VVVVVV>&&&&&%gt;gt;>>>>>>>>>>>>>>>>>"Ver e ouvir são sentidos nobres; aristocracia é nunca tocar."

&&&&&&>>>>>>>>>"A memória guardará o que valer a pena: ela nos conhece bem e não perde o que merece ser salvo."


%%%%%%%%%%%%%%"Escrevo tudo o que o meu inconsciente exala
e clama; penso depois para justificar o que foi escrito"


&&&&&&&&&&&&&&;>>gt;>>>>>>>
"
A fotografia não é o que você vê, é o que você carrega dentro si."


&
;>&&&&&>>>>>>>>>>>>>>>>&gt
"Resolvi não exigir dos outros senão o mínimo: é uma forma de paz..."

&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"Aqui ergo um faustoso monumento ao meu tédio"


&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&&"A inveja morde, mas não come."


quarta-feira, 25 de junho de 2014

A Coleção Egiptológica do Museu Nacional da UFRJ



A História preza ordinariamente os mortos
e desdenha os vivos, com a mumificação
 alguns egípcios antigos ainda
mostram-se imersos na 
solenidade de si 
mesmos.

Estes tantalizantes resquícios fúnebres,
oriundos de um passado tão remoto, 
nos transportam com muita
facilidade para a magia
protetora de planos
enigmáticos, sutis
 e invisíveis.


Se hoje já são impressionantes,
em tempos antigos deviam
causar muito maior 
impacto místico.




"Há poucas coisas mais encorajadoras
 e estimulantes do que ver 
alguém morrer.

Stanley Kubrick



"O passado, é infinitamente mais
 estável do que o presente. 
Os seus efeitos são
muito maiores."
  
Marguerite Yourcenar 


 "A intuição não é uma
 opinião, é a própria
 coisa. "

Schopenhauer


"A sensação de mistério é a única
 emoção que se experimenta 
com muito mais força
 na arte do que 
na vida.

Stanley Kubrick




 Apresentamos nesta postagem um breve olhar sobre a atrativa coleção
 egiptológica formada pelos imperadores do Brasil, comentando
os mais curiosos desdobramentos históricos, culturais
 e científicos a ela correlacionados, já sob à luz
 da atualidade. Esse acervo é um verdadeiro
 patrimônio nacional, que veio dar
aqui por mero acaso ou
 talvez por capricho
 do destino.

Alguns  entendem que uma coisa que não  pode
 ser explicada com palavras não existe.
 Julgam que a capacidade de ser
 expressa  e a existência
venham a ser
o mesmo.

Os egípcios escreviam em tudo,
guiados por esta mesma
certeza de que se 
está escrito
existe.

Pode ser !

 Imagino então que esta narrativa 
seja um dos melhores salões
 da minha alma 
antiga.

A percepção feita em palavras,
 materializada, passa então
 a existir, e fica toda
à disposição do
 visitante.

Esta postagem está
direcionada aos
curiosos e
leigos.

Não gastaria toda esta
energia para tentar
agradar uns 
poucos.
 


"Conheça todas as teorias, domine todas

 as técnicas, mas ao tocar uma alma
 humana, seja apenas outra
 alma humana."

Jung 




Raro acervo arqueológico clássico,
 que bem mereceria o título de
 patrimônio nacional.

Nossa proposta é mostrá-lo
de forma rápida, séria,
 pedagógica e muito
bem ilustrada.

A descrição histórica e técnica,
 somada a comparações com
peças em outros museus,
se mostrará muito 
 prática e eficaz. 


A cultura brasileira aprecia tanto
a procissão: a religiosa, a
militar e a de carnaval.

Vamos então ver este

cortejo fúnebre de
sacerdotes tão
antigos.


 
"O interior mais fundo do tempo não
 é habitado senão por mortos
 ilustres, já que, durante
 suas vidas, ali nunca
estiveram..."

Schopenhauer



"Mistérios sempre me despertaram fortes
 paixões, são o próprio magnetismo da 
vida, é fantástico perceber que não 
conhecemos quase nada sobre 
a verdadeira natureza
 das coisas."

David Lynch




"E se tu olhares por muito
 tempo para um abismo,
o abismo também 
te avaliará. "


 Nietzsche







 Ismail Paxá - Khediva do Egito.

Proporcionou a Pedro II um presente
elegante, de rei para rei, uma
dádiva perfeita para um
 sábio coroado
 
 Durante a segunda estadia do último imperador do Brasil no Egito, em 1876-77, o Khediva Ismail Paxá recebeu o monarca viajante como mandava o protocolo diplomático de Estado, impressionou o monarca brasileiro com o luxo e os prazeres em que vivia, ganhou então de presente de Pedro II um livro sobre o Brasil, e em contrapartida presenteou-o generosamente com um  belo ataúde lacrado e contendo múmia. Ainda, ao que parece, percebendo a paixão do imperador pelas antiguidades, e certamente sabedor que já havia uma significativa coleção egiptológica no Museu Real do Brasil, também ofereceu-lhe outros objetos da baixa época, entre eles, talvez, a preciosa representação da Dama Takushit . 




 "A Ciência sou eu."

D. Pedro II fazendo troça
com a famosa frase 
de Luís XIV.



 "Em nada me pesa, ou em
 mim dura, o escrúpulo
 da hora presente. 
 Tenho fome da 
extensão do
 tempo.

Ler é sonhar
 pela  mão de
 outrem "

Fernando Pessoa



" Se você já teve sentimentos de solidão, de ser 
um estrangeiro ou estranho, isso quase
 nunca  te deixa.Você  pode ser feliz 
ou bem sucedido, mas aquilo
  ainda permanece com 
você sempre. "

Tim Burton





 
A célebre múmia do gabinete
do imperador.

 Comentaremos alguns aspectos de uma
  improvável coleção arqueológica
  egípcia que veio dar por aqui.

Esta coleção está na origem do
interesse de D. Pedro II
pelo Egito Antigo.

Falar dele, sem mostrar a
coleção que ele cresceu
admirando , seria
incompleto.

Esta postagem foi desmembrada
da anterior, que trata das viagens
de PII ao Egito, o tema das
antiguidades cresceu e
 tomou bom vulto, e
assim, foi elevado
 à postagem 
própria.



Sobre o prédio sede do Museu Nacional da
Universidade Federal do Rio de Janeiro
na Quinta da Boa Vista no Bairro
de S. Cristóvão:





 “Mergulha no Nilo o homem
 afortunado, logo voltará 
com o peixe na boca.”

Ditado  egípcio


" E que tudo passe...
e passe muito
   bem ! "

Paulo Leminski





O Imperador egiptólogo viajou por duas vezes ao
Egito, interagiu com os principais egiptologistas
em atividade nas ruínas antigas, seus diários
estão formatados de tal maneira que
dão a impressão de que o monarca
desejaria escrever um livro
 sobre o Antigo Egito
dos Faraós.

Não retornou pela terceira vez ao
país das múmias engalanadas
por proibição expressa
de seus médicos
em 1888.

Tornou-se famoso pela
 sua inquietação e
 curiosidade.

Na frente do palácio onde nasceu
e reinou, a estátua foi erguida
por seus admiradores e
amigos do  IHGB.

Um marco comemorativo ao 
centenário de nascimento
do mais ilustre dos 
brasileiros.


Aqui está o acesso à postagem
 sobre as viagens de Pedro II
ao Egito e ao início da
 Egiptologia:




 

É neste imponente prédio imperial que hoje abriga-se o antigo acervo do
Museu Real,  fundado por D. João VI, em 1818,  no Rio de Janeiro, 
na época a capital do Império Português. Após a deposição da
 Monarquia por um golpe militar, em 1889, o imenso edifício,
esvaziado de sua mobília e decorações em vários leilões,
 foi  destinado a ser a nova sede do antigo museu,
renomeado para "Museu Nacional".

D. Pedro II teria aprovado o destino de sua antiga residência, 
antes mesmo, ele já abrigava ali um acervo particular de
objetos antropológicos e arqueológicos, também
minerais e um herbário que herdou de sua mãe.
Na condição de significativa coleção, uma 
sala térrea do paço acomodava
o  " Museu do Imperador".




A antiga primeira sede do Museu Real
no atual Campo de Santana no
centro  do Rio de Janeiro.

D. Pedro II mostrava então aos visitantes de maior importância o seu museu
privado de antiguidades e outras curiosidades científicas,  localizado
no andar térreo do Paço de São Cristóvão, neste encontravam-se
também múmias indígenas e mantos plumários havaianos,
 entre outras peças de interesse  deste erudito
 monarca brasileiro.


O Paço de S. Cristóvão deixou então de abrigar a Família Imperial
para ser a nova sede de uma instituição de renome científico e
 com grande acervo de peças biológicas e antropológicas;
 entre as quais está a clássica coleção egiptológica
 aqui comentada, foi durante décadas
uma das mais importante sedes
da ciência brasileira.


Os maiores despojos do Antigo Egito em terras brasileiras
 estão abrigados neste prédio histórico, atualmente uma 
Seção de História Natural  e Antropologia da
Universidade Federal do Rio de  Janeiro.

Por isto o epíteto  de Museu
 Nacional da UFRJ.


"Com a proclamação da República em 1889, a família imperial foi banida do país para não dificultar a implantação da nova forma de governo. O governo provisório apressou-se a organizar um grande leilão das mobílias, louças e objetos pessoais da família imperial. A intenção era apagar rapidamente a memória da monarquia. O problema é que esse gesto poderia significar também apagar parte da memória histórica do Brasil. Esta era uma preocupação estampada nos jornais da época. Temia-se, sobretudo, pelo destino das coleções do Museu do Imperador, que acabaram poupadas de ir à venda pública. Nesse momento, D. Pedro II, exilado em Paris, foi chamado a dar seu consentimento sobre a doação do acervo. A resposta veio em 8 de junho de 1891, sete meses após o término do leilão e seis meses antes de sua morte: “O meu Museu dou-o também ao Instituto Histórico [e Geográfico Brasileiro], no que tenha relação com a Etnografia e a História do Brasil. A parte relativa às ciências naturais e à mineralogia sob o nome de Imperatriz Leopoldina, como os herbários, que possam ficar no Museu do Rio.”  

da Revista de História.


 A Pedra do Bendegó.

Acima, os grandes esforços da Comissão Imperial (1888) designada para trazer
 ao Museu Real o pesadíssimo meteorito Bendegó, de 5 ton , desde o sertão de
Monte Santo-BA até a ante-sala do museu no Rio de Janeiro. É perceptível
a determinação do imperador no sentido de conferir sempre maior 
importância científica a esta nobre instituição brasileira. Na
época , este era o 2º maior meteorito metálico conhecido,
repousava então numa camada de 4 m de óxidos,
mostrando os milhares de anos em que
dormiu em solo nacional. Conforme 
o texto da comissão: " era feito
 de ferro, níquel e encanto. "


O paço residencial por ocasião do
 casamento de Pedro II.


Aspecto original do Paço de S. Cristóvão, em cerca de 1870, com edifícios satélites
 erguidos  na parte posterior, estes blocos construtivos seriam incorporados
à parte frontal mais antiga ao longo do tempo, e hoje
constituem a parte mais descaracterizada e 
sem restauro deste prédio histórico
 sem igual, um patrimônio
 nacional deteriorado.

 A sala do trono, mesmo despida de seus móveis e
 decorações, ainda é um ícone dos tempos imperiais.

Restaram uns  poucos detalhes da estratégica e cabível simplicidade imperial
de D. Pedro II, embora composto de  volume grandioso e austero, a
edificação mostrava-se pouco pretensiosa e sempre contida
não apresentando ao visitante nada além
do necessário para se configurar na
sede monárquica brasileira.


Pedro II e suas irmãs herdaram uma corte que, segundo testemunho
de um de seus primos europeus que o visitaram, era
 “a mais miserável do universo” .


Apenas o bloco frontal, o mais antigo, vistoso e bem construído, foi reformado e pintado de amarelo, os outros segmentos dispostos nas laterais e nos fundos, que foram sendo agregados ao paço ao longo do reinado de  PII, em sucessivas reformas, continuam interditados ao visitante. Antes faziam parte da área de exposição do museu, apresentando uma variada e rica  coleção de animais taxidermizados. Soube que esta coleção zoológica, já bastante deteriorada e sem viço devido às décadas em exposição, teria sido doada ao Museu da Fauna do IBAMA. Estas muitas salas que acredito estejam vazias ou sendo usadas como depósitos, não apresentam qualquer restauro exterior significativo como se pode ver acima na foto que mostra a imponente e degradada fachada dos fundos. Negam o acesso aos visitantes mais interessados como eu, fiz de tudo, mas não pude entrar e fotografar. Li, já faz algum tempo, que custaria muito mais de R$ 30 milhões restaurar minimamente toda está imensa construção. Imagino que poucos  prédios seriam tão historicamente relevantes como a residência de D. João VI, Pedro I e Pedro II. Por que não há verbas para restauro de tão significativo patrimônio?

Transformado o clássico prédio em instituição nacional, foi acrescido de átrio
e jardim eclético frontal no início dos tempos republicanos. Mostra-se
 atualmente com muitos aparelhos de ar condicionado, com fiação
 por toda parte. Visivelmente abandonado à própria sorte, quem
 sabe aguarde pacientemente um incêndio "butantânico" 
que catapulte-o em definitivo para o mesmo 
plano de esquecimento que já abriga a
D. Pedro II e seu Século
 Romântico.

O fogo levaria junto para as cinzas  àqueles
antigos sacerdotes e suas milenares peças
 de entorno, numa imensa fogueira
 de descaso e abandono.

Deus  permita-me
morrer sem ter
este desgosto.


