizer que ele bajulava a todos com nomes científicos.

Capanemia superflua - Espécie pertecente ao gênero botânico criado por Barbosa Rodrigues em homenagem ao Barão de Capanema - seu padrinho junto à família reinante.

Uma outra possível fonte de orquídeas para a coleção de D. Isabel e de D. Pedro II, seria o estabelecimento, em 1870, da chácara de plantas raras de Pedro Maria Binot ( atual Orquidário Binot ) em Petrópolis, ao que se conhece foi o primeiro estabelecimento brasileiro do gênero e um marco na história da floricultura nacional. A família Binot era também próxima ao imperador, esse Pedro era filho do Jean Baptiste, citado mais acima como paisagista. Certamente haveriam orquídeas das redondezas petropolitanas disponíveis , ou outras vindas de pouco mais distantes, à venda nesse estabelecimento; mas a remessas de lotes de espécies amazônicas, coletadas nessa época, não são plausíveis para essa fonte.


Jean Baptiste Binot.


A história do primeiro orquidário comercial brasileiro começa com a implantação dos jardins do Palácio de Verão em Petropólis e como estímulo à floricultura nacional, o imperador cedeu a Jean Baptiste seis escravos e deve ter facilitado a aquisição, ou mesmo doado alguns terrenos para implantação do novo estabelecimento petropolitano. A Chácara de Plantas do Bairro Retiro, já sob o comando de Pedro Binot, firmou-se exportando quantidades de orquídeas brasileiras para a Bélgica e França, na época grandes centros consumidores e redistribuidores desse tipo de planta; foram 67 viagens levando orquídeas, mudas e sementes de outras espécies brasileiras e também trazendo outras exóticas de igual interesse.

Acima a Petronia regia, espécie amazônica com a qual Barbosa Rodrigues tentou, pomposamente, homenagear D. Pedro II. Depois constatou-se que a espécie já tinha sido anteriormente descrita como Batemannia colley , nome que prevaleceu por ser o mais antigo, a homenagem não deu certo.

Acima e abaixo, a pequenina, discreta e abundante Capanemia thereziae, foi mais uma tentativa de homenagem à Família Imperial, nesse caso à Imperatriz Teresa, também pequenina, discreta e pouco conspícua.


Escreveram as testemunhas da época, que Barbosa Rodrigues era um brilhante botânico, ativo e trabalhador, porém tinha caráter comentadamente duvidoso. Bajulava os influentes da corte, sempre em busca ou em agradecimento pelas subvenções oficiais, D. Pedro II demonstrou várias vezes que não o apreciava muito, a princesa era-lhe francamente mais simpática e tinham boas relações pessoais. Assim sendo, creio que certamente fornecia novidades, acréscimos e orientação técnica à coleção de orquídeas da princesa, ou o Barão de Capanema as repassava, fazendo uma estratégica intermediação. Do ponto de vista da jardinagem, as orquídeas das duas fotos são inexpressivas perto da beleza de outras orquídeas absolutamente mais comuns no Brasil. Deveriam saber que as das fotos eram espécies raras ou novas para a Ciência, por isso as fotos tão bem arranjada na disposição e com a folha do Trichocentrum cuidadosamente amarrada mostrando uma florzinha sem graça como se fosse algo precioso.


Maxillaria camaridii

Para corroborar com minha tese , as espécies e gêneros constantes nestas fotos motivo do artigo , foram coincidentemente, estudados por Barbosa Rodrigues. Em seguida enumeramos as espécies amazônicas descritas por esse botânico, algumas já tinham sido anteriormente descritas, mas como ele não sabia disto, descreveu-as como se fosse o primeiro a fazê-lo; poderiam ser as que aparecem nas duas fotos antigas:

Catasetum: ciliatum - heterantum ( = gnomus ) - albovirens - roseum ( = lemosii )

Galeandra : curvifolia - lacustris - vilosa .

Tricocentrum : amazonicum ( = albo-coccineum ).

Maxillaria ( Camaridium ) : cyrtopodanthus ( = camaradii ) - imbricata e carinata ( = jenischiana ).

A correlação entre os estudos amazônicos do botânico e o que se vê nas fotos é perfeita !


Anacã (Deroptyus accipitrinus)

O citado "lindo papagaio do Pará" das memórias da princesa, foi um agrado do Barão de Mamoré e não de Barbosa Rodrigues, como antes pensei. D. Isabel adorava a ave que manteve durante os anos no exílio da França, era um bicho que com suas estrepolias, lhe lembrava a terra natal.


O pássaro morreu pouco antes de 1908, com vinte anos de idade no cativeiro, logo ela o ganhou na segunda metade da década de 80, coincidentemente quando estavam organizando o museu em Manaus. Essa espécie é de fato vistosa, a princesa se refere a ele como "papagainho", era querido dos filhos dela que não se separavam dele nem nas férias.