Conservação só a de fachada, obras assim mais especiais
nunca estão nos planos do governo, miram onde
as grandes empreiteiras possam atuar,
 como em museus modernos.

Vamos voltar às informações
mais técnicas e motivantes.

Desculpem exacerbar-me,
 mas a paixão por este
 lugar é muito intensa
e talvez mesmo
 infantil.

Deus salve o Paço
de S. Cristóvão !




A modesta residência oficial, chamado pelas filhas do imperador de "convento",
foi sempre um reflexo da mentalidade de Pedro II sobre o dinheiro público.
O imperador reformou várias vezes esta construção, mas jamais ousou
contrastá-la com a simplicidade brasileira. A maior parte dos recursos
destinados à manutenção da Casa Imperial do Brasil era por
ele redirecionada às bolsas de estudos no exterior e para
as pensões aos desvalidos que encontrava.
Jamais admitiu, em 49 anos de
reinado, qualquer aumento
de suas dotações
particulares.

O Paço é muito representativo do país:
imponente, vasto, envolto em belo
verde e em verdade sobressai
mais por ser simpático
 e simplório.

O Império Brasileiro era democrático,
conforme os cânones da época,
algo semelhante ao britânico,
havia eleições e uma muito
 boa Constituição.

O monarca não era dado a luxos, tolerava
 mal as regalias  protocolares, mostrava
 erudição como intelectual, era
assim que se sentia bem.

Qualquer baronete inglês,
russo ou francês, teria
residência melhor e
mais requintada.

Depois de Pedro II
 tudo mudou  !



Durante o governo de Nilo Peçanha, uma reforma eclética "revitalizou" o átrio em frente ao neoclássico paço com balaustradas, escadas e vasos  de baixa qualidade construtiva.Também um templo grego numa ilha do lago foi adicionado à paisagem romântica que Glaziou desenhou tão discreta e natural, entre outras decorações espalhadas por toda a parte, completamente características deste estilo arquitetônico hiper decorativo em voga nas primeiras décadas do Séc. XX.



Esta postagem derivou-se da anterior: D. Pedro II no Egito.
Cresceu natural, encorpou, animou-me e por fim
criou configuração própria. Foi com muita
satisfação que vi as belas imagens
se concatenarem tão
decididamente.

Nem parecia que eu
mesmo comandava o
desenrolar das
palavras.

Cresceram como
o mato na
 roça.

Por forças
próprias.




Deste de seus primeiros estudos, PII deparou-se com a coleção
 de antiguidades egípcias adquirida por intermediação de
 seu pai, e posteriormente doada ao Museu 
Real. Portanto, o seu interesse em tão
 exótico e distante assunto, deve ter
correlação original com
 esta preciosa  coleção
de antiguidades.

Acima o Faraó do Império
 das Selvas do Sem Fim.
Talvez na sua mais
 bela ilustração,
está soberbo.

Uma pilhéria muito
 bem desenhada !

Elegante
mesmo.








Escadaria de acesso interno ao segundo andar do
paço, esta era ala social e de recepção oficial
dos embaixadores e visitantes; o terceiro
piso era a parte íntima da família, além
de abrigar uma vasta biblioteca e o
observatório astronômico.


Plantadas no jardim interno privado lateral, área para recreio das
 duas princesas filhas e da imperatriz, as palmeiras imperiais de
mais de 130 anos são testemunhas vivas das espiadas que o
imperador barbudo dava na família , em
pé na sacada de seus aposentos.

Vivas e magníficas, nos
contam sobre o efeito
do tempo transcorrido.




Frente e fundos dos aposentos dos imperantes,
no terceiro andar do torreão esquerdo.




Logo após o Golpe Militar que derrubou
a Monarquia, uma decidida sucessão
de leilões dizimou os interiores
do antigo paço, como era
de propriedade estatal,
foi desrespeitado
pelos golpistas.

A residência particular de recreio do
 imperador em Petrópolis manteve-se
de posse da Família Imperial
destronada no exílio.

Uma reforma eclética republicana descaracterizou
o purismo do paisagismo romântico implantado
por Glaziou no entorno deste paço imperial
logo após a primeira viagem do casal
de imperantes ao exterior,
 em 1871, inspirado
no que viu, PII
designou a
reforma.





Dos antigos ocupantes, apenas a múmia do gabinete do
imperador continua abrigada na construção; tudo passou,
o tempo levou. Contudo, a dama cantora do templo mais 
importante do Egito remanesceu e hoje é ela
que impera airosa na antiga mansão.

Na foto acima, que tanto
 me tocou,  o menino olha
 tão interessado para a
egípcia ilustre.

Preparada e composta para
 encantar eternamente,
a falecida cumpre
sua destinação.

Eu quando criança olhava os 
objetos dessa coleção com arguto
interesse: o aspecto muito
antigo das peças, a forte
singularidade da arte
egípcia e o clima do
 museu faziam
devanear.

Esta apresentação não deixa
 de ser um presente tardio
ao menino curioso
que fui.

Sou ainda hoje movido
pelas sensações
do passado.

Demandou uma vida 
ter estas informações
todas aqui dispostas.

Eu menino teria adorado
 ler todos esses comentários
 aqui concatenados.

Escrever é uma arma 
poderosa contra as
ofensas da
 vida.


Esquife de Hori.



Antes de apresentarmos as antiguidades
desta coleção, cabe primeiro explicar
 o que é uma múmia egípcia.


Sobre a Prática da Mumificação
no Antigo Egito:


A palavra egípcia para múmia , sah , significa " nobreza " ou " dignidade " e denota uma estável manifestação física divinizada, uma apresentação ritualizada dos restos mortais do falecido. Segundo a crença antiga o corpo mumificado  mostra-se transformado em uma residência perpétua para a alma, enquanto a múmia existir seu espírito poderia visitá-la e permanecer ligado às lembranças da existência passada e ao plano terreno em geral. Assim dava-se continuidade ao plano terreno, não havia qualquer conceito relativo a uma possível ressurreição, como sugerem erradamente  alguns filmes   americanos e europeus.  No Egito Antigo a morte era a imensa noite de contar os anos, ninguém retornaria dela, nem mesmo por reencarnação, contudo o espírito permaneceria sempre ativo e vigilante. Havia claramente a crença num plano espiritual compensatório às boas  ações.


De acordo as crenças funerárias no Egito antigo, após a morte, a múmia teria a propriedade de ser capaz de se reunir com diferentes facetas do seu próprio espírito desencarnado. A alma poderia assim abrigar-se no sepulcro, bem como vagar fora dele, apresentando uma propriedade ativa de se manifestar invisível e plenamente pela vida após a morte. A múmia mostra-se então como uma representação física e teatralizada do morto, um corpo embalsamado visando receber eternamente a visita de sua alma. Se destruída a múmia, uma estátua, ou uma pintura nos muros, igualmente ritualizada, poderia substituí-la nesta função de permitir ao espírito um contínuo vínculo com o mundo terreno.

A retirada dos pouco consistentes orgãos internos
 era a primeira parte do processo de mumificação.

Os primeiros egípcios perceberam que corpos enterrados na areia quente do deserto ressecavam-se rapidamente, e assim conservavam-se de forma surpreendente. Depois perceberam que apenas enfaixando os cadáveres e encerrando-os em ataúdes, essa mesma conservação não se repetia ao sepultarem seus mortos em tumbas escuras e abafadas. Igualmente observando os animais desidratados nos minerais depositados nas margens dos lagos salinos dos deserto, passaram então a desenvolver uma prática artificial de ressecamento prévio dos cadáveres, algo semelhante à fabricação  contemporânea da carne-seca ou charque. A conservação do cadáver era basicamente salina, e a partir dessa base bioquímica, técnicas de evisceração mais sofisticadas e  práticas cosméticas foram surgindo e deram evolução à embalsamação dos mortos mais ilustres da sociedade egípcia antiga

 
Acima uma ave desidratada por um sal sódico esbranquiçado no seu entorno, os egípcios observavam a mumificação ocorrendo na natureza, percebiam que os sais minerais tinham evidentes poderes para barrar a ação dos micro-organismos que decompunham os cadáveres. Contudo, havia diferenças deste processo fúnebre com o prosaico salga de carnes para alimentação. Os sais mumificantes mostrava-se compostos basicamente pelo carbonato de cálcio, além do tradicional cloreto de sódio ou sal grosso de cozinha; esta mistura natural de sais, muito mais potente e quimicamente ativa, ficou conhecida como natrão.
  O natrão é um abundante recurso mineral dos desertos egípcios,
é resultante do processo de total secagem de antigos
lagos salobros, restando então apenas os 
sais minerais sódicos desidratantes.

Após o falecimento, esperavam dois dias até  entregarem o corpo para mumificação, o processo começava com uma lavagem externa purificadora e com a consequente remoção dos órgãos internos, retirados através de uma incisão feita à faca no abdômen. Na sequência quebravam o osso do fundo do nariz e por ali retiravam o cérebro ao girar um arame de bom calibre e tortuoso, apropriado para a função. As cavidades criadas no cadáver eram  preenchidas com serragem, liquens, linho ou resina derretida. Os órgão internos entram rapidamente em putrefação, provocam gases e líquidos, e deformam o cadáver, por isso precisavam ser rapidamente retirados. Passo seguinte: o corpo recebia várias bolsas de linho e natrão e de palha, para que o ressecamento também ocorresse homogeneamente no interior do cadáver.

Eram necessários mais de 200Kg deste material salino para produzir o ressecamento completo de um único cadáver. Em oficinas de mumificação, geralmente estabelecidas em tendas no deserto, lugar árido e ventoso, cobria-se completamente o corpo com este material químico, era um procedimento ritualístico  conduzido por sacerdotes de Anúbis, deus das necrópoles. O deserto era portanto o local mais estratégico para embalsamar, assim a curiosidade , as moscas e o odor desagradável desapareciam da percepção dos vivos. Já  eviscerado, o corpo iria se transformar durante o período de salgamento e consequente desidratação, depois de finalmente estabilizado, seria estética e ritualmente recomposto para que então pudessem realizar o funeral. As vísceras retiradas do cadáver eram desidratadas em separado, e por vezes  reconduzidas ao interior da múmia na fase final de acabamento deste processo esotérico.


A gordura e os músculos desapareciam logo, dissolvidos e liquefeitos pelo ataque químico, as gorduras saponificadas efluentes do processo eram drenadas, posto que escorriam abundantemente, e com o passar dos dias o corpo perdia massa e água. Por fim restava quase que apenas um esqueleto recoberto de pele seca, mas ainda com boas feições do falecido. O cadáver muito leve, frágil e malcheiroso, demandava então um processo de fino acabamento com óleos, serragens e perfumes, para ficar menos rude e fétido. Em seguida seria enfaixado em linho, mostraria-se assim mais apresentável diante dos participantes do funeral. Todas as múmias que estão no Brasil são de períodos mais tardios, portanto devem ter  recebido, depois de findo o processo de desidratação, as suas vísceras mumificadas e embaladas em linho à parte, dentro da cavidade abdominal. Após o acabamento final de enfaixamento, com  a investidura esotérica de amuletos e joias, o corpo era então acondicionado num esquife, logo após a "abertura da boca ", um procedimento ritualístico para que o defunto pudesse falar e comer no outro mundo. Elaborados para quem não fazia parte das mais altas castas sacerdotais ou nobreza, os ataúdes mais populares eram geralmente pré-fabricados em oficinas funerárias, e aguardavam apenas as inscrições relativas aos títulos e nomes do falecido para que a venda fosse concretizada. Somente a elite teria condições de bancar processos funerários personalizados e mais dispendiosos , estas  práticas de mumificação mais exclusivas eram plausíveis apenas para os mais importantes componentes da elite sacerdotal, funcionários graduados e para a realeza.


Em tempos mais ancestrais, as vísceras salgadas, desidaratadas e embalsamadas, eram colocadas fora da múmia, em quatro recipientes chamados de vasos canópicos. As múmias também passaram a receber, nos tempos saítas, uma camada do betume petrolífero que brotava em alguns pontos dos desertos. Enegrecidos e impermeabilizados, séculos depois, os cadáveres, por associação, receberiam o mesmo nome árabe do betume: "mummya". Basicamente era este o processo de mumificação no Egito Antigo, um processo caro, especializado, e por isto somente acessível aos mais abastados. Em tempos de domínio greco-romano, houve muito maior popularização deste procedimento, todavia a qualidade técnica decaiu muito, houve uma melhora na aparência externa em detrimento dos processos de conservação dos cadáveres. O processo de conservação dos cadáveres tornou-se precário, enquanto o enfaixamento e as máscaras funerárias refinaram-se como nunca antes, equipamentos adicionais desapareceram, e os ataúdes perderam qualidade artística.
 

Devidamente vestidos, embelezados e protegidos em esquifes - sarcófagos são de pedra - os cadáveres mumificados estariam então prontos para comporem  com a eternidade desse estado religioso de pós-morte. Assim conservados, alguns exemplares chegaram ao nosso tempo, completando o desejo místico dos antigos: "ao falarem de ti, te farão de novo viver numa  eternidade de milhões de anos". Muito interessante ressaltar que ataúdes com inscrições ditas em inglês como "mumbo-jumbo", totalmente desprovidas de sentido e apenas consistindo de letras e símbolos dispostos ao acaso e sem qualquer conteúdo inteligível, eram direcionados aos funerais de pessoas de menor importância. Para os analfabetos, somente as aparências já seriam suficientes. Algumas dessas peças, que até bem pouco tempo atrás eram consideradas como falsificações contenporâneas grosseiras, feitas por velhacos em tempos recentes para enganar incautos europeus compradores de antiguidades, mostraram-se após melhor estudo como sendo absolutamente verdadeiras e antigas. Analfabetos enganavam outros analfabetos já nesse passado ancestral, o importante era impressionar pessoas desejosas de propiciar um funeral digno aos seus familiares queridos, o golpe das inscrições "mumbo-jumbo"  mostrou-se muito mais antigo do que se pensou primeiramente.



 Sobre as Antiguidades
 Egípcias no Brasil:


Exposições  Públicas de Antiguidades 
 Egípcias legítimas no Brasil:
São Paulo: Museu de Arte de São Paulo

Click nos links acima
para acessar os
site.


 
Sha-Amen-en-Shu significaria "os campos verdejantes de Amon”, pode
ser vista acima bem de perto, na segunda foto são vistas marcações
 em branco que devem estar relacionadas à ressonância magnética.
É uma honra tê-la por aqui: respeitabilíssima senhora.
Adequadamente composta para resistir à eternidade.
Já esteve falecida e esquecida por séculos,
agora podemos considerá-la como
ressurgida dos mortos e viva
na atenção de outro país
tão distante do Egito.

Indo à frente, caminhará  pela História
junto com D. Pedro II, seu novo e
bom companheiro nessa
 escura noite sem fim
 de contar os
 anos.


O artístico e sóbrio esquife presenteado, com cerca de 29 séculos de idade, contendo o corpo da cantora do coro do deus, foi alocado primeiramente no gabinete de trabalho particular do imperador. Muito importante frisar que apenas a família do faraó e os altos funcionários e sacerdotes apresentavam condições materiais de possuir esquifes personalizados, feitos com suas feições e portanto servindo de retrato. A maioria dos ataúdes antropomórficos destinados à classe média antiga, mostrava apenas uma idealização artística de um defunto bem composto, desfrutando do gozo da eternidade.  Os caixões foram tradicionalmente pré-fabricados em série, elaborados por oficinas especializadas, mostravam tradicionalmente feições faciais de aspecto jovial até outras um tanto apáticas. Diferiam apenas em gênero, manufatura e custo, já traziam inscritas as evocações e preces litúrgicas usuais, recebendo após a aquisição as inscrições com o nome e títulos do falecido. Entenda-se que esta "cantora" egípcia  ancestral era em verdade uma sacerdotisa que entoava cânticos religiosos ou litúrgicos, sendo consequentemente ativa no serviço de culto cerimonial da divindade de Amon-Rá, rei dos deuses e senhor da maior cidade do Egito Antigo.


PII sempre com o livro na mão e a mente
no seu tempo, um homem típico de
um século tão romântico.


O esquife ofertado ao imperador Pedro II era notável pela excelente qualidade, sóbrio e elegante, sem dúvida configurou-se num belo presente. Embora ele dispusesse de um museu privado no próprio paço imperial onde residia, preferiu manter o elegante ataúde da cantora mais perto de si, onde tivessem contato diário. A peça de certo provocaria curiosidade e espanto aos que visitavam o gabinete imperial. A obra de arte egípcia antiga mostrava-se como uma  corporificada conexão entre mundos tão completamente atemporais, deveria impressionar os visitantes, até mesmo os estrangeiros. Pertenciam ambos, imperador e a múmia da sacerdotisa, à elite das castas mais esclarecidas, tinham esta nobreza em comum; assim vejo esta dupla tão atípica, mas não totalmente desconectada, talvez fossem namorados místicos.


Esquife contemporâneo, porém em museu norueguês, muito afim
 e provavelmente da mesma oficina que manufaturou
 o da Dama Sha-Amen-en-Shu, são peças
inequivocamente similares. A diferença
de acabamento e o refinamento
do esquife da cantora  são
evidentes e mostram
o maior valor da
da múmia do
imperador.

Este ataúde muito similar em estilo, acima disposto, também apresenta a característica decoração pintada de guirlandas envolvendo o peito, como se pode observar em outros exemplares aqui expostos, esta tendência decorativa mostra-se bem típica dos ataúdes desta época. O caixão de Sha-Amen-en Shu apresenta este mesmo detalhe e em mesma proporção de concepção, o que pode demonstrar que tenha sido uma peça pré-fabricada à qual foram acrescentadas inscrições identificadoras como acabamento final. O esquife da múmia do imperador é muito superior em acabamento artístico, sendo perceptível a grande diferença de qualidade de manufatura entre as duas peças arqueológicas tão similares em estilo decorativo e cores fundamentais.

 Gabinete do Imperador - Paço de S. Cristóvão.

Surgiu então uma respeitosa
 amizade já atemporal e  
transcendental.

Dizem que pela proximidade imediata, Pedro II
 lhe fazia algumas confidências e ganhava
 conselhos. Contudo,  o imperador
nunca foi pessoa dada
 a misticismos.



Sobre a chegada da Coleção Egípicia
ao Rio de Janeiro:




"Ao primeiro imperador coube o pioneirismo, já em 1827, na formação de uma coleção egípcia na América Latina; ao segundo, amante do conhecimento, das ciências e das letras, competiu o fortalecimento do vínculo iniciado por seu pai, por meio de sua notoriedade e dedicação à Egiptologia, estabelecida através de seus estudos sobre a antiga civilização, do aumento do número de antiguidades egípcias da coleção iniciada por seu pai e, principalmente, de suas duas idas ao Egito e suas reminiscências relacionadas à terra dos Faraós , realizadas em um momento onde as idas ao Oriente faziam parte do itinerário de qualquer pessoa interessada a conhecer novas culturas”  -   da tese de Jaqueline Monteiro dos Santos.

 


 A tal coleção egípcia chegou ao Rio de Janeiro em 1826 e foi adquirida em 1827, vinda da Europa com destino à Argentina, chegando em Montevidéu, perceberam que instabilidades em Buenos Aires não permitiram que suas pretensões de venda ou entrega da encomendada coleção de antiguidades se concretizassem. Parece que lá havia sido criada uma universidade e um museu, e demandavam a aquisição de peças atrativas, o comerciante Nicolau Fiengo seguia rumo a esta possibilidade de bem negociar o lote de antiguidades. Talvez este fator, a concorrência com a Argentina, tenha contribuído para incentivar a posterior aquisição pelo governo brasileiro. Então, com os problemas em Buenos Aires, retornaram para o Rio de Janeiro, e ali as antiguidades, múmias e esquifes ficaram expostas e em oferta pública de venda por oito meses no Museu Real do Brasil. Causaram muita curiosidade, especialmente as múmias, na época, muito mais do que hoje, a exposição de corpos embalsamados e as concepções orientais de morte e de vida após a morte faziam sucesso e criavam celeuma.

D.  Pedro I adquire a exótica coleção de antiguidades egípcias que 
estava destinada a uma recém fundada universidade
argentina; o imponderável trouxe o valioso
acervo para o Rio de Janeiro.

Por fim D. Pedro I , aconselhado por José Bonifácio de Andrada, adquiriu toda a pioneira coleção de antiguidades egípcias a chegar na América, e a doou ao Museu Real, criado por seu pai D. João VI. É preciso identificar esta coleção como composta de peças arqueológicas que podemos adjetivar de padronizadas, sem que se desmereça o valor intrínseco de qualquer antiguidade egípcia milenar, as peças expostas no Rio encontram similares em vários outros acervos de mesma natureza. Umas poucas peças menores merecem algum destaque singular, porém um conjunto como este mostra-se notoriamente raro em terras do Hemisfério Sul. Por falar em hemisfério, vale a pena registrar que são poucos  os acervos egiptológicos ao sul da linha do Equador,  em  cidades da República da  África do Sul e no sul da Austrália são exibidas à visitação peças e coleções egiptológicas. São acervos também estatais, formados por doação nas proximidades do início do Séc. XX, são de qualidade muito inferior ao do Rio de Janeiro e serão mostrados no fim desta postagem, a título de interessante comparação. Também existem algumas peças similares na Argentina, mas não se comparam em interesse aos acervos primeiramente citados. Em se tratando de peças arqueológicas de modo geral , acredito que este é o melhor e mais valiosa coleção que repousa  em solo brasileiro, por conta de um acontecimento único, tivemos a sorte de tal acervo ter vindo parar em nossas terras. Em segundo lugar viria o acervo greco-romano e etrusco da coleção da Imperatriz Teresa Cristina, também exposto  no Museu Nacional da UFRJ e já mostrado com detalhes em outra postagem relativa às viagens do Imperador neste mesmo blog.



O vendedor informou que as antiguidades teriam sido coletadas na cidade de Tebas, antiga capital do Egito, por um empreiteiro de escavações chamado "Belgozi". Neste tempo, na década de 20 do Séc. XIX, a egiptologia engatinhava, sendo historicamente iniciada pelo sistemático arrombador de tumbas italiano Giovani Belzoni, acreditamos e temos fortes indícios que o "Belgozi" de Fuengo seja o histórico Belzoni. Este esteve trabalhando para museus, colecionadores e comerciantes no Egito de 1816 até 1818. Portanto na época não havia pudores arqueológicos ou interesse histórico, havia a procura, o saque e os colecionadores de artefatos artísticos antigos e exóticos, se possível valiosos e dourados. Belzoni usava métodos literalmente explosivos e altamente destrutivos para abrir caminho por entre as pedras e o entulho dos séculos, procurava riqueza em meio ao esquecimento, os muçulmanos desprezavam os antigo pagãos e hereges, só mais tarde foram se dar conta da importância dos restos dos antigos.

 
A Tumba de Sethi I foi descoberta
 cerca de 9 anos antes da 
coleção egípcia de
Fiengo chegar
ao Rio.

Com a crescente experiência adquirida, Belzoni  localizou em 1817 a célebre tumba de Seti I no Vale dos Reis, considerada a de mais impressionante e vasta decoração das tumbas reais do Egito, é um verdadeiro palácio subterrâneo. Havia poucos objetos dentro dela, já havia sido saqueada desde a Antiguidade, mas foram encontrados centenas de pequenas e tradicionais estatuetas funerárias, escravos para trabalharem no além morte, também a cuba de um precioso esquife de alabastro foi encontrada vazia, esta pertenceu ao conjunto de ataúdes  do equipamento funerário do rei.

Cuba de um Sarcófago de alabastro encontrado por 
Belzoni na Tumba de Seti I, atualmente exposto
em Londres, foi esta a peça mais valiosa
remanescente no sepulcro real já
violado por ladrões na
Antiguidade.

 Fragmento de shabti de Seti I in situ 
 nos entulhos da famosa tumba.
Havia  grande quantidade
destas estatuetas  neste
recinto funerário.


Não por acaso, de 3 a 7 dessas estatuetas  (veja mais  abaixo) , oriundas da tumba de Seti I e conhecidas como shabtis, encontravam-se inseridas na coleção de "Belgozi" vendida por Fiengo. As estatuetas  de madeira, muito mais preciosas do que as mais abundantes e comuns de faiança azul, estão atualmente em exposição no Museu Nacional no Rio.  Estas três pequenas peças, que certamente pertencem à tumba do rei, podem nos indicar claramente qual é a origem desta coleção egípcia adquirida no Brasil. A correlação direta com os pioneiros dias da Egiptologia e com o nome de Giovane Belzoni, faz a coleção  egípcia em terra brasileira tornar-se ainda mais cativante, preciosa e relevante. No país não há nada arqueologicamente mais importante, qualquer museu do mundo gostaria de expô-las.

Inscrição de Belzoni, reclamando historicamente para si, a descoberta da 
câmara mortuária da Pirâmide de Quéfrem ( Khaf-Re ) em 1818.


A Múmia do Imperador:


 

Múmia de Sha-Amen-en-Shu - XXII-XXIIIª Dinastias - sacerdotisa e cantora do templo de Amon em Karnak durante o período em que faraós de ascendência líbia dominaram o país. Um interessante presente do Khediva do Egito, que a despachou cuidadosamente por navio. Mumificada e encapsulada em seu ataúde de madeira e gesso, lindamente pintado, bem composta e estabilizada para enfrentar a longa noite de contar os anos, veio dar, guiada pelo acaso e pelo interesse do segundo imperador, no Rio de Janeiro. Provavelmente seja a peça arqueológica mais valiosa em terras nacionais, reparem mais abaixo o grande destaque de exposição que o Britsh Museum dá à outra peça similar e contemporânea.

D. Pedro II mantinha o esquife em pé contra a parede em seu  gabinete
  particular,uma forte ventania abriu uma janela e o derrubou,
danificando-o levemente,  o imperador  mandou
  restaurar a valiosa e rara peça.


    

Uma tomografia deste ataúde selado nos mostra o seu conteúdo:
 o corpo de uma senhora madura ainda com alguns amuletos
 protetivos.  Sha-Amen não faleceu tão jovem como
sugerem as feições padronizadas  do seu belo 
esquife, devia ter cerca de 50 anos.


Como trata-se de uma cantora, a tomografia da múmia revelou
um detalhe muito interessante da mumificação: a região
do pescoço, garganta e início do peito está muito
especialmente protegida com bandagens
 resinadas  para que a voz da falecida
se mantivesse preservada no
além, no reino de Osíris.

 Existe uma outra múmia de cantora algo similar em um museu
de Chicago, com as mesmas características de mumificação
protetiva na garganta e também ainda intacta em seu
esquife, chamava-se Meresamum e morreu aos
30 anos.  A boca e o pescoço da cantora estão
 revestidos  com chumaços do que parece
 ser terra fixada com algum
tipo de atadura.



Meresamaum, outra cantora mumificada.
Os esquifes da XXIIª Dinastia tendem
 ao fundo branco, os da XXIª ao
  verniz amarelado, cor do
papiro funerário.