As históricas fotos de orquídeas da Princesa Isabel:

Na coleção de 21.742 fotos do imperador, doada à Biblioteca Nacional como " Coleção Teresa Cristina", encontram-se dois registros fotográficos, que poderiam ser da coleção de orquídeas dos Condes d'Eu. Também poderiam pertencer a terceiros e por consequência apenas as fotos teriam sido ofertadas aos imperantes, seriam um demonstrativo de algum trabalho botânico ou de coleta, ou então simplesmente pertenciam a alguém que orgulhosamente retratou as raridades da distante Amazônia. São apenas duas fotos, parecem contemporâneas, todas as orquídeas que nelas aparecem estão floridas, reuniram deliberadamente as que tinham flores na ocasião, também misturam-se a elas outra plantas não-orquidáceas porém igualmente ornamentais, estas aparecem ainda enraizando em prosaicos vidros com água. Alguns exemplares entouceirados parecem estar ainda no substrato original, portanto talvez tenham sido retiradas da natureza não a muito tempo. O substrato original manteria as raízes, ajudando assim na sobrevivência à longa viagem da Amazônia até o Rio de Janeiro; esse detalhe corrobora a tese de serem um presente " científico ", talvez para o um imperador também "super-científico" ou para um princesa protetora que desejava aumentar e enobrecer sua coleção particular.



No primeiro registro fotográfico, acima disposto, aparecem duas plantas do gênero Catasetum , a primeira, ou da esquerda, apresenta o que parecem ser flores masculinas, a segunda, com duas inflorescências paralelas que , em contraste com o fundo, aparentam ser flores femininas ou mistas. Esse tipo de orquídeas tem normalmente flores de sexo separados, podem ocasionalmente apresentar no mesmo indivíduo, até três diferentes tipos de flores - feminina / masculina/ hermafrodita - há muita variação nas inflorescências e também dezenas de espécies, o que dificulta a sua perfeita identificação. As inflorescências que são semi-pendentes, estão artificialmente tutoradas e dispostas para cima, sinal de cuidados orquidófilos visíveis na foto.


Abaixo fotos e ilustrações de plantas catasetíneas, mostrando flores masculinas e femininas:



A segundo registro fotográfico é mais complexo que o primeiro, aparecem mais espécies identificáveis de orquídeas, são espécies oriundas da região amazônica, provavelmente um presente que foi dado por alguém que desejava agradar à princesa ou a seu pai.


A orquídea suspensa mais à direita, num pedaço de madeira ( tronco fino de palmeira ?) mais comprido, apresentando pseudobulbos unifoliados e bem espaçados, com hábito escandente, deve ser, pelo tamanho reduzido das flores, mais provavelmente uma Aganisia pulchella ou em segunda hipótese, uma Aganisia ( ex Acaccalis ) fimbriata. Embaixo, em primeiro lugar da fila num vaso quadrado, parece que temos uma epífita Galeandra sp. florida e depois temos na mesma fila vários tinhorões ( Calladium ) e mudas de plantas em processo de enraizamento na água.



Acima uma sequência de imagens de Aganisia pulchella.




Acima Aganisia fimbriata. Uma hipótese já menos provável.



Acima Galeandras lacustri e devoniana, suspeitas de serem a primeira espécie da fila de baixo


Ainda na segunda foto, cujo o detalhe das plantas suspensa está acima, vemos mais duas orquídeas. A menor à esquerda, com dois indivíduos, o de baixo está florido e teve uma folha cuidadosamente amarrada, expondo para a foto as flores que ficavam ocultas. Essa espécie nos pareceu um Trichocentrum fuscum , ou o T. albo-coccineum, que é genuinamente amazônico, como o resto do lote de plantas da foto em questão é, fica difícil afirmar com toda certeza devido a falta de foco e de tamanho da fotografia antiga.



Acima várias imagens do amazônico Trichocentrum albo-coccicineum .


A touceira que está suspensa bem no meio da segunda foto, provavelmente ainda no substrato original, mostra-se uma planta de muitos pseudobulbos e bem vigorosa, estranhamente parece estar misturada com algumas outras plantas simpodiais ( de crescimento do tipo Vanda ) .

Maxillaria lutescens

Pesquisando essa circunstância esquisita, percebemos que na verdade a "planta de crescimento simpodial misturada", não era outra planta e sim o rizoma dos novos brotos , cheios de folhas protetoras e a concomitante floração desse tipo de Maxillarias, que já formaram o antigo gênero Camaradium. Para a foto, eles agruparam as plantas floridas e de fato essa planta apresenta flores brancas ou claras dispersas pela touceira. Esse tipo de Maxillarias é beem mais comum na região amazônica , o que confirma a origem do lote, acredito que seja ou Maxillaria lutescens /camaradii, ou ainda a M. friedrichsthalli . Caso o rizoma fosse longo, a foto não mostra, mas há a possibilidade, poderia ser então M. uncata.

Maxillaria lutescens

Maxillaria camaradii


D. Pedro Gastão de Orléans e Bragança, neto da Princesa Isabel, aparece na foto cercado de orquídeas e antúrios no Paço do Grão-Pará em Petrópolis. Assim foi e a continuou: gostam de plantas! Esta foto mostra bem a grande e continuada afinidade da família imperial com a botânica e com os livros, uma legítima  aristocracia tropical, que só pode existir aqui, cercada das matas do Brasil. Aqui no Perfil da Planta continuam cercados e orquídeas e aves tropicais !

Termina aqui o meu metafísico abraço na Redentora
 que gostava de plantas, ganhou minha 
admiração e meu coração!







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