Essa época da XXIIª Dinastia é conhecida
 como a anarquia líbia, o país não tinha
 um  governo central, líbios regiam
o Norte e clérigos o Sul.


O vistoso carneiro alado protegendo o peito é bem característico do
 estilo da XXIIª Dinastia, assim como o fundo branco e os
 desenhos compartimentados, além das guirlandas
 de flores na altura do peito do esquife.


Acima outro exemplar de ataúde de luxo do mesmo período, pertencente ao Britsh  Museum ,
 em Londres, também de uma cantora, mas do Templo de  Luxor, de nome
 Tamut, mostra-nos como é característico  e  reconhecível
 o estilo funerário da XXIIª-Dinastia . 


No Museu da USP há uma interessante cobertura interna
 de ataúde de mesma época e semelhante ao
 esquife da múmia do gabinete de PII.
Não chega a ser um esquife,
a peça é melhor definida
como uma prancha
de proteção da
múmia.

Ataúde e múmia do sacerdote Chonsu-maa-teru,
em museu de Hamburgo, bem típicos e bons
exemplo de peças da XXª dinastia.


Magnífico esquife da XXIIª Dinastia
exposto no Fitzwilliam Museum.



Outro esquife  ainda mais espetacular, dessa mesma época,
 no Museu do Brooklin - NY. Parece  intacto para uma
manufatura de  28 séculos de idade, simplesmente
 soberbo. O sacerdote está digno e composto
para cruzar sua eternidade de muitos
e muitos anos, exala uma beleza
 capaz de corar a própria
 morte. Vitorioso da
vida terrena.

Embora haja significativa variação,
o estilo de ataúde no período líbio
 tornou-se consolidado e
logo identificável.



Pilar Djet ou Djed, um
signo da estabilidade
no post mortem.





As cubas de esquifes acima apresentam o clássico símbolo
"Djed" no seu dorso , significando a estabilidade
 de Osíris o deus mortos no Egito Antigo. O
ataúde de Sha-Amen-en-Shu apresenta
 a mesma disposição ritualística.



Podemos observar nas fotos o estrago feito no esquife , fragmentando sua
lateral e deixando grandes fissuras, a peça que ficava em pé de contra a 
parede foi ao chão durante um vento de tempestade quando ainda
estava no gabinete de Pedro II.

Também é possível observar os compartimentos frontais de
fundo branco, onde deuses e símbolos estão dispostos.
Anúbis, Ísis e o Olho de Hórus, além de outras
decorações protetivas, estão elencados no
intúito de dar à múmia proteção
e estabilidade eternas.


O esquife intacto de Sha-Amen-en-Shu, presenteado a D. Pedro II pelo khediva, é todo original e está em muito bom estado de conservação de cores e aspecto geral, sendo na minha desimportante opinião, a mais preciosa e histórica peça de toda coleção egípcia do Museu Nacional.
 
 Na foto acima é possível ver a pintura lateral 
do esquife manchada, provavelmente com 
óleos de libações cerimoniais
 funerárias.

Observa-se refletido no espelho da
 base da vitrine o mesmo símbolo
 osiríaco Djed, já citado acima,
 e que  também orna a parte
 dorsal do esquife
 de Pestjef.

 Outro exemplo de esquife contemporâneo, do Museu Britânico,
onde se vê marcas de libações funerárias, provavelmente
 oleosas, bem semelhante às do ataúde da
cantora Sha-Amen-en-Shu.

 
A única parte faltante no ataúde da múmia do imperador
é a sua base de madeira, no orifício surgido se
 vê atualmente os pés da múmia.


 O detalhe do carneiro alado no esquife da
cantora é muito interessante e típico
da época em que viveu a cantora
Sha-Amen-en-Shu.

Pode comumente ser reconhecido
em esquifes de outros museus,
  como se vê abaixo:

Iconografia comum nos esquifes desta época, o carneiro alado é uma
forma solar protetiva do deus Amon-Rá, reparem que
está presente nos belos ataúdes acima mostrados;
sempre um elegante e bonito design.

Um símbolo de proteção.

Originou-se da crença do barco do sol noturno: o sol surge no leste e
se põe a oeste, os egípcios imaginavam então que um sol noturno cruzava
 pelos subterrâneos infernais, mas profundezas da terra, ressuscitando
completamente revitalizado no leste, a cada novo dia. É do
antigo mito do sol noturno, que iluminava o reino inferior,
que surge o carneiro alado com o disco do sol 
na cabeça, tão comum nos ataúdes dessa
época, simbolizando um guia para o
 espírito do morto no
 outro mundo.

As castas de sacerdotes e cantores do deus eram mantidas a partir da renda gerada pelas grandes extensões de terras do templo de Amon, propriedades doadas pelos faraós e fiéis em todo o Egito. Alguns sacerdotes serviam nos templos apenas alguns meses do ano, sendo para eles uma função mais honorífica do que permanente, assim se explica a multitude de títulos aparentemente religiosos encontrados em quase todos os ataúdes de pessoas de melhores posses daquele tempo. Ser sacerdote não implicava exatamente em estar ligado ao culto religioso, ou ser pessoa de melhor visão espiritual ou pia, muitos administradores de vida mundana eram igualmente chamados de " pai do deus", ou sacerdotes burocráticos ou administrativos.


O título de "cantora do templo" era restrito às mulheres das classes superiores, o estudo desta função sacerdotal mostra-nos que várias gerações de mulheres detiveram este título,  muito provavelmente com as mães ensinando a função religiosa para as filhas. Imagino que cantassem nas cerimônias religiosas e festas, talvez à capela, ou num coro, quem sabe acompanhada de sistros ou harpa, como vemos nas representações antigas imortalizadas nas paredes dos templos. Era uma atividade litúrgica muito honrosa, essas mulheres bem nascidas em castas sacerdotais, foram muito respeitadas na sociedade egípcia antiga.  
  
Acima a sala de exposição do esquife  de Sha-Amen-en-Shu.
Atualmente esta sala mostra-se muito escura, a forte
iluminação anterior, e as décadas de muito
descaso, afetaram as cores de muitas
peças, agora reina uma profunda
penumbra na exposição.

As fotos que consegui obter, lutando
contra o reflexo nas vitrines,
mostram-se escuras e sem
foco em função desta
dificuldade.


Outras múmias presenteadas
 ao Imperador D. Pedro II:

Múmias Indígenas Brasileiras
no Museu do Imperador e a 
Arqueologia Imperial:


Provável localização do "Museu do Imperador",
visto da fachada traseira do paço imperial.

Localização original do "Museu do Imperador", no  pavimento térreo do Paço
 de São Cristóvão, ali estava alocada a coleção privada de peças
 arqueológicas de Pedro II, pertencentes à atual coleção
 do Museu Nacional da UFRJ.

Havia múmias brasileiras neste acervo
privado de Pedro II , e cabe
comentá-las para bem
mostrar o interesse
do monarca.

Em 1871, os imperantes visitaram
pela primeira vez a Terra dos
Faraós, e lá tiveram maior
contato com as famosas
múmias egípicias.

Vamos então conhecer as três
  múmias arqueológicas
 brasileiras.


Comendador Mariano Procópio, um
empresário e grande amigo de
D. Pedro II, abriu a estrada
que ligava o Rio a
Juiz de Fora.

Os privilegiados visitantes do Paço de S. Cristóvão que ganhavam acesso ao museu particular de Pedro II, desfrutavam não só a riqueza dos mais de 600 objetos catalogados, mas também as surpreendentes histórias que havia por trás de cada aquisição. Peças intrigantes, por exemplo, eram as múmias indígenas encontradas numa caverna, na fazenda de D. Maria José de Santana, então na região de Goianá, e doadas por ela ao imperador durante uma de suas viagens a Minas Gerais.
 

 " Alguns caçadores encontraram na Serra da Babilônia, localizada na Fazenda da Fortaleza de Sant'Anna, então pertencente à progenitora do Comendador Mariano Procópio Ferreira Laje, duas cavernas (Caverna do Índio I e II) com 03 corpos mumificados naturalmente e 03 restos esqueletais. Segundo relato do Professor Sebastião Delvaux Tostes, publicado no "Anuário da Gazeta" (12/1951) o conjunto foi analisado pelo naturalista Dr. Basílio Furtado e remetido ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro, onde se encontra em exposição permanente."

A melhor fonte de informações sobre o achado está no relatório escrito por Frederick Hartt, em 1875, logo após novas escavações serem solicitadas pelo Museu Real à segunda equipe técnica, em 1874, foi na primeira empreitada de pesquisa e escavações em 1871  que foram encontradas as múmias,  juntamente com urnas e ossos, principalmente de crianças, dispostos mais superficialmente. O conjunto de restos humanos atualmente em exposição, encontrado na gruta de menor porte, próxima à Pedra dos Índios, no já citado chapadão , mostrava-se composto por uma mulher adulta, de aproximadamente 25 anos de idade, e duas crianças, uma na altura de seus pés, envolvida em um entrelaçado de folhas, e outra atrás de sua cabeça. Há indicações de que havia um quarto corpo, provavelmente semi-mumificado, também de posse do museu, mas este teria se deteriorado ao ser abrigado no acervo. Dizem que para retribuir o privilégio de explorar local tão singular e especial, o científico  monarca, certamente computando o grande valor arqueológico de múmias ancestrais num país sem história antiga, agraciou  a cafeicultora D. Maria com o título de Baronesa de Sant'ana. Contudo, talvez não seja verdade, posto que o título é de 1861, época da primeira visita do imperador, e somente em cerca de 1871 o Museu Real enviou a primeira equipe técnica e científica para investigar o cemitério indígena, encontrando as múmias. Nesta época a matriarca dos Ferreira Lage já havia falecido, em 1870. Pedro II se hospedou na residência da família em sua viagem de 1861 a Juiz de Fora, ele costumava conceder  títulos a quem bem o recebia, o título foi concedido neste mesmo ano.

Imperador, filhas e a imperatriz visitando uma
propriedade de Mariano Procópio
em 1861, tinham muito boas
 relações pessoais.

Talvez o achado arqueológico já fosse do conhecimento de alguns, sendo portanto mais antigo, quando fizeram os primeiros registros do local, a caverna  já mostrava-se amplamente vasculhada por curiosos locais. Prefiro entender que o título nobiliárquico fosse em função do grande prestígio da família, e pelo fato da agraciada ser mãe de Mariano Procópio, grande amigo pessoal de Pedro II e da Família Imperial. Ele, por conhecer bem o perfil de Pedro II, logo percebeu que o monarca adoraria a excitação do presente arqueológico genuinamente brasileiro, acredito nesta versão, parece muito mais lógica. A primeira expedição científica ao sítio, datada de 1871, ano em que o imperador fez sua primeira viagem internacional, teve a sua frente Manoel Basílio Furtado, este proto-arqueólogo brasileiro já tinha experiência de trabalho em outro sítio arqueológico indígena em Castelo-ES, numa caverna nas nascentes do Rio Itapemirim. Ele localizou vários enterramentos superficiais, as múmias foram conservadas naturalmente por estarem pouco mais enterradas no solo de dentro da gruta, provavelmente bastante mineralizado e a salvo de umidade excessiva.

Segunda visita de PII a Mariano Procópio, em 1869, já com
 as filhas casadas. O imperador, acompanhado dos genros,
faz, na foto, um passeio no Rio Paraíbuna.

Contudo Mariano Procópio faleceu logo em seguida, em 1872, e provavelmente a doação das peças arqueológicas devem ter sido feitas posteriormente em menção honrosa à família. A comissão técnica fez a remoção das múmias para o Rio se Janeiro, sendo então abrigada no Museu do Imperador, e publicaram significativo artigo sobre o assunto em 1875. Na década de 1980, as cavernas foram motivo de contemporâneos e sistemáticos estudos arqueológicos, mais aprofundados e técnicos, contudo, o sítio mostrou-se infelizmente já completamente esgotado, encontraram apenas restos ósseos de animais de hábito cavernais.


 
  Croquis de localização dos enterramentos 
indígenas encontrados na escavações de
Manoel Basílio Furtado, em 1871.

Na primeira incursão exploratória feita por técnicos vindos da capital imperial, em 1871, as grutas já não se encontravam intactas, pelo contrário, mostravam signos de pesquisas de interessados amadores. As escavações encontraram no estrato mais superficial 5 urnas de cerâmica , todas com restos mortais de crianças; 4 cestos de fibra vegetal, 2 redes, dois bornais de caça, e corpos protegidos por folhas de palmeiras amarradas em leque. Cavando um pouco mais profundamente localizaram, enterrados, os 3 ou 4 corpos mumificados, inclusos as múmias aqui em questão. Totalizaram descobertos na caverna cemitério, 14 indivíduos, sendo 10 crianças.  No segundo ciclo de escavações do Museu Real, em 1875, resolveram retirar toda a terra que havia dentro da gruta, com 20 escravos e em dois dias.  Realizaram uma operação de remoção total dos sedimentos, expondo o leito pétreo assim se destruiu para sempre outras possíveis evidências arqueológicas. Encontraram apenas mais um esqueleto de criança dentro de uma urna de cerâmica, mostrando que o sítio já estava praticamente esgotado. Acredita-se que os restos dos artefatos indígenas anteriormente encontrados, possam ter sido enviados para coleções arqueológicas no exterior, posto que desde então desapareceram.

 A múmia indígena feminina acima é a que aqui está em foco,
 é natural, uma singularidade. O clima úmido e o solo
ácido do Brasil não colaboram, este processo
mumificante então raramente ocorre.

O conjunto encontrado enterrado na caverna, formado pelo índia
 naturalmente mumificada e seu provável rebento, foi acrescido
 dos restos de mais uma criança, para compor uma peça de
 exposição museológica mais interessante.

Quando este conjunto mumificado foi doado ao
acervo do imperador,  ficaram sob a guarda do
 Museu Real os outros 11 restos esqueletais
recolhidos da mesma caverna em questão.
Os restos naturalmente mumificados,
estavam enterrados no solo dentro
 da gruta, os outros esqueletos
estavam à flor da terra.

Este detalhe explica a
mumificação
natural.

Detalhes sobre os corpos mumificados da mulher indígena e do recém-nascido expostos no Museu Nacional: ambos os corpos estavam embrulhados na mesma rede; o recém-nascido foi encontrado ao lado esquerdo do corpo da mulher embrulhado em uma trouxa de tecido vegetal que estava amarrado com uma corda que passava pelos dedos da mão direita da mulher. No braço esquerdo da criança havia um tipo de faixa e numa das pernas há um cordão feito com seções bastante largas de um osso oco.Sob o pacote formado pelos dois corpos, foram depositadas lado a lado algumas lascas largas de casca de árvore e um cesto emborcado, cheio de pequenos feixes de palha de palmeira, cada um com um nó. Sobre este foram depositadas lado a lado lascas de casca de árvore, como aquelas embaixo dos corpos, estando o conjunto coberto por terra. No mesmo sepulcro foi encontrado um bornal ( mochila com alça) semelhante àquele já descrito, mas em mau estado de conservação. Sobre os restos da outra criança pequena: enterrados a pouca profundidade embrulhado em faixas de tecido vegetal, recoberto por fora com palha de palmeira frouxa amarrada em alguns pequenos feixes como aqueles encontrados nos cestos e no bornal. O corpo estava depositado sobre uma pedra plana e sobre ele estavam lado a lado quatro pedaços de casca de árvore

O Chapadão da Serra da Babilônia mineira, atualmente situada no vizinho município Goianá, antes fazia parte de Rio Novo, na trilha da passagem para a famosa região da Serra da Canastra,  está ainda bem próxima à cidade de Juiz de Fora. O clima seco e serrano do lugar, explica este achado raro no Brasil de corpos mumificados pertencentes a indígenas certamente pré-cabralinos. A mulher, de 1,48 metro de altura, deve ter morrido há cerca de 600 anos, de acordo com datação de Carbono14,  portanto um pouco antes da chegada dos europeus. Os bebês tinham de um mês a um ano de vida. Embora seus corpos tenham sido encontrados juntos, na mesma caverna com restos de outros indivíduos, não é possível afirmar peremptoriamente que sejam mãe e filhos. Seus corpos foram amarrados junto a ossos, bolsas trançadas em fibras, rede de dormir, uma conta grossa e uma cruz de fios. Estes objetos, e especialmente o padrão das cordoagem e tecidos, além do histórico de povoamento do local dos achados, indicam que a origem do cemitério estaria no grupo indígena Botocudo, provavelmente em etnias Maxakali, Kanacam ou Makuni. A caverna certamente foi usada apenas e de modo contumaz como cemitério, não havia restos arqueológicos, vestígios de fogueiras antigas ou grafitos que indicassem outro uso.


"Está tudo tão distante
 que às vezes penso 
que nem 
existo."
  
Leminski




A Exposição de Antiguidades
 Egípcias no Museu Nacional:




O Egito no Brasil Império.
Marco Aurélio
Neves Jr.

video


 Sobre a Coleção Egiptológica 
do Museu Nacional - UFRJ.








Conheça o Museu Nacional.




 
 O escaravelho alado com rosto de carneiro
é um dos ícones decorativos dos ataúdes
 da XXI ª Dinastia, os mais belos e
 elaborados caixões funerários
da  arte egípcia.

O magnífico esquife externo de madeira do sacerdote Hori, o interno perdeu-se e não chegou ao Brasil, apresenta as mãos fechadas, além deste também ostenta outros detalhes típicos dos primórdios da XXIª-Dinastia: lindamente estucado e pintado (acima), tanto a tampa como a cuba impressionam pela riqueza de detalhes. Seria uma peça arqueológica muito mais interessante e preciosa que o esquife que contém a múmia presenteada pelo Khediva, tem cerca de 30 séculos de idade e é de manufatura mais refinada,  todavia perde no conjunto geral posto que apresenta  danos consideráveis na cuba, também o ataúde  interno e a múmia original estão aparentemente perdidos.


Diante da deusa Ísis, manifestada na árvore sicômoro, o
falecido Hori , finamente vestido e acompanhado
de sua alma Bá, qual um pássaro místico,
dispõe oferendas aos pés da figueira,
em busca de renovação
ou renascimento .

Alguns estudiosos entendem que originalmente, no momento da aquisição da coleção por D. Pedro I, no  interior deste refinado esquife repousava uma múmia intrusa, provavelmente pertencente a um outro período histórico bem mais posterior, contudo  falta certeza absoluta sobre este fato. Não há concordância plena sobre a pertinência entre a múmia e o esquife em questão, podem ser peças rearranjadas pelo vendedor, como também é caso da múmia romana dita "Kherima" no caixão do sacerdote Pestjef. Os rearranjos foram configurados visando a formação de  peças arqueológica mais completas e  comercialmente muito mais impressionantes  e valiosas.

 

Apresentando um embalsamento muito aquém do esperado para o ocupante de um esquife tão bem elaborado, a mumificação do cadáver  acondicionado  neste esquife de pronto mostrava-se claramente  pouco cabível para um sacerdote de alto rank, um supervisor do harém do deus Amon, como foi o prestigiado Hori. Também o ataúde interno não acompanhava o conjunto, provavelmente tenha sido saqueado em tempos muito antigos, destruído talvez, levando consigo a múmia original de Hori.


A também magnífica cuba do esquife de Hori não foi encontrada em tão bom estado de
conservação, a tampa está praticamente intacta. Peça pintada com muito requinte,
teve que receber grandes extensões de massiva parafina restauradora branca
 para encobrir as diversa partes faltantes e assim tentar cessar a
deterioração dos séculos. Pelo estado da cuba é
provável que a umidade deva ter destruído
o restante do conjunto original de dois
esquifes, estando o menor contido
no externo de  maior dimensão.

"Nesse aspecto, a visão da imortalidade que perpassa nos enterramentos da XXIª Dinastia é verdadeiramente congruente com o exercício profissional destes homens e destas mulheres que partiam para o Além investidos essencialmente de uma dignidade sacerdotal e eram essencialmente munidos de conhecimento (expresso na abundante iconografia que os rodeava) que aspiravam à imortalidade." Do egiptólogo Rogério de Sousa


Reparem que a cuba de Hori não foi concebida como antropomórfica,
posto que apenas a tampa do esquife apresenta-se assim.
Trata-se de típico aspecto do estilo fúnebre desta
 época, como observa-se no exemplo acima.
 
As mãos abertas mostram que o exemplo
acima é de um ataúde dos fins
da XXIª Dinastia, os do
início, têm mãos
fechadas.

 A tampa de Hori, com seus escaravelhos alados com cabeça de carneiro, 
suas mãos fechadas, seu negro e texturizado nemes núbio, com uma
   faixa de fixação e seus tons amarelados de verniz, são típicos
dos  primórdios da XXIª-Dinastia, época do Pontificado
  dos Sarcedotes de Amon em Tebas.

Quem sabe a singular estatueta de Menkheperre,
comentada já no fim dessa postagem,
seja proveniente desta tumba ?



Na ilustração acima vemos Hori diante de Osiris, fazendo oferendas; a pesagem do
 coração é bem sucedida e Toth,, com cabeça de íbís, apresenta a Osíris,
 sentado em seu trono de deus do outro mundo, o resultado
 do julgamento da alma de Hori. Assim  ele também
 mostra-se como um "Hori Osíris" já
justificado de voz.



 
 
Aspectos da pintura interna
da cuba de Hori.

O estilo e a super decoração dos esquifes dessa
 época sintetizam as mudanças nos ritos
mortuários, os esquifes passaram a 
trazer em si toda a necessária
iconografia funerária que
antes ficava nas paredes
da tumba, eram 
mini tumbas
móveis.

Onde fosse o ataúde, iriam também
as preces e imagens clássicas
da decoração e assim
ficava muito mais
fácil a vida
 no além.

Surgem então tumbas coletivas, não definitivas,
que passaram a abrigar vários enterros
de caixões muito decorados e 
múmias sem qualquer 
outra riqueza ou
preciosidade.

Queriam assim livrar os 
mortos do eterno
 saque dos 
vivos.



 O tocado texturizado negro - nemes -  muito bem esculpido,
 é pouco visto nos ataúdes dessa época, o restante da
decoração do esquife, inclusive o seu verniz
amarelado, é bem típico e muito comum
em outros exemplares semelhantes
em museus europeus.

Se o ataúde é bem típico, a múmia
que estaria nele originalmente
abrigada também deveria
sê-lo, mas deve ter
sido perdida.

 
Acima, outros exemplos em museus estrangeiros, estes esquifes
da XXIª- Dinastia,  apresentam um estilo bem  mais
peculiar ao meio e ao final dessa dinastia.

O esquife da Alta Sacerdotisa Maat-Ka-Re é
considerado como o melhor exemplar
desta tendência estilística dos
primódios da 21ª Dinastia,
do Museu do Cairo

 Apesentando detalhes em ouro e muito melhor manufatura,
trata-se de um esquife da realeza sacerdotal que
dominava o Egito merdional na época, mas
é significativo para uma comparação
 com o ataúde Hori, posto que
 são quase contemporâneos.



Nos esquifes da XXIª Dinastia, além do tradicional
 escaravelho alado com face de carneiro, aparece
mais abaixo, na altura do abdômen, a deusa
Ísis alada, protegendo a múmia , o esquife
de Hori também ostenta esta mesma
simbologia funerária antiga.
 
 
 Ataúde em museu norte-americano, de decoração muito
semelhante e provavelmente contemporâneo
ao de Hori, os detalhes cênicos da
 cuba são recorrentes e repetem
os mesmos cânones
 funerários.

O fundo da cuba de Hori traz a típica
representação da deusa Ísis, como
também aparece no exemplo
comparativo mostrado
acima, que é bem 
semelhante.


Na XXIª Dinastia os ornamentados esquifes apresentavam apenas 
a tampa mumiforme, a cuba não era mais que uma caixão 
padrão adaptado para receber a sinuosa tampa , só 
mais tarde apareceriam os ataúdes 
antropomórficos.


O esquife de Hori é o que chamamos de externo,  conforme o modelo acima exposto,
continha originalmente um outro menor, e dentro deste estaria abrigada a múmia
 do sacerdote, que neste caso desapareceu. Reparem como a cuba interna deste 
exemplo acima se parece com a cuba do esquife de Pestjef, quase igual.
Apenas a múmia acima é da XXIª Dinastias, os esquifes são bem
posteriores, sendo tão somente uma montagem didática
em museu estrangeiro, às vezes fazem isto, juntando
peças  diferentes soltas e  criando assim um
conjunto mais vistoso e interessante.
A múmia dita  "Kherima" ostentou
por décadas uma máscara que
não lhe pertencia de fato,
veja mais abaixo.



 O ataúde externo de Hori - XXIª Dinastia - é uma
 das peças importantes e mais significativas da
coleção de antiguidades egípcias adquirida
 por Pedro I em 1827.

Soberbo de acabamento,
decoração e porte.

Para quem desejar aprofundar-se nos ritos funerários 
desta interessante época, recomendamos o estudo 
desta grandiosa tumba, lotada com esquifes
 de 153 sacerdotes, os trabalhos abaixo
 são de especialistas neste tema:

The Bab  El-Gusus Tomb
and the Royal Cache
in Deir El-Baḥri.
Andrzej Niwińsk


O Portal dos Sacertodes 
Bab El-Gusus
 
Rogério Sousa

click
to access


 A múmia dita "de Hori", posto que chegou ao Brasil acondicionada nesse esquife,
   apresenta enfaixamento e conformação característicos de período posterior;
  atualmente está exposta, depois de muitas décadas na reserva técnica.
Pronuncia-se "Rhóri" e não "Óri", o "H" é aspirado
 como em tantos outros idiomas

Acima uma foto do Séc. XIX mostrando uma múmia da XXIª Dinastia
curiosamente envolvida por esteiras; de tudo que pude pesquisar é
o exemplar que guarda mais semelhança com a múmia dita
"de Hóri", sem as atípicas esteiras obviamente.


Rogério de Sousa, eminente egiptólogo português, nos instrui bastante em seu trabalho sobre a imensa e intacta tumba dos sacerdotes da XXIª Dinastia, conhecida como Bab el-Gusus, lotada com 153 enterramentos quase contemporâneos ao de Hori. Com a descoberta foram revelados à Egiptolgia: 101 conjuntos de ataúdes antropomórficos duplos e 52 ataúdes antropomórficos simples, além de inúmeras múmias. A grande maioria destas peças era provavelmente muito mais recentes que os restos do esquife de Hori, aqui considerado.

  
Múmia de Sacerdote do Bab el-Gusus.

Contudo,  no conjunto ainda havia algumas múmias do tempo do pontificado de Menkheperre, certamente contemporâneas ao esquife abrigado no Museu Nacional. Portanto, o estudo deste grande acervo clerical da XXIª  Dinastia nos conscientiza definitivamente  de como se caracterizavam as múmias dos sacerdotes tebanos deste período aqui considerado: "Quando desprovidas das suas faixas, cerca de 46 múmias revelaram um rolo de papiro (uma versão do «Livro dos Mortos», ou do Livro de Amduat), normalmente colocado entre as pernas. No entanto, em alguns casos o papiro foi dobrado e colocado sobre as ancas, o ventre, o abdómen (em contacto com a incisão da evisceração) ou sobre o tórax. O equipamento mágico das múmias é bastante variável. Na sua versão mais simplificada, a múmia estava equipada apenas com uma plaquinha de cera gravada com o olho udjat que protegia a incisão do eviscerador situada no flanco esquerdo do abdómen.  Para além deste amuleto, que é o mais comum entre as múmias de Bab el-Gassus, é também muito frequente o uso do escaravelho do coração e do falcão (normalmente representado sobre uma placa metálica), com as asas abertas sobre a múmia. 
 
 
 Padrão de mumificação sacerdotal
da XXIª Dinastia.

Dentro do cadáver é também frequente a deposição de quatro estatuetas de cera, normalmente alusivas aos quatro filhos de Hórus. Naturalmente, a conjungação destes objectos na mesma múmia é também muito frequente, pelo que podem os ter como um equipamento padrão  seguinte conjunto de amuletos: plaquinha de cera (incisa com olho udjat), o escaravelho do coração, um falcão alado e, no interior do corpo, quatro estatuetas funerárias. Mais raramente, provavelmente conotados com um estatuto social superior, podem também ser  encontrados sobre o cadáver objectos «luxuosos» como amuletos cordiformes, serpentes sagradas depositadas sobre a fronte da múmia e peças de joalharia diversa como colares, pulseiras (normalmente colocadas sobre o pulso esquerdo), anéis  e brincos. Pequenas colecções de amuletos podem por vezes figurar em torno do pescoço." A múmia dita "de Hori " não se enquadra facilmente nestes principais caracteres técnicos de identificação , então, muito provavelmente, deve ser uma peça intrusiva.

Há pouco mais de duas décadas atrás, uma goteira de água
da chuva quase corrompeu esta múmia , naquele tempo
ainda abrigada na reserva técnica. Foi preciso
secá-la rapidamente com potentes secadores
 de ar quente; salvou-se, e agora  está
exposta junto às outras.

Provavelmente pertença ao tardio período romano,
talvez ao ptolomáico, pouco mais antigo, esta
é a opinião mais difundida entre alguns
que conhecem bem a coleção.

No máximo seria da XXVIª Dinastia,
talvez,  neste caso,
seja a múmia de
Pestjef.

É uma múmia rude de
 se ver, a qualidade
 do acabamento
 é inferior.

 

Acima exemplos em outros museus: múmias de criança e adultos,
 todas do Período Greco-Romano, o enfaixamento circular
é bem marcado, e muito mais próximo daquele visto
na múmia dita "de Hori".

 A expressiva máscara ptolomáica exposta,
 parece ser do mesmo período desta múmia,
reparem  na similaridade com a foto da
múmia da criança  e outras acima.

Túmulo com muitas múmias
do Período Romano.

Ainda hoje encontram-se de quando em vez,
grandes cemitérios cheios de múmias
deste período , são muito mais
comuns que as XXIª
 Dinastia.

Os exemplares abaixo demonstram
o estilo muito mais elaborado do
acabamento dos sacerdotes
 da XXIª Dinastia.




 Acima exemplos de múmias de sacerdotes contemporâneas à XXIª Dinastia,
 indicando-nos o provável aspecto original da múmia de Hori. Tem-se
 assim uma boa ideia do acabamento e do estilo funerário antigos
 originalmente esperados para uma múmia de status
 sarcedotal  semelhante, neste mesmo período.


Este exemplar da XXIª Dinastia é uma sacerdotisa,
mostrando a repetição do padrão descrito.

A XXIª Dinastia é considerada como sendo o auge
do refinamento funerário em esquifes e também
 no embalsamamento, não há na História
Egípcia outro período comparável e
com tantos bons exemplares de
 múmias em acervo, por
isto, bem estudados.




A múmia de Hori deveria ser semelhante
às das ilustrações acima, com linho
fino e enfaixamento firme
e bem mais denso.

Provavelmente uma múmia qualquer tenha
 sido introduzida neste ataúde já no
Séc.XIX, para compor e
assim atingir melhor
preço de venda

Não é o esperável para o corpo embalsamado
de um sacerdote de alto rank, seu aspecto
 é muito rude para ser aceito como o 
original proprietário do faustoso
 esquife da XXIª Dinastia.

Vejam abaixo a múmia de Horsiese.
 como foi muito melhor
 elaborada.

Fica a dúvida !


Múmia de criança  em exposição,
provavelmente da Baixa Época.

Friso de cobras ( Ureaus ) em madeira pintada.
Certamente proveniente de uma tumba da
realeza tebana. Seria mais uma
peça encontrada por Belzoni
 na tumba de Seti I ?

Máscara com acabamento em ouro, um fino pente,
bela peça, e um cordão com um escaravelho
 alado em cerâmica vitrificada azul.


Esquife de gato.

Esquife pequeno.

Pé leonino de uma
 trabalhada cadeira


Múmias de filhotes de crocodilos.

Modelos de silhueta de deuses.


Fragmento de esquife - Deus Toth


 Coleção de Shabtis do Museu do Cairo, todos da 21ª Dinastia,
vitrificados em faiança azul, eram acondicionados em
caixas feitas especialmente para bem guardá-los


Coleção de Shabtis do Museu Nacional
  e um esquife pequeno.




O museu carioca apresenta grande e variada
 coleção de Shabits.


Exemplar de madeira proveniente
da Tumba de  Seti I no Vale
 dos  Reis em Luxor.


 
 Acima os outros três shabtis inscritos para
este mesmo grande faraó na coleção
 do Museu Nacional
UFRJ.

Existem ainda mais três outras estatuetas shabtis,
 sem inscrições, mas que provavelmente, pelos
 traços estilísticos apresentados, devam
também pertencer ao espólio da
tumba deste famoso faraó.

As estatuetas de Seti I (Nº 1, 2, 3, 4 do Catálogo do Museu) apresentam uma especial variação da palavra shabti, do Novo Império, singularmente encontrada nos servidores funerários de madeira produzidos para este faraó , a inscrição encontrada é composta de  uma inversão  de fonemas  e um determinativo mumiforme no final, sem a presença do plural. Tradução do tradicional texto nas estatuetas: Iluminado Osíris, rei do Alto Egito e (Baixo Egito), Men-maat-Rê, justo de voz, ele diz: Ó este shabti; se for chamado, se for contado, Osíris, (filho de) Rê, Seti, amado de Ptah, justo de voz, para fazer todos os trabalhos;) fazer no Domínio do deus (necrópole), enquanto obrigação como um homem em sua tarefa; quando vós fordes chamados, a qualquer momento, lá; para irrigar as terras ribeirinhas, para cultivar os campos, para transportar areia; de leste para oeste e vice-versa, “aqui estou”; vós direis.

XIXª Dinastia Bakenmut e
outro não identificado.

 Shabtis da XXIª Dinastia: Haremakhbit
Sacerdote Divino do templo de Amon

Vasos de pedra e ornamentos em faiança azul.

Bronzes da Baixa Época: Osíris, Ísis, Hórus
 e também o esquisito anão Bes. Vemos à
direita, na prateleira de baixo, uma
interessante estatueta de
uma refinada dama.

A rara estatueta fragmentária da coleção carioca mostra
 detalhe estético comumente representado apenas em
pinturas: um exótico e fragante cone de gordura
animal ou cera de abelhas, o qual as damas da
 elite equilibravam no topo da cabeça.

 Perfumava, aos poucos, as imensas
 perucas artificiais tecidas,
usadas pelas cortesãs
 egípcias antigas.

 Uma estranha moda antiga, caracteristicamente
 egípcia, que esteve muito em voga nos
refinados tempos raméssidas das
 XIXª e XXª Dinastias.


A coleção do Museu Nacional também
possui relevantes múmias de  gatos.


 Cabeças mumificadas e "travesseiro" para pescoço;
a primeira à esq. , é a mesma apresentada
na foto detalhe abaixo.

 

Cabeça mumificada, mostra um embalsamento mais 
elaborado, lembra a cabeça da múmia de Seti I,
provavelmente seja um fragmento de uma
múmia saíta, época em que o
betume foi mais utilizado
na mumificação.

 Contudo, poderia ser, ou não, o que tenha
 sobrado da múmia original do sacerdote
 Hori da XXIª Dinastia.



Faraó Seti I - XIX Dinastia: uma "linda" múmia,
 famosa pelo ótimo estado de conservação,
e também pelo embalsamamento
cuidadoso e superior.


Das Necrópoles Egípcias para a Quinta da Boa Vista:
Um Estudo das Partes de Múmias 
do Museu Nacional.

de Moacir Elias Santos
 
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Um olhar sobre Kherima: uma misteriosa
figura feminina do Antigo Egito
abrigada no Rio de Janeiro.


 Acima, a  já citada rara múmia do período de dominação romana no Egito, 
 notória  por  ter braços e pernas enfaixadas em separado do corpo.
A peça também tem um passado de manifestações paranormais,
eu mesmo presenciei um desses incidentes espirituais
quando tinha 14 anos , numa visita ao museu.

A múmia da época romana não trouxe qualquer  identificação, mas é conhecida
 como "Kherima",  devido a um histórico paranormal correlato.
Deve ter cerca de 23 séculos de idade.

Num dos dois esquife saítas da XXVI-Dinastia pertencentes à coleção, o de Pestjef, repousava uma múmia singular, também introduzida em tempos modernos, provavelmente durante a circunstância da montagem da coleção para venda por Fiengo. Mostrava ser um raro tipo de múmia egípcia, pertencente ao  período romano muito tardio, provavelmente do Séc. I ou II, e apresentando o singular aspecto dos membros enfaixados em separado do corpo. Este tipo de enfaixamento apresentado é absolutamente contracultural, uma vez que de modo tradicional, as múmias eram configuradas formando um massivo corpo cilíndrico, do qual não se distinguia bem a silhueta humana, às vezes nem o pescoço da cabeça. A tomografia da múmia revelou traços e conformações físicas diferentes das características corriqueiras do povo egípcio antigo, talvez fosse estrangeira.
 

A múmia de Kherima está suave e perfeitamente enfaixada, com relativamente pouco linho, sendo este de alta qualidade, exibindo assim uma silhueta deliberadamente definida. Contrasta fortemente com outras múmias do período romano, mal acabadas num enfaixamento por vezes trançado, esta múmia do Museu Nacional foi decorada de uma forma especial. Mostra inclusive atípicos detalhes pintados acrescidos ao tórax e à região pubiana, uma evidentemente uma sinalização esotérica, portadora de um significado peculiar e desconhecido. De acordo com especialistas do Museu Britânico, este estilo singular de enfaixamento, com membros em separado, bem poderia ser um revival bem tardio do estilo das pioneiras múmias embalsamadas com cerimonial funerário mais elaborado, no Antigo Império, mais precisamente na remota Era das Pirâmides
 

Naquela época o embalsamamento dos cadáveres era ainda muito primitivo, menos de dez exemplares de múmias do Antigo Império sobreviveram até nós, todas mal conservadas. Fica então a dúvida sobre o estilo e a origem exata dessa interessante múmia, muito provavelmente seja tebana, todavia não há engano em considerá-la como peça arqueológica extremamente relevante.



Mais acima, na nova câmara de atmosfera controlada,
e quando ainda jazia "montada para exibição"
 na cuba de Pestjef e usando uma máscara
 que nunca lhe pertenceu; chegou ao
Brasil num esquife que não era o
original do seu funeral,
 a máscara foi lhe
posta no rosto
no museu.


Durante décadas a múmia de "Kherima" ficou 
exposta ostentando uma máscara ptolomáica
bem mais antiga e que estranhamente cabia
muito bem por sobre sua face, além do
 ataúde, também a máscara dava-lhe
um aspecto bem descaracterizado,
embora para o visitante leigo
formasse bom conjunto.

"Kherima chegou ao Brasil em 1824, dentro de um caixote de madeira. Era o item mais valioso da coleção de antiguidades que Nicolau Fiengo trazia da Europa. Não se sabe a nacionalidade de Fiengo — seria italiano ou francês —, tampouco o destino de suas peças. Acredita-se que os artigos iriam para Buenos Aires. O criador da universidade local era um entusiasta de museus e relíquias. Fiengo, no entanto, teria desistido da viagem, devido a confrontos políticos ou a uma epidemia de febre amarela na capital portenha."


Os delicados pés expostos da múmia
Kherima são muito impressivos.

Que bom poder mostrá-la assim tão
 fartamente,  à vista estão expostos
 todos os  detalhes mais 
significativos .


"Vice-diretora de Pesquisa e Desenvolvimento Tecnológico da Escola Nacional de Saúde Pública, Sheila acompanhou a tomografia de Kherima. Segundo a pesquisa, a suposta princesa egípcia teria entre 18 e 20 anos e cabelos curtos e escuros, diferentes dos egípcios. Seu crânio é semelhante aos dos mediterrâneos, e não aos dos africanos. O cérebro e as vísceras foram retirados durante a mumificação. Os dentes, no entanto, foram preservados. Não havia sinal de doenças. Vimos materiais que envolviam o corpo, dando volume às mamas, quadril e abdômen, reforçando o contorno feminino da múmia — destaca Sheila. — As unhas estavam pintadas e é fácil identificar seus mamilos. Ela, assim como outros membros de sua tumba, tem fraturas nos braços, um processo que deve ter ocorrido durante a preparação do corpo. Os pés foram danificados décadas atrás, quando a peça já estava no museu."


Esta  múmia acima disposta, no Museu Britânico deste 1820, talvez tenha sido embalsamada
pela  mesma equipe que elaborou a múmia de "Kherima", são extremamente semelhantes,
de Tebas, e talvez sejam do mesmo túmulo e da mesma família. Aprofundando-se
 nesta convergência, talvez sejam ambas das escavações de Belzoni, que
 abasteceu nesta mesma época a Coleção Henry Salt, depois adquirida
 pelo Museu Britânico. Ao que tudo indica, tem origem
 semelhante a da coleção brasileira, veja mais
acima o comentário sobre  o "Belgozi " de
 que falava Fiengo. Também os shabtis
  de Seti I são  outra evidência de que
 estas duas múmias podem ser 
próximas e oriundas das
escavações de Belzoni.

A formatação muito semelhante, e também o concomitante 
surgimento de ambas as múmias no mercado de 
antiguidades no início do Séc. XIX, nos
sugerem que tenham origem
 comum  numa tumba
 familiar tebana.

Múmia muito similar a de "Kherima" em museu de 
Liverpool, ostenta interessantes  adereços

Trata-se inequivocamente de uma mumificação
 de ótimo padrão técnico, dispendiosa e de
 elite, o que agrega um singular valor
 histórico a estes raros 
exemplares.

Múmia no Museu Calvet em Aviñón,
o estilo é inconfundivelmente
o mesmo.

 Outra múmia similar a de Kherima no museu de Leiden: enfaixada
em mesmo estilo, é provavelmente mais um dos familiares da
 múmia do Rio. Devem ser todos esses provenientes
da mesma tumba tebana, são muito afins.

Outra múmia algo parecida, do mesmo período ptolomáico-romano,
 igualmente enfaixada com membros livres, no Museu Egípcio de
 Turim.Composto enquanto cadáver artístico, está imerso
em solenidade plena. encanta ao primeiro olhar.

 Múmia ptolomáica no Louvre, apresenta membros superiores livres, talvez também os inferiores
estejam enfaixados em separado embaixo do acabamento exterior protetivo, a máscara deste
exemplar francês lembra a  usada sobre a múmia de "Kherima" por tantas décadas.
O impressivo acabamento deste refinado estilo de  mumificação, nos remete
de imediato à lembrança da múmia no Museu Nacional-RJ. Embora
tenha outra concepção estética e seja superior em acabamento.
 
Este estilo de mumificação especial deve ser um tipo de tratamento funerário próprio de uma família ou de um serviço profissional  funerário  mais antigo e técnico. Verificamos então que só existem múmias exatamente similares em museus da Grã-Bretanha ( Liverpool e British Museum ), Leiden na Holanda, Avignon na França e em Munich, desconhecemos a existência de outros exemplos do estilo. Parecem então que as conhecidas são todas da mesma tumba familiar, teriam sido vendidas em separado, todas as conhecidas  foram adquiridas entre 1820-30, e um exemplar feminino remanesceu no Rio,  as múmias deste tipo, ou deste grupo de um túmulo familiar, não apresentam ataúde, é uma característica comum a todas elas acima.
 
 Nos anos 70, algumas pessoas entraram em transe mediúnico ao se aproximar
 de "Kherima", falavam em línguas estranhas, na gravação do discurso
então surgia um inesperado som de música ao fundo, música que
 não se ouvira na gravação. Ao assistir um transe, eu mesmo
 senti uma forte radiância vindo da vitrine com a médium
 próxima, foi como se houvesse um forte tambor que
 vibrasse sem som, talvez fosse meu coração de
 amante do Egito Antigo batendo
muito emocionado.

Talvez nem isto fosse !

Diziam que simplesmente
 tratava-se de hipnotismo
 induzido.


"O professor Victor Staviarski, membro da Sociedade de Amigos do Museu Nacional, começou a ministrar cursos de egiptologia e escrita hieroglífica na instituição.Staviarski recorria à hipnose e levava médiuns para as aulas. A ópera “Aida”, de Giuseppe Verdi, também contribuía para a criação de um ambiente místico. O professor também reforçou o corpo docente de um curso noturno de Ciências Herméticas — que, entre outras disciplinas, contava com Magia, Forças da Natureza e Astrologia Esotérica. No curso de História, Staviarski dava aulas no auditório, com mais de 100 pessoas, e promovia sessões especiais ao lado da múmia. Participei de uma delas em que o professor pôs uma máscara dourada na cabeça dela conta a arqueóloga Ângela Rabello, do Museu Nacional.Alguns alunos sentiram o odor de rosas, mas não foi o meu caso. Um senhor teve um transe durante a aula e se viu navegando em um barco egípcio junto à múmia. Em reportagens publicadas na década de 1960, Staviarski assegurou que mais de 100 pessoas entraram em transe em frente à "Kherima." Um grupo de alunos queixou-se com a coordenação do Museu Nacional devido à promoção de “experiências parapsicológicas relacionadas com a exposição de egiptologia "   

Do Jornal O Globo 


O evento que assisti foi protagonizado por Victor Staviarski e uma paranormal, como em vários outros casos similares ocorridos com esta múmia em especial, a senhora entrou em transe ao se aproximar do corpo, intuindo sobre o obscuro passado da jovem egípcia embalsamada. Em episódios anteriores, transes estabelecidos comunicaram que ela teria sido uma princesa virgem, de nome Kherima, e que teria sido assassinada a punhaladas por um apaixonado cortesão e  pretendente. Como a múmia não trazia qualquer identificação mais explícita sobre sua origem ou identidade, apenas o estilo do embalsamamento nos indica que é do período de dominação romana, passou então a ser apelidada de "Kherima", por falta de melhor epíteto.





 
Esquife de Horsiese: XXV-XXVI Dinastias,
típico do Período Saíta, também
conhecido como Baixa Época.
Cerca de 27 séculos de
idade estimada.


 Múmia de Horsiese sendo acondicionada em uma bolha plástica
 com atmosfera inerte, basicamente cheia de gás nitrogênio,
para que assim cessem os processos de decomposição
 biológicos e oxidativos.Os recursos, equipamentos
 e técnicos originaram-se de convênio
 com o Getty  Conservation
  Institute - California.




Esta múmia do Museu Nacional da UFRRJ , do dito
Período Tardio, foi  exposta ao público por décadas,
exibindo ao peito uma  considerável rede de contas
 azuis de faiança. A rede azul é típica das  múmias
deste período, contudo, continuou em uso
 funerário posteriormente e  talvez não
 pertença à múmia de Horsiese, apenas
 compunha mais um conjunto
 montado, como no caso
 da máscara dourada
de "Kherima".

A rede foi retirada de exposição e talvez como os
 outros ornamentos de faiança  azulada que estão 
dispostos nas vitrines, a tal rede seja
 do bem mais posterior período
 ptolomáico.


Acima, uma múmia, em museu estrangeiro, muito afim e provavelmente
contemporânea da múmia no museu do Rio; este exemplar apresenta
uma rede de contas azuis  inteira cobrindo o corpo, parece muito
 similar ao aspecto estilístico original da múmia de Horsiese,
 fiquei muito impressionado com a similaridade.



 
 





 
Acima ataúdes femininos, sem a barba postiça e com a característica tiara de asas
 de abutre no toucado, símbolo da maternidade e da deusa Mut, pertencem a
acervos estrangeiros; são similares em estilo ao clássico ataúde de Horsiese.
O estilo do o ataúde de Hor-Sa-Aset - Horsiese é comum e clássico para
 está época tardia, último lampejo do Egito Antigo soberano.


Acima e abaixo, múmias muito semelhante a de
 Horsiese, infelizmente não consegui uma
 boa foto antiga e sem a atual bolha
 de atmosfera inerte desta
 múmia exposta no Rio.

As características da mumificação de Horsiese,
são as típicas da sua época, e nos atesta que
esta múmia estava em seu ataúde
original, sendo este então
 um conjunto não
intrusivo.

Neste mesmo esquife saíta da coleção, o de Horsiese, repousava a múmia original deste sacerdote, caso único nas múmias de adultos da coleção. Foi por décadas uma múmia muito peculiar pelo pequeno fragmento de rede de contas azuis protegia-lhe o peito, o fragmento guarda proporção com um guardanapo grande, foi o que restou da grande peça protetiva original que cobria uma múmia, não sei se esta especificamente , ou se lhe adicionado para melhor compor conjunto. O ataúde do sacerdote é muito bem acabado , mas não tão raro, sendo muito típico de um período do qual se tem farto material em vários museus do mundo.

Acima dois exemplares de múmias semelhantes a de
 Horsiese, nos confirmando a semelhança
com o  aspecto clássico e original
desta época.

Creio que os dois dos esquifes aqui citados, o de Hori e o outro saíta pertencente a um certo Pestjef, devem ter sido encontrados vazios, e então múmias desprotegidas foram neles acondicionadas como intrusas. A função era vender as antiguidades, criando-se conjuntos esquife-múmia atrativos, porém canhestros, cuja a fraude só foi percebida mais recentemente e não na ocasião da aquisição por parte de D. Pedro I. Naquela época ninguém poderia perceber o arranjo artificial  feito pelos comerciantes.


 
Tampa do ataúde do sacerdote Pestjef - XXVI Dinastia/Período Saíta.
Este esquife chegou ao Brasil, talvez, abrigando intrusivamente
 a múmia romana "Kherima", esta apresenta os
 membros mumificados em enfaixamento
separado do corpo. 

 Típico esquife saíta de bom padrão,
atualmente é exposto vazio:
uma bela peça egípcia
 antiga.

Embora pertencente a um sacerdote,
não apresenta a típica barba
 divina que se atava
 ao queixo por
um cordão.

O símbolo Djed, uma coluna
colorida que representa
a estabilidade obtida
na munificação
do deus
Osíris

Deve ter 26 ou 27
séculos de
 idade.

Acima um conservado conjunto de esquife e múmia pertencente ao
Museu Britânico, peça da mesma época do enterramento
de Pestjef, assim podemos ter uma noção do
aspecto original da múmia perdida
deste sacerdote tebano.


A foto acima, de uma múmia contemporânea e em outro museu,
o esquife acima também exibe uma decoração similar
 ao que está exposto no  museu carioca.




Reparem, que como de costume nos antigos esquifes egípcios deste período,
a tampa e a cuba em nada combinam, parecendo mesmo peças
 de ataúdes completamente diferentes , acima vemos bem
 esta peculiaridade no esquife de Pestjef.
Só na cabeça há continuidade na
decoração do ataúde.




Fora da Coleção Egiptológica do Museu Nacional,
só há outra múmia egípcia em exibição pública
no país, está no Museu Rosacruz de Curitiba.
Vamos então apresentá-la neste ponto
para assim fechar o assunto
das múmias no Brasil.


Copos com sílica-gel ajudam na absorção da
 forte umidade dos ares curitibanos.

Cabe então fazer aqui um adendo para apresentar e dispor comentários e algumas informações sobre a múmia de "Thotmea", foi assim que a apelidaram.  Esta peça arqueológica chegou ao Brasil em 1995 como uma doação do Rosicrucian Egyptian Museum da Califórnia à Ordem Rosacruz no Brasil. O museu americano tem excelente acervo de antiquidades egípcias legítimas, já o museu brasileiro só expõe ótimas réplicas de antiguidades pertencentes a vários museus do mundo. Mesmo a cripta e o ataúde que abrigam "Thotmea" foram feitos, em grande parte, pelos artistas paranaenses Eduardo Vilela e Maurício Branco. A múmia em questão, única peça legítima em exposição, parece ser do período greco-romano, já escapou chamuscada de um incêndio nos EUA, e não apresenta qualquer inscrição ou amuletos, sendo portanto completamente anônima, logo sua história pregressa é desconhecida.  Chegou ao Paraná com os ossos da face  esmagados por algum impacto passado, porém ainda jazendo no interior do crânio.
 

Pelas características de mumificação, se estabeleceu, mais ou menos, seu período histórico de vida como sendo o da dominação romana no Egito, talvez seja contemporânea dos mesmos séculos que viram nascer o Cristianismo. Como chegou desprotegida, apenas com a "roupa do corpo" e já meio chamuscada, foi lhe dado, respeitosamente, um novo aparato funerário, com capela-tumba decorada e esquife, consoante à tradição antiga. Bem cabível o que foi feito, restaurando a dignidade perdida, agora repousa a longa noite de contar os anos na sua fé original.



Contabilizando então, são seis as múmias humanas egípcias completas expostas no Brasil: "Hori", Horsiese, "Kherima", Sha-Amen-en-Shu, "Criança Pequena" e "Thotmea", todas aqui mostradas. Existe ainda uma outra múmia de criança no Museu Nacional, depois de décadas exposta, agora encontra-se na reserva técnica, é a chamada "Criança Grande", total de sete múmias humanas inteiras. Também há outras tantas múmias de animais, além  de restos, ou partes, de múmias humanas no Museu Nacional no Rio de Janeiro.
 
A forte umidade curitibana é uma ameaça à conservação do corpo seco e salgado de "Tothmea", os copos plásticos cheios de sílica-gel, absorvem a umidade do ar e evitam o mofo e a decomposição do cadáver. Moacir Elias Santos, excepcional egiptólogo paranaense, especialista nos restos humanos mumificados do Museu Nacional - UFRJ, acompanha e estuda a múmia abrigada em Curitiba. Cabe ressaltar que ele montou e administra, na cidade de Ponta Grossa, um outro, e excelente museu didático de réplicas de antiguidades egípcias, o Museu Arqueológico Ciro Flamarion Cardoso -  click para acessar .



Voltamos então à Coleção Egípcia do Museu Nacional
para descrever outra importante e
 artística peça desse acervo:


 
Takushit = "Sudanesa".

Acima a famosa e rara estatueta em madeira gessada e dourada da Dama
 Takushit -XXII Dinastia- exposta no Museu Nacional no Rio de Janeiro.
Seu nome significa "mulher da terra do Kush", algo como kushita,
essa é  uma região do Sudão, fronteiriça ao sul do Egito,
 provavelmente seria uma princesa negra ou mulata.

A estatueta não ostenta qualquer inscrição,
é anônima, como se parece muito com
outra existente num museu de
Atenas, foi então associada
e indentificada.

Takushit teria sido filha de Akanosh II, grande comandante
da tribo Ma da Líbia, que conquistou  e governou o
 Egito logo após o fim do período Raméssida.

Contudo, há quem entenda que esta estatueta
 seja do fim da XXV Dinastia, época em
que os faraós negros da Núbia
ou Kush dominaram o Egito,
 a peça é de cerca de
750 a.C.


Uma característica das peças da Baixa Época
é a presença de simpáticas bundinhas
em shabtis e estatuetas, mostrando
 um estilo que nos remete  ao
tempo das Pirâmides.




Estátua do período bubástida, de magnífica concepção e manufatura, exposta
 no Museu de Atenas, aparentemente mostra a mesma Dama Takushit
 da estatueta do Rio de Janeiro. Dizem qua a peça carioca
foi, em verdade, o modelo original que deu
 forma e silhueta à Takushit ateniense.
A pose é quase a mesma, porém em
 bronze finamente incrustado
em ouro e prata.

 
A também bela representação da Rainha Karomana, exposta no Louvre,
 em bronze cinzelado e  dourado, é igualmente magnífica. Mostra-se
contemporânea e correlacionada com os faraós líbios que
governavam o Egito naquele tempo da XXII Dinastia.
Também ligada  à Dama Takushit, cuja a estatueta
é muito similar em estilo, reparem que todas
 parecem caminhar à frente com vigor.
No Rio, em Paris e Atenas, vemos
 obras de arte da XXII Dinastia.




Estela de Senusret-Iunefer 
XII dinastia, c. 1897 a 1878 a.C.



Muitas estelas funerárias do Médio Império.
Uma bela coleção !

Estela de Amenemopet 
XIX Dinastia, cerca de 1300-1200 a.C.

 
Estela de Raia
  XIX Dinastia, cerca de 1300-1200 a.C.
 
 
Estela de Pentjek
Baixa Época, cerca de 650-400 a.C.
 
Estela de Djed-Anhurefankh
XXVI Dinastia, cerca de 650-550 a.C.

 Estela de Nakhtamun
XX Dinastia, cerca de 1200-1070 a.C.


Baixo-relêvo de Sehetepibre
XIII Dinastia, cerca de 1730 a.C.

Estela de Horkefaref (?) e família 
XII-XIII Dinastia, cerca de 1991-1668 a.C.

Estela de Haunefer 
XIX Dinastia, cerca de 1300-1200 a.C.

Estela de Renefankh e família 
XII-XIII Dinastia, cerca de 1991-1668 a.C.

Estela de Mery 
XII-XIII Dinastia, cerca de 1991-1668 a.C

Estela nome desconhecido 
XII-XIII Dinastia, cerca de 600-400 a.C.

Estela de Ruru, filho de Amenemopet 
 XII-XIII Dinastia, cerca de 600-500 a.C.
 
Estela de (Seqedi) Shemre 
XII-XIII Dinastias, cerca de 1991-1668 a.C.

Estela de Huy, filho de Pahu 
XIX Dinastia, reinado de Séthi I, cerca de 1290 a.C.

Estela de Bakenamun 
XII-XIII Dinastia, cerca de 1400 a.C.

Estela de Montusekher 
XII-XIII Dinastia, cerca de 1991-1668 a.C.

Primeira estela de Sahi
XII-XIII Dinastias, cerca de 1991-1668 a.C.

Segunda estela de Sahi
XII-XIII Dinastias, cerca de 1991-1668 a.C.
 
Estela de Ithu 
XIX Dinastia, cerca de 1300-1200 a.C.

A coleção completa de antiguidades egípcias do Museu Nacional, inclusive as peças guardadas na reserva técnica, é composta de: 55 estelas e baixos-relevos, 15 ataúdes ou fragmento deles, 81 objetos votivos ou  estátuas funerárias, 216 shabtis, 29 múmias ou fragmentos delas, 54 amuletos, símbolos ou escaravelhos, 5 papiros e 169 outros objetos e equipamentos funerários.





Acima, ilustrando a capa do catálogo das antiguidades egípcias do Museu Nacional, a interessante figura da estatueta de bronze do Grande Pontífice de Amon, por cerca de 50 anos: Príncipe Men-kheper-re, um irmão do faraó tânita Psusennes I. Este último muito famoso posto que foi encontrado intacto em sua tumba, em magnífico ataúde de prata e com bela máscara de ouro e  muito outros objetos e joias valiosas e de impressionante beleza . A estatueta aqui em questão trata-se de peça arqueológica importante e muito mal conhecida dos brasileiros, esta peça é uma das mais valiosas e emblemáticas da coleção do Museu Nacional. Bem pequena, a estatueta de bronze tem 18,5 centímetros de altura, encontra-se parcialmente danificada, mas no traz prova de que o poder dos sacerdotes de Amon em Tebas se descolava progressivamente da autoridade dos  faraós de Tânis no norte do país. O Estado Pontifício de Amon ao sul do Vale do Nilo era regido apenas por sacerdotes e mostrava-se independente e próspero, seus governantes assumiam progressivamente a autoridade e o título de faraó, como nos prova a estatueta. Este clero que ascendia ao poder temporal e militar, suplantando por fim os faraós dinásticos, chamou este novo tempo e esta sua nova configuração política de " Renascença", a estatueta de Menkheperre no Rio é prova cabal dos primórdios da Renascença de um país, agora conduzida sob um regime clerical , ou se preferirem: divino. Um momento importantíssimo na história desse país , dessa cultura e dessa civilização, a mais pia que jamais existiu.


 

No saiote da estatueta existe um cartucho cercado com toda a tradicional titularia faraônica, inclusos neste os três hieróglifos de seu nome, esta inscrição se constitui em mais uma menção conhecida do fato de o sacerdote Men-kheper-re ter exercido o poder temporal como faraó, e não só como sumo sacerdote, pontífice e comandante militar do grande templo de Amon em Karnak.  Interessante fonte de conhecimento sobre o reino de Menkheperre está nas inscrições das múmias dos antigos faraós, de novo enfaixados e dispostos em esquifes de madeira sem qualquer luxo ou material precioso. Isto ocorreu logo depois do período de grandes saques às tumbas do Vale do Reis, acontecimentos ocorridos durante a XXIª Dinastia, que durou cerca de 128 anos. Nestas múmias restauradas foram encontrados "dockets" nas novas mortalhas, algumas apresentavam o nome de Menkheperre encartuchado, como um faraó entronado e reinante, como o restaurador do funeral e da dignidade das múmias de seus antecessores, desecradas durante os tumultuado últimos dias do Período Raméssida .




Menkheperre, filho do Faraó Pinedjem I com sua esposa Henuttawy (provável filha de Ramsés XI), foi Sumo Sarcerdote de Amon em Tebas de 1045 a.C. a 992 d.C e o governante de facto do sul do Egito. Com seu irmão mais velho no comando do norte do país em Tânis, como o Faraó Psusennes I , o poder de Menkheperre, como também o de seu predecessor como Sumo Sacerdote, seu irmão Masaharta, deve ter sido restrito à esta região do país. Devido ao processo de restauração das múmias dos grandes faraós e também da reciclagem dos materiais funerários preciosos que por ventura tenho sobrado dos saques criminosos sequenciais anteriores, imagina-se que o funeral de Menkheperre e de seu pai possam ter sido os mais ricos e suntuosos de toda a História do Egito. As tumbas destes pontífices-faraós nunca foram encontradas, talvez suas múmias ainda repousem numa remoto sepulcro coletivo muito bem escondido, cercadas de imensa riqueza composta de peças preciosas apropriadas e possivelmente recicladas, formando um conjunto capaz de fazer obscurecer a tumba de Tutankhamon.


Múmia recentemente restaurada de Henuttawy,
a mãe do "faraó"  Menkheperre , Rei de
Tebas e Pontífice de Amon-Rá.

Múmia do Pontífice Masaharta,
irmão e predecessor  de
Menkhperere.


Múmia restaurada do Profeta de Amon 
Djedptahiufankh, talvez também
um irmão de Menkhperere.


As Múmias da XXIª Dinastia
 são as mais perfeitas que
 conhecemos.

Lamentável a perda da
 múmia original
de Hori.


Menkheperre intitulou-se na maior parte da duração do seu domínio tebano como "Primeiro Profeta de Amon", assim como seu avô Herihor o fez, num clara relação com esse status de menor projeção. A estatueta aqui comentada é prova inconteste que num determinado momento de acúmulo de poder temporal, este governante passou a ser apresentado como soberano pleno do Egito Meridional. Como já frisamos anteriormente, a localização das tumbas de alguns dos parentes de Menkheperre, e a dele inclusive, não é conhecida. Recentemente surgiram significativas pistas, num local próximo ao Vale dos Reis, chamado de Wadi el-Gharbi "Vale dos Macacos", notório por abrigar tumbas com múmias desses animais. Talvez seja neste sítio que ainda repousem as múmias e apetrechos funenários dos outros pontífices de Amon: Herihor, Piankh e Menkheperre; descansando a longa noite de contar os anos, ainda em paz, esperando no mundo subterrâneo do sol noturno por mais um período de "renascença".



"Devemos não somente nos defender, mas
 também nos afirmar, e nos afirmar  não
 somente enquanto identidade, 
mas enquanto força
 criativa. 

A questão não é atingir a
 perfeição, mas sim
 a totalidade."

Foucault



 Irado com a falta de informações, com o desinteresse
do corpo técnico da instituição, eu mesmo
colhi o material visual necessário para
então rapidamente expor parte
do acervo aqui
 no blog.

Nós, os interessados, merecemos
conhecer este interessante
patrimônio público.

É patrimônio
nosso !

A Coleção Egiptológica  do Museu Nacional- UFRJ foi desde sempre muito mal conhecida do público em geral, não podemos todos nos dirigir aos arquivos cariocas para então consultar o que já foi catalogado e publicado sobre tão nobre coleção, somos apenas interessado em aspectos gerais, nosso foco  sobre o assunto é obviamente momentâneo ou circunstancial. Foi o renomado egiptólogo britânico Kenneth Kitchen que elaborou este volumoso inventário da coleção, todavia é obra rara de se encontrar. São dois substanciais volumes, onde descreve-se extensivamente a coleção egípcia, tive em mãos aqui no Paraná fotocópias do original. Toda a minha excitação acerca deste estudo único se desfez logo à primeira vista do conteúdo. Como foram elaborados por um egiptólogo tão famoso, especialista no Terceiro Período Intermediário do Egito Antigo, fiz inevitável expectativa. O catálogo da coleção é obra longa e enfadonha, se perde em inacabáveis e técnicas traduções de textos formais e conhecidos das estelas do Médio Império e também sobre os muitos shabits da coleção. As tais estelas funerárias, quase todas bem típicas e padronizadas, versam sobre personagens subalternos do passado, repetem textos e formulas funerárias clássicas, devem interessar a menos de 100 pessoas no planeta. Entre as quais está o autor, que tem com enfoque do seu trabalho a correlação da Egiptologia com os textos bíblicos, por isso tanto interesse nas estelas do tempo de José do Egito. Já sobre a conspícua coleção de múmias, ataúdes, estatuetas e outros itens de muito maior apelo histórico e popular, não se lê nada mais aprofundado quiçá comparativo ou interessantemente pedagógico. Temos por fim, as mesmas e pouquíssimas informações de sempre, contextualizadas rapidamente e sem maiores detalhes sobre as peças mais importantes desta coleção; nada além do que já se sabia, ou seja, mais do mesmo. Também na internet não há maior informação sistemática e estendida sobre este importante acervo. O site do Museu Nacional bem poderia disponibilizar para o resto do mundo alguns artigos e fotos mais detalhadas,  mostrando um quadro mais consistente sobre este  seu expressivo e singular acervo. Nunca pude entrar na reserva técnica, adoraria ver umas fotos deste depósito das peças não expostas. Trata-se de patrimônio público de interesse universal, até hoje enigmático, até mesmo para mim que morei no Rio e sempre manifestei grande interesse pelos objetos e pelo tema. Gostaria realmente de saber mais, via  internet,  fica o estímulo aqui manifestado.


Aqui fiz o que pude, com todas as minhas forças,
 me desculpem algum excesso, mas a minha
 admiração por este acervo sempre foi
  muito aguda e apaixonada.

Qualquer museu estrangeiro teria
interesse nesta coleção, é
de fato preciosa, e uma
das mais valiosas em
solo nacional.




Para conhecimento e
comparação.

Coleções Egiptológicas no
 Hemisfério Sul:



África do Sul - Albany e Durban


Múmias de falcões e íbis, ataúde da XVIIIª Dinastia com múmia ptolomáica
 intrusiva e excelente conjunto de esquife e múmia de sacerdote
ptolomáico de refinado acabamento expostos
 em museus sul-africanos.

Pecas pré-dinásticas oriundas de escavações de
Flinders Petrie expostas na cidade
 sul-africana de Albany.


O conjunto não se compara
 com a coleção carioca.


Museu Sul Australiano  - Adelaide




Esquifes e múmias ptolomáicas na Austrália.


A exposição mistura peças artesanais atuais com
 legítimas antiguidades egípcias, considerem
 apenas o que está acondicionado
nas vitrines mais antigas.

Restos humanos mumficados da baixa época, depois da coleção
 brasileira o acervo de antiguidades egípcias australiano
 é o melhor do hemisfério meridional.





